25.5.14
25.3.10
do livro PSIA :: Arnaldo Antunes
porque eu te olhava e você era o meu cinema, a minha Scarlat O’Hara, a minha Excalibur, a minha Salambô, a minha Nastassia Filípovna, a minha Brigite Bardot, o meu Tadzio, a minha Anne, a minha Lou Salomé, a minha Lorraine, a minha Ceci, a minha Odete Gracy, a minha Capitu, a minha Cabocla, a minha Pagu, a minha Barbarella, a minha Honey Moon, o meu amuleto de Ogum, a minha Honey Baby, a minha Rosemary, a minha Merlin Monroe, o meu Rodolfo Valentino, a minha Emanuelle, o meu Bambi, a minha Lília Brick, a minha Poliana, a minha Gilda, a minha Julieta, e eu dizia a você do meu amor e você ria, suspirava e ria.***
bibliografia degustada: ANTUNES, Arnaldo. PSIA. São Paulo: Iluminuras, 2001.
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30.7.09
Os sertões :: Grupo Oficina :: Teatro Ritual
(Teatro Oficina Uzyna Uzona 19/09/2006 :: Homem II)
(Ensaio aberto 23/12/2005 :: A Luta I :: estréia em cartaz em 2006)
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16.7.09
a metáfora da torre de babel :: por jerzy grotowski
dos outros, dos mais velhos. Por isso cada um tende a algo que na maioria das vezes não existe; essa é, creio, a doença da civilização, essa multiplicidade de fés; ela pode ter às vezes lados positivos, enquanto rigidez da fé, especialmente se se trata de fé religiosa o para-religiosa, se torna perigosa e conduz ao fanatismo. Porém isso pode ser analisado de diversos pontos de vista; (...)"c. 1423. British Library, Londres
bibliografia degustada:
GROTOWSKI, Jerzy. "Teatro e Ritual" in: Teatro laboratório de Jerzy Grotowski 1959 - 1969. São Paulo: Perspectiva, 2007. p. 126.
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sobre o livro :: Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski
não é preciso dizer que Grotowski é um dos mais significativos diretores e pensadores do teatro contemporâneo. depois de uma leitura gostosa e ao mesmo tempo inquietante do livro Teatro Laboratorio De Jerzy Grotowski, penso que suas teorias são muito mais do que teatro unicamente como expressão artística. ele, em suas palestras, leva o teatro para a vida e traz a vida para o teatro com uma intimidade impressionante nas duas esferas , que são uma na essência dos fatos discorridos por ele. em tom de conversa íntima com o público ele desvela os seus pensamentos e experiências sobre o espaço cênico unitário fora dos parâmetros das salas de teatro, o corpo como memória inscrita de uma subjetividade particular a um indivíduo, o ato como o fim de um movimento interior natural que termina no gesto, a autenticidade do ato, o respeito pelos movimentos do próprio corpo e de sua psique, a relação verdadeira entre ator/espectador, os diálogos e dissonâncias entre teatro e ritual, entre outras considerações viscerais que tocam a mente, o corpo, o espírito. considero suas palestras e textos neste livro reunidos argumentações filosóficas, que além de nos orientar em uma pesquisa voltada para o teatro enquanto arte – ajudando-nos a entender melhor esse universo codificado e decodificado das vertentes teóricas e experimentais – , abrange outras questões infinitas que habitam o ser humano e seu estado constante de confronto com a sua própria natureza.recomendo em especial a leitura da palestra que Grotowski deu na Colômbia em 1970 intitulada "O que foi" (p. 199 a 211). ela por si explica tudo o que me falta em palavras e me sobra em reflexões.

