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25.5.14

"¿Oirías desde aquí el crecimiento de la margarita?". 
Juan L.Ortiz

iSeguro que sí! Junto a tus oídos llegará un soplido calentito de aliento agridulce mientras los pétalos de la margarita despacito se abren...
Patrícia McQuade

25.3.10

do livro PSIA :: Arnaldo Antunes

porque eu te olhava e você era o meu cinema, a minha Scarlat O’Hara, a minha Excalibur, a minha Salambô, a minha Nastassia Filípovna, a minha Brigite Bardot, o meu Tadzio, a minha Anne, a minha Lou Salomé, a minha Lorraine, a minha Ceci, a minha Odete Gracy, a minha Capitu, a minha Cabocla, a minha Pagu, a minha Barbarella, a minha Honey Moon, o meu amuleto de Ogum, a minha Honey Baby, a minha Rosemary, a minha Merlin Monroe, o meu Rodolfo Valentino, a minha Emanuelle, o meu Bambi, a minha Lília Brick, a minha Poliana, a minha Gilda, a minha Julieta, e eu dizia a você do meu amor e você ria, suspirava e ria.

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bibliografia degustada: ANTUNES, Arnaldo. PSIA. São Paulo: Iluminuras, 2001.

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30.7.09

Os sertões :: Grupo Oficina :: Teatro Ritual

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interesses culturais, pessoais, artíticos, históricos, geográficos, literários, filosóficos, cênicos, performáticos, musicais, plásticos, arqueológicos, biográficos, ritualísticos, humanos, antropofágicos, corporais, biológicos, poéticos, políticos, sociais, metafísicos, comunicativos, expressivos, antropológicos, estratégicos, dançantes, teológicos, astrológicos, experimentais, caricaturais, etc.
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ufa! uma pesquisa que me acomete a 3 anos.
divido com vcs alguns vídeos da peça.
em alguns deles eu estava presente de corpo
e entregue de alma ; j
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é um espetáculo simplismente maravilhoso de ver com os ouvidos, tocar com os olhos, sentir com a razão e pensar com o coração. experimente fazer isso, é pura metafísica!
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(Associação Teatro Oficina apresenta"Os Sertões" ::
Rio de Janeiro nov/2007)



(Rio São Francisco :: A Terra :: em Os Sertões :: Rio de Janeiro 06/11/2007)




(Teatro Oficina Uzyna Uzona o2/10/2006 :: Homem I)




(Teatro Oficina Uzyna Uzona 19/09/2006 :: Homem II)



(Ensaio aberto 23/12/2005 :: A Luta I :: estréia em cartaz em 2006)


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(Teatro Oficina Uzyna Uzona 10/10/2006 :: A Luta II)
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16.7.09

a metáfora da torre de babel :: por jerzy grotowski

"Ludwik Flaszer, o meu estreito colaborador, usou uma vez a metáfora da torre de Babel, que gostaria de desenvolver: parece-me de fato que hoje não só cada coletividade tradicional tenha se tornado uma torre de Babel, na qual as línguas sofreram uma nova mistura e na qual se esvaíram as crenças comuns, mas também cada homem é uma torre de Babel, por que na base do seu ser não há um sistema uniforme de valores. Na forma extrema podem observá-lo em vocês mesmos. Em cada um de vocês provavelmente coexistem diversas crenças: em primeiro lugar, a fé tradicional, a religião tradicional com a qual talvez vocês tenham rompido mas que permanece viva nos estratos profundos do seu ser – é essa que articula a linguagem da imaginação; em segundo lugar, aquela fé (se não desejamos chamá-la de religião, falemos em última análise de filosofia) à qual vocês aspiram conscientemente; no fundo vocês se esforçam para convencer os outros e vocês mesmos de que possuem essa fé de verdade, o que, em suma, se reduz mais a preocupar-se por possuir essa fé geral, do que em possuí-la de verdade, porque estão agitados demais dentro de vocês; depois, têm essa vida dividida entre diversos círculos sociais, pequenos pensamentozinhos, diria crenças pela metade para uso da família, dos colegas, do ambiente de trabalho; mas na base disso tudo há no profundo do seu ser algo como um esconderijo secreto, onde turbilhonam aspirações, crenças autênticas, a fé abandonada; eis a verdadeira torre de Babel. Vocês são assim porque nenhum de vocês quer reconciliar-se com o próprio ser. O velho quer ser um jovenzinho, o jovem quer ser moderno, mas não ele mesmo, porque a vontade de ser moderno se reduz – apesar de todos os protestos – à imitação dos outros, dos mais velhos. Por isso cada um tende a algo que na maioria das vezes não existe; essa é, creio, a doença da civilização, essa multiplicidade de fés; ela pode ter às vezes lados positivos, enquanto rigidez da fé, especialmente se se trata de fé religiosa o para-religiosa, se torna perigosa e conduz ao fanatismo. Porém isso pode ser analisado de diversos pontos de vista; (...)"
quadro de: Duke of Bedford, "Torre de Babel",
c. 1423. British Library, Londres