bibliografia indicada:
GROTOWSKI, Jerzy. Teatro laboratório de Jerzy Grotowski 1959 - 1969. São Paulo: Perspectiva, 2007.
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eis o enigma que grotowski suscita :: a pergunta essencial
Um dia Persifal chegou ao castelo do Rei Pescador, o rei estava paralisado, todo o reino estava em decomposição, as mulheres não procriavam, as árvores não davam frutos, as vacas – leite: esterilidade, total ausência de fertilidade. Sentado à mesa convival Persifal avistou um cortejo com uma virgem que carregava um vaso estranho, o cortejo atravessava a sala, saía, depois de algum tempo voltava e a coisa se repetia. Persifal não perguntou nada, a atmosfera do castelo lhe parecia um tanto singular; como se no ar se levantasse algo de obscuro. De manhã percebeu que o castelo estava vazio. Pensou que talvez a caça tivesse engolido todos, montou a cavalo e se pôs a caminho. Enveredou-se pelo bosque, onde se deparou com uma jovem mulher que tinha no colo o corpo morto do amado; então, virou-se para ela dizendo: “o que acontece neste castelo?” – “Você viu o cortejo?” – “Sim”. – “Com a mulher que carregava o vaso?” – “Sim”. – “ E você perguntou?” E Persifal respondeu: “Não, não perguntei”. – “Não perguntou e pela sua falta de curiosidade as mulheres não podem gerar, as árvores não podem dar frutos, as vacas não dão leite e o rei está paralisado. Você não perguntou”.
Creio que quando fazemos as perguntas fundamentais, ou mesmo uma pergunta fundamental, porque na realidade existe talvez só uma, é fácil acabarmos sendo considerados loucos (...) e talvez sejamos loucos (...). Passo a passo a nossa vida vai se transformar, lhe será imposta uma certa linha, uma qualidade totalmente diferente daquela que desejávamos e estaremos repletos de sofrimento, de tristeza e muito sós. Eis porque creio que não se deva repetir o erro de Persifal."
GROTOWSKI, Jerzy. "Teatro e Ritual" in: Teatro laboratório de Jerzy Grotowski 1959 - 1969. São Paulo: Perspectiva, 2007. p. 136.
13.6.09
os laços me trazem algum tipo de desejo ultimamente
este curta-metragem foi o único finalista brasileiro do concurso PROJECT DIRECT, organizado pelo YouTube em novembro de 2007.
filme de flávia lacerda
roteiro: adriana falcão
atores: clarice, célia porto e jô abdu
Meu Deus!... Como é engraçado!...
Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço...
Uma fita dando voltas, se enrosca, mas não se embola;vira, revira, circula e pronto: está dado o abraço.
É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço.
É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em qualquer coisa onde o faço.
E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando devagarinho, desmancha, desfaz o abraço.
E na fita, que curioso, não faltou nenhum pedaço...
Ah! Então é assim o amor, a amizade, tudo que é sentimento? Como um pedaço de fita? Enrosca,segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora, deixando livres as duas bandas do laço?
Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.
E quando alguém briga, então se diz:
— Romperam-se os laços!
E saem as duas partes, que nem meu pedaço de fita — sem perder nem um pedaço.
Então o Amor é isso... Não prende, não escraviza, não aperta, não sufoca.
Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço.
14.4.09
:: foucault, magritte, pessoa, nietzsche :: estados de espíritos fantásticos

4.1.09
prólogo 1 :: genealogia da moral :: friedrich nietzsche
16.12.08
haikais [perene :: etéreo :: intenso]
22.11.08
sobre a sensação :: gilles deleuze

18.11.08
Adiamento :: fernando pessoa
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...

12.11.08
escribir es combatir :: José Martí

guantanamera
composição: Joselito Fernandez
Guantanamera, guajira guantanamera
Guantanamera, guajira guantanamera
Yo soy un hombre sincero
De donde crece la palma
Yo soy un hombre sincero
De donde crece la palma
Y antes de morir me quiero
Echar mis versos del alma
Guantanamera, guajira guantanamera
Guantanamera, guajira guantanamera
Mi verso es de un verde claro
Y de un carmín encendido
Mi verso es de un verde claro
Y de un carmín encendido
Mi verso es un ciervo herido
Que busca en el monte amparo
Guantanamera, guajira guantanamera
Guantanamera, guajira guantanamera
Por los pobres de la tierra
Quiero mis viersos dejar
Por los pobres de la tierra
Quiero yo mis viersos dejar
Por que arroyo de la sierra
Me complace más que el mar
Guantanamera, guajira guantanamera
Guantanamera, guajira guantanamera
9.11.08
Cuidado, cuidado, Deus vê! :: Hieronymus Bosch