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bibliografia degustada:

GROTOWSKI, Jerzy. "Teatro e Ritual" in: Teatro laboratório de Jerzy Grotowski 1959 - 1969. São Paulo: Perspectiva, 2007. p. 126.

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sobre o livro :: Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski

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não é preciso dizer que Grotowski é um dos mais significativos diretores e pensadores do teatro contemporâneo. depois de uma leitura gostosa e ao mesmo tempo inquietante do livro Teatro Laboratorio De Jerzy Grotowski, penso que suas teorias são muito mais do que teatro unicamente como expressão artística. ele, em suas palestras, leva o teatro para a vida e traz a vida para o teatro com uma intimidade impressionante nas duas esferas , que são uma na essência dos fatos discorridos por ele. em tom de conversa íntima com o público ele desvela os seus pensamentos e experiências sobre o espaço cênico unitário fora dos parâmetros das salas de teatro, o corpo como memória inscrita de uma subjetividade particular a um indivíduo, o ato como o fim de um movimento interior natural que termina no gesto, a autenticidade do ato, o respeito pelos movimentos do próprio corpo e de sua psique, a relação verdadeira entre ator/espectador, os diálogos e dissonâncias entre teatro e ritual, entre outras considerações viscerais que tocam a mente, o corpo, o espírito. considero suas palestras e textos neste livro reunidos argumentações filosóficas, que além de nos orientar em uma pesquisa voltada para o teatro enquanto arte – ajudando-nos a entender melhor esse universo codificado e decodificado das vertentes teóricas e experimentais – , abrange outras questões infinitas que habitam o ser humano e seu estado constante de confronto com a sua própria natureza.

recomendo em especial a leitura da palestra que Grotowski deu na Colômbia em 1970 intitulada "O que foi" (p. 199 a 211). ela por si explica tudo o que me falta em palavras e me sobra em reflexões.


“É necessário dar-se conta de que o nosso corpo é a nossa vida. No nosso corpo, inteiro, são inscritas todas as experiências. São inscritas sobre a pele e sob a pele, da infância até a idade presente e talvez também antes da infância, mas talvez também antes do nascimento da nossa geração. O corpo-vida é algo de tangível”. (grotowski, p. 205)

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bibliografia indicada:

GROTOWSKI, Jerzy. Teatro laboratório de Jerzy Grotowski 1959 - 1969. São Paulo: Perspectiva, 2007.

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eis o enigma que grotowski suscita :: a pergunta essencial

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"Porém, o fenômeno existe e a pergunta foi feita. Qual pergunta? A pergunta: “o que é essencial? O que é verdadeiramente essencial?”

Um dia Persifal chegou ao castelo do Rei Pescador, o rei estava paralisado, todo o reino estava em decomposição, as mulheres não procriavam, as árvores não davam frutos, as vacas – leite: esterilidade, total ausência de fertilidade. Sentado à mesa convival Persifal avistou um cortejo com uma virgem que carregava um vaso estranho, o cortejo atravessava a sala, saía, depois de algum tempo voltava e a coisa se repetia. Persifal não perguntou nada, a atmosfera do castelo lhe parecia um tanto singular; como se no ar se levantasse algo de obscuro. De manhã percebeu que o castelo estava vazio. Pensou que talvez a caça tivesse engolido todos, montou a cavalo e se pôs a caminho. Enveredou-se pelo bosque, onde se deparou com uma jovem mulher que tinha no colo o corpo morto do amado; então, virou-se para ela dizendo: “o que acontece neste castelo?” – “Você viu o cortejo?” – “Sim”. – “Com a mulher que carregava o vaso?” – “Sim”. – “ E você perguntou?” E Persifal respondeu: “Não, não perguntei”. – “Não perguntou e pela sua falta de curiosidade as mulheres não podem gerar, as árvores não podem dar frutos, as vacas não dão leite e o rei está paralisado. Você não perguntou”.

Creio que quando fazemos as perguntas fundamentais, ou mesmo uma pergunta fundamental, porque na realidade existe talvez só uma, é fácil acabarmos sendo considerados loucos (...) e talvez sejamos loucos (...). Passo a passo a nossa vida vai se transformar, lhe será imposta uma certa linha, uma qualidade totalmente diferente daquela que desejávamos e estaremos repletos de sofrimento, de tristeza e muito sós. Eis porque creio que não se deva repetir o erro de Persifal."

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bibliografia degustada:

GROTOWSKI, Jerzy. "Teatro e Ritual" in: Teatro laboratório de Jerzy Grotowski 1959 - 1969. São Paulo: Perspectiva, 2007. p. 136.

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13.6.09

os laços me trazem algum tipo de desejo ultimamente

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laços :: ties ::



este curta-metragem foi o único finalista brasileiro do concurso PROJECT DIRECT, organizado pelo YouTube em novembro de 2007.

filme de flávia lacerda
roteiro: adriana falcão
atores: clarice, célia porto e jô abdu


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O LAÇO E O ABRAÇO

de Maria Beatriz Marinho dos Anjos

Meu Deus!... Como é engraçado!...
Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço...
Uma fita dando voltas, se enrosca, mas não se embola;vira, revira, circula e pronto: está dado o abraço.
É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço.
É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em qualquer coisa onde o faço.
E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando devagarinho, desmancha, desfaz o abraço.
E na fita, que curioso, não faltou nenhum pedaço...
Ah! Então é assim o amor, a amizade, tudo que é sentimento? Como um pedaço de fita? Enrosca,segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora, deixando livres as duas bandas do laço?
Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.
E quando alguém briga, então se diz:
— Romperam-se os laços!
E saem as duas partes, que nem meu pedaço de fita — sem perder nem um pedaço.
Então o Amor é isso... Não prende, não escraviza, não aperta, não sufoca.
Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço.

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agradeço a autora maria beatriz marinho dos anjos pela gentil autorização em editar aqui "o laço e o abraço". este texto está circulando pela internet como autoria atribuída a mário quintana. segue o email da autora enviado a mim depois que solicitei esclarecimentos sobre o caso.

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Oi, Patrícia!
O texto realmente é de minha autoria. As versões que circulam na Internet contêm várias adulterações, quando as pessoas não o assinam ou acrescentam frases que distorcem a idéia inicial. Eu agradeço o seu contato, que nos permite desfazer esse equívoco. Ter um texto atribuído a Mário Quintana pode ser muito lisonjeiro para mim, mas existem versões circulando com o seu nome, inclusive com erros de Português, o que também não é justo com ele. Sua postura ética mostra que tem valido a pena batalhar para recuperar o que me é de direito. Estou enviando a você uma cópia do texto original e a do documento que comprova minha autoria (embora não o tenha solicitado). E é claro que tem minha autorização para utilizá-lo.
Com um grande abraço, Beatriz

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14.4.09

:: foucault, magritte, pessoa, nietzsche :: estados de espíritos fantásticos


“A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer
ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível”.
M. Foucault

(La Philosophie dans le Boudoir, René Magritte)


"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas,
que já tem a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia:
e, se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos."

Fernando Pessoa

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depois de uma conversa rápida com a minha amiga luciana gonçalves, comecei a pensar em algumas aprendizagens que podemos tirar da realidade que sofremos e da ficção que vivemos. aqui então postei algumas conclusões emprestadas desses espíritos fantásticos que nos ajudam a ver como "a vida é!" a partir de uma ilusão de ótica, pois talvez não suportaríamos encarar a realidade em sua nudez e brilho ofuscante. talvez se assim fosse nós não conseguiríamos viver para contar essa experiência. assim aconteceu com a ousada sêmele (mãe de dionisio) que morre fulminada depois de ver zeus em sua forma real e esplendorosa de deus. a arte e os mitos nos ensinam muito. a realidade não deve ser encarada de frente, deve ser vista através de frestas, de espelhos ou reflexos, com toda a precaução necessária que devemos ter quando nos colocamos diante do perigo - ela é a fera que nos espreita. senão, podemos ser transformados em estátua de pedra :: a imobilidade, a falta de re-ação frente a tomada de decisões. a realidade é essa medusa que combatemos todos os dias de nossas vidas e que a ficção nos ajuda a suportá-la, quiçá vencê-la. para isso criamos personagens de nós mesmos, multidões deles. aqui está também um pouquinho de minhas leituras de nietzsche.