OS SETE PECADOS CAPITAIS
acepção dos 7 pecados :: segundo houaiss e patricia mc quade
6.10.08
canção do carcereiro, de jacques prévert
onde vai você meu carcereiro
com essa chave manchada de sangue
vou libertar aquela que eu amo
se é que ainda tenho tempo
e que eu mesmo aprisionei
ternamente cruelmente
no mais escondido do meu desejo
no mais profundo do meu tormento
nas mentiras do futuro
nas bobagens das minhas juras
eu quero libertá-la
quero que ela seja livre
e mesmo que ela me esqueça
e mesmo que ela se vá
e mesmo que ela volte
e que ainda me ame
ou que ame um outro
se um outro lhe agrada
e se eu ficar na solidão
e ela tiver ido embora
eu guardarei apenas
eu guardarei pra sempre
no côncavo das minhas duas mãos
até a minha última hora
a doçura dos seus seios modelados pelo amor
(tradução linda de leo gonçalves)
4.10.08
la maja vestida y la maja desnuda: goya
ninguém sabe afirmar com segurança quem foi a modelo e nem porque francisco goya fez dois quadros, la maja vestida e la maja desnuda. as opiniões se dividem em duas possíveis candidatas: a duquesa de Alba, María del Pilar Teresa Cayetana de Silva y Álvarez de Toledo (afff!), amiga mui íntima de goya, a quem retratou inúmeras vezes por encomenda, ou a amante de manuel godoy conhecida por Pepita Tudó.
godoy era um dos principais mecenas de goya, político importante que atuava junto à coroa espanhola, e quem, na opinião da amante, sentia um amor platônico pela rainha María Luísa de Parma que comandou a vida desse infeliz político como se maneja uma marionete condecorada de bufão.
as obras foram feitas entre 1790 e 1805 e conta-se que os quadros eram justapostos para impressionar a todos com o erotismo do pudico monte de vênus da modelo que se destaca em ambos os quadros - nota-se que as partes íntimas femeninas são mais evidentes no quadro da moça vestida do que naquele em que ela se encontra completamente nua.
estas obras viveram algumas peripécias antes de poderem ser contempladas no museu do prado em madrid: foram confiscadas em 1807 por Fernando VII, el deseado, rey da espanha (fazer o que com elas, nunca se soube!); e foram mais tarde raptadas pela inquisição e tachadas como "obsenas".
goya se livrou do inquérito por causa de estreitas relações com o cardeal luis maría de bourbon (uiiii!!!), e o quadro se livrou da fogueira. porém, ficou longe das vistas do público até início do séc. XX. tudo por causa da dita maldita sensualidade femenina que goya soube retratar com tanta destreza.


"à procura do Prazer sem interesse prático imediato é hoje o meu divertimento, é para mim uma necessidade vital.
francisco goya
2.10.08
"Candalia" :: grupo ALBATROZ