bjs lu :*

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4.1.09

prólogo 1 :: genealogia da moral :: friedrich nietzsche


nós, homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmos somos desconhecidos - e não sem motivo. nunca nos procuramos: como poderia acontecer que um dia nos encontrássemos? com razão alguém disse: "onde estiver teu tesouro, estará também teu coração". nosso tesouro está onde estão as colméias do nosso conhecimento. estamos sempre a caminho delas, sendo por natureza criaturas aladas e coletoras do mel do espírito, tendo no coração apenas um propósito - levar algo "para casa". quanto ao mais da vida, as chamadas "vivências", qual de nós pode levá-las a sério? ou ter tempo para elas? nas experiências presentes, receio, estamos sempre "ausentes": nelas não temos nosso coração - para elas não temos ouvidos. antes, como alguém divinamente disperso e imerso em si, a quem os sinos acabam de estrondear no ouvido as doze batidas do meio-dia, e súbito acorda e se pergunta "o que foi que soou?", também "quem somos realmente?", e em seguida contamos, depois, como disse, as doze vibrantes batidas da nossa vivência, da nossa vida, nosso ser - ah! e contamos errado... pois continuamos necessariamente estranhos a nós mesmos, não nos compreendemos, temos que nos mal-entender, a nós se aplicará para sempre a frase: "cada qual é o mais distante de si mesmo" - para nós mesmos somos "homens do desconhecimento"...


***

somente uma provocação ao pensamento ontológico de nietzsche que nos suscita, quer se queira ou não, o desejo de nos desvendar. quem sou eu? quem somos nós? de onde vêm esses valores morais que apreendemos socialmente e que acreditamos ser nossos? para que serve a moral? como ela acontece? a moral é uma característica inata do ser humano? você saberia se responder? 

***

primeira leitura filosófica intensa do ano:

NIETZSCHE, Friedrich. genealogia da moral, uma polêmica. São Paulo: companhia da Letras, 2007.

16.12.08

haikais [perene :: etéreo :: intenso]


para augusto de castro



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rubra surpresa de flôr
os sete olhos de Tara
guardam íntimas palmas

***

nas palmas, os olhos
seduzem o etéreo da flôr 
em eterna Tara

***

que o carmim da flor
seja etéreo para que dure
sua intensa cor

***

22.11.08

sobre a sensação :: gilles deleuze


"... o que é uma sensação?

É a operação de contrair em uma superfície receptiva trilhões de vibrações."

DELEUZE, Gilles. Bergsonismo. Trad. de Luiz B. L. Orlandi. SP: Ed. 34, 1999.


a citação é uma provocação ao pensamento suscitada por davi pantuzza. a foto foi presente de cléa batista. achei que a questão provocativa combina certinho com a foto em alguns casos.

fica o não dito pelo dito-imagem.

18.11.08

Adiamento :: fernando pessoa


Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Álvaro de Campos

***

fim de ano, muitos projetos escolares por cumprir, centenas de avaliações por corrigir e dezenas de páginas de relatórios por escrever. sim! só depois de amanhã pensarei no trabalho que deveria ter finalizado e entregue ontem. o meu sono é mais urgente. o meu prazer é inadiável. paro tudo só para escrever o que não preciso, só para ler o que não tem necessidade prática imediata, só para cantar a noite e a lua, o sol e o azul de me querer livre. depois de amanhã darei conta de todos os meus compromissos burocráticos de praticidade sufocante. 

esse poema é a síntese do meu estado de espírito hoje, ontem e anteontem. depois de amanhã sentirei a encrenca em que eu me meti. e se sobreviver às cobranças e broncas, brindarei o porvir, sim o porvir de adiar tudo de novo.

obrigada pessoa!

12.11.08

escribir es combatir :: José Martí


"uma pitada de poesia já basta
para perfumar um século inteiro".
josé martí

esta frase eu ouvi sendo repetida calorosamente hoje por um motorista de taxi cubano residente em bh a mais de 10 anos.
silêncio intenso durante o percurso do taxi lotação que sobe e desce a avenida afonso penna, nos descobrimos quando o carro parou em um transito imenso depois da praça tiradentes. pelo sotaque perguntei de onde ele era. "soy de cuba", me contestó en español.
depois disso foram mil as descobertas de afinidades. compay segundo, ibrahim ferrer, omara portuondo, che guevara, críticas políticas a fidel castro. no entanto, o tema mais intenso e de maior sintonia foi el apóstol José Martí.

HIJO


Espantado de todo, me refugio en ti.
Tengo fe en el mejoramiento humano, en la vida futura, en la utilidad de virtud, y en ti.
Si alguien te dice que estas páginas se parecen a otras páginas, diles que te amo demasiado para profanarte así. Tal como aquí te pinto, tal te han visto mis ojos. Con esos arreos de gala te me has aparecido. Cuando he cesado de verte en una forma, he cesado de pintarte. Esos riachuelos han pasado por mi corazón.
¡Lleguen al tuyo!
(obra poética: Ismaelillo)


***
José Martí foi um grande intelectual do séc. XIX que soube usar a pena como uma ferramenta revolucionária desde a sua juventude. Foi preso político quando era um adolescente por causa de seus textos inflamados que incitavam a revolução das massas. Fez uso da ironía para provocar o incômodo moral nos opresores inimigos dos direitos humanos e da liberdade de Cuba e sonhava essa mesma liberdade também para toda América. Seus ideais revolucionários foram tão intensos que perduraram ao longo do séc. XX e serviram de inspiração e força política para a revolução cubana em 58. Conhecia profundamente a cultura Européia e de boa parte da América. Foi artista, sensível e culto, de muito talento e imaginação, um excelente orador, de raro sentido estético e ético. Acreditava no homem como um ser que poderia revolucionar o mundo onde vivia. Através de sua escrita soube defender suas causas mais nobres como o sonho da união da América Latina e a liberdade de todos os povos. Além de contribuir para os pensamentos ideológicos de sua época, difundiu uma literatura cubana mais livre dos moldes europeus. Seu estilo era movido pelo ímpeto de seu espírito revolucionário, amplo e majestoso. Trouxe para a sua poesia o calor de sua dor de forma latente que até hoje no há quem no se sinta provocado diante dela. Devoto de sua pátria se tornou um símbolo latinoamericano de resistência contra o colonizador — antes o espanhol, agora o norte americano. Chamado “el apóstol” tinha uma visão do futuro da América e conseguiu ver através da nebulosidade que ocultavam seu destino político o advento de um novo opressor: não aquele distanciado geograficamente pelo oceano Atlântico, mas uma super-potência que se formava, que começava a apresentar as pontas de suas garras dominadoras — EUA. Suas palavras eram de um poder metafórico e uma força lírica que surpreendia a muitos:

“El desdén del vecino formidable, que no la conoce, es el peligro mayor de nuestra América; y urge, porque el día de la visita está próximo, que el vecino la conozca. La conozca pronto, para que no la desdeñe. Por el respeto, luego que la conociese, sacaría de ella las manos.”

José Martí esteve a frente de seu tempo. Enquanto muitos intelectuais tentavam instituir seus pensamentos cheios de preconceitos contra as raças consideradas selvagens, consideradas por eles pertencentes a civilizações primitivas e inferiores (índios, negros, mestiços), Martí erguia a bandeira humana de que somos todos iguais em direitos e que nenhuma raça tem qualquer direito especial sobre uma outra. Além disso, afirmou que não existem raças, existem diferenças físicas e culturais, pois somos todos parte da espécie humana:

“No hay odio de razas, porque no hay razas”.