intervenção urbana
grupo albatroz em diálogo com os espaços da capital mineira
hoje, no final da labuta, fui informada através de um convite sobre a performance do grupo albatroz que aconteceria na praça da estação.
chegamos às portas da estação e três moças de branco esperavam por alguém exatamente no momento que antecede à chegada do trem Vitória-Minas, às 19:30h, nesta quarta-feira.
a primeira, chama constantemente por um passarinho, caminha nas pontas dos pés com uma sombrinha aberta e uma gaiola vazia, parece quase não tocar o chão ao correr.
a segunda, com um saco de maçãs verde-esperança na mão, conversa com pessoas que esperam por parentes e amigos, fala frases em francês e se parece a um personagem em branco e preto, pertencente a uma outra época, a do cinema mudo.
a terceira, diz a todos que está esperando um homem muito branco de olhos verdes como duas maçãs e traz uma pequenina sombrinha aberta em uma das mãos para se proteger inevitavelmente de algo.
mais dois homens de viola acompanham as moças observando a tudo, mas, por enquanto, calados de música.
quando o trem chega os cinco se dirigem simetricamente ao portão de desembarque, caminham enquanto cantam uma longa, lenta e melancólica canção para receberem os seus esperados.
os passageiros que descem do trem se deparam com as personagens que poderiam ter saído das páginas de um conto de virgínia wolff.
algumas bocas sorriem, outras tentam disfarçar a falta de graça misturada com surpresa, tem as que passam pelo saguão forçando a sensação de acharem tudo muito normal e desviam seus corpos dos corpos vidrados na canção de espera ainda entoada. há também aquelas que arriscam um beijinho em tchauzinho, e as que se assustam de verdade com a inesperada cena.
eu que tentei ver a quase tudo, não sabia se olhava para os rostos dos que chegavam ou dos que presentificavam a angustiosa canção de espera de quem não vem.
foi um verdadeiro presente esse convite-espera para mim.
não tenho palavras para dizer o que senti, então pinto as cenas aqui com minhas cores e meus pincéis.
a próxima apresentação será nesta quinta, dia 02/10, às 19:30h na praça da estação.
1.10.08
como aprender a pensar?
a maior habilidade humana que possuímos é a nossa incrível capacidade de aprender, de pensar, de refletir sobre o que nos é apresentado como conhecimento, de nos aperfeiçoar, de encontrar soluções para variados problemas nas condições mais diversas. a família e a escola são, sem dúvida, as principais responsáveis nessa tarefa de desenvolver a notável capacidade de pensar nas nossas crianças desde a mais tenra idade e devem estar aliadas nessa busca de levá-las pelos caminhos de conhecer o que o ser humano já produziu enquanto conhecimento e o que ele ainda pode produzir, enquanto novidades. mas a pergunta incômoda é: como fazer?a criança chega ao mundo e já começa a aprender com ele. os conhecimentos que ela vai assimilando, progressivamente vão sendo colocados em prática, em um constante teste para ver como tudo funciona e se realmente funciona. esse mundo é infinitamente desconhecido para a criança, assim como a criança é um ser desconhecido para o mundo. é nesse choque entre o antigo e o novo, entre a tradição e a sua renovação, entre a revelação do mundo e a criança, que acontece a descoberta do saber. com o conhecimento progressivo do mundo que a rodeia, a criança vai desenvolvendo e descobrindo a sua própria maneira de pensar esse mundo, ao mesmo tempo em que começa a conhecer a si mesma.
estamos todo o tempo lidando com novos conhecimentos por diversos meios tecnológicos e midiáticos, mas serão somente esses novos conhecimentos os que melhor dialogam com a juventude? as chamadas “velhas tradições” (contação de histórias, fábulas, mitologias, lendas, cantigas, história da filosofia, etc.) que ensinaram os homens e as mulheres mais notáveis de nossa história não deveriam ter um lugar privilegiado na aprendizagem de nossas crianças? o contato com a arte – seja ela da antigüidade clássica, da era moderna ou pós-moderna – não ajudaria as crianças a serem introduzidas no complexo sistema de nossa sociedade de maneira mais prazerosa (e isso não descarta o incômodo que a arte também nos provoca) e significativa? ao se refletir sobre o extenso passado da humanidade, não se compreenderia melhor o nosso presente e possibilitaria a construção de um futuro com pessoas mais conscientes de seus papéis políticos no mundo?
a história da humanidade é tão rica em culturas e descobertas científicas que pensar em estudar o mundo sob o prisma de sua tradição pode ser uma resposta. não se trata aqui de conhecimentos “conteudistas”, onde a criança assimila informações e as reproduz tal qual como as aprendeu. definitivamente não! trata-se de ensinar as nossas crianças a refletirem sobre a sua própria história, que é a história de toda a humanidade.
28.8.08
conversa de balangandãs
— pois eu gosto de dengo!
— e eu de bunda!
ele já esperava para dar sua resposta com os lábios levemente contraídos entre os dentes.
— veja como é gostoso dizer: que bunda!
conclui repetindo o mesmo gesto sensual dos lábios dando mais ênfase ao aspecto sonoro da palavra.
— o que está acontecendo aqui?
chega um outro tentando adivinhar o que era aquele fragmento de conversa que acabava de pescar.
depois de se inteirar dá o seu veredicto se aproximando da orelha da moça:
— pois eu gosto de cuchicho!
com uma piscadinha de olho pra ela, quase como um convite, sai de cena.