***
Em 19 de maio de 1895, no comando de um pequeno contingente de patriotas cubanos, após um encontro inesperado com tropas espanholas nas proximidades do vilarejo de Dos Rios, José Martí é atingido à bala e vem a falecer em seguida. Seu corpo, mutilado pelos soldados espanhóis, é exibido à população e posteriormente sepultado na cidade de Santiago de Cuba, em 27 de maio do mesmo ano.



guantanamera
raices de américa
poema: José Martí
composição: Joselito Fernandez

Guantanamera, guajira guantanamera
Guantanamera, guajira guantanamera

Yo soy un hombre sincero
De donde crece la palma
Yo soy un hombre sincero
De donde crece la palma
Y antes de morir me quiero
Echar mis versos del alma

Guantanamera, guajira guantanamera
Guantanamera, guajira guantanamera

Mi verso es de un verde claro
Y de un carmín encendido
Mi verso es de un verde claro
Y de un carmín encendido
Mi verso es un ciervo herido
Que busca en el monte amparo

Guantanamera, guajira guantanamera
Guantanamera, guajira guantanamera

Por los pobres de la tierra
Quiero mis viersos dejar
Por los pobres de la tierra
Quiero yo mis viersos dejar
Por que arroyo de la sierra
Me complace más que el mar

Guantanamera, guajira guantanamera
Guantanamera, guajira guantanamera


9.11.08

Cuidado, cuidado, Deus vê! :: Hieronymus Bosch


OS SETE PECADOS CAPITAIS


o pecado original sempre foi uma temática que impressiona o meu imaginário feminino. os sete pecados estão, no meu ponto de vista, condensados neste pecado primeiro da desobediência de eva, ocasionando inevitavelmente a libertação de lilith e nos salvando do tedioso paraíso perfeito. imagine um sexo confinado (e)ternamente à ordem: "crescei e multiplicai". imagine o corpo sempre disposto à obediência e ao trabalho sem nenhuma vez experimentar a morosidade do relaxo, do ócio, da entrega total aos sentidos de sua matéria. imagine o corpo contido de impulsividade, nulo de reações frente às adversidades, sempre controlador das paixões. imagine um mundo sem paixões!
foram elas, as paixões, que levaram o ser humano a criar as mais belas obras de arte, a vencer as limitações de seus conhecimentos intuitivos, míticos, para fazer ciência e entender melhor a própria natureza humana e o mundo no qual (co)habitamos. é pela paixão - no duplo sentido da palavra: de martírio e de amor avassalador e intenso - que pintamos a nossa própria "realidade" com as cores que escolhemos a fim de alimentar o fogo divino roubado por prometeu e continuar a jornada de nossas vivências.
Hieronymus Bosch, dizem, foi um artista extremamente moralista e alegórico – no sentido de pintar figuras compostas pela redundância de um significado que tem, geralmente, cunho moralizante, através do uso de imagens que possuem uma explícita significação coletiva. talvez o quadro Os sete pecados capitais fora encomendado por uma ordem monástica da época, mas isso ninguém pode afirmar. Bosch escolhia personagens de lendas, provérbios e superstições populares, dando-lhes um aspecto fantástico próprio de sua arte, uma visão de mundo condicionada por suas limitações sensoriais condizentes com o pensamento mítico de sua época. uma capacidade sensitiva de capitar essa "realidade" lhe permitiu abordar desde os pecados humanos até sua terrível conseqüência, o inferno. para mim, Bosch demonstrou especialmente neste quadro sua preocupação para com o homem, mostrou de forma contundente e sem rodeios sua percepção apocalíptica dessa condição humana e foi além das barreiras religiosas inquisitivas colocando o homem como centro de seu universo artístico. percebe-se que a paixão de Bosch não é Deus, ou a religião, ou a moral; é o homem tal qual ele é: avarento, luxurioso, irado, preguiçoso, guloso, invejoso e soberbo. não dá pra negar o que faz parte da natureza humana.
na obra Os Sete Pecados Capitais, jesus cristo — deus/homem — se encontra no centro do painel, cercado por um largo anel dourado no qual está inscrito em latim uma frase que podemos ler como um mantra, talvez negativo, que denuncia a espionagem divina: "Cuidado, cuidado, Deus vê". a esfera central nos remete à imagem de um olho humano, com pupila e íris. cristo é o homem que está dentro da pupila. seria o olho de Deus, Aquele que tudo vê. ou poderia ser o olho do inquisitor, vigilante, carnífice, que legitimava pelo nome de Deus a fogueira que acendia o verdadeiro inferno para queimar profanos, bruxas e libertinos?! ao redor temos a representação de cada um dos sete pecados capitais em cenas do cotidiano da época, cíclicas: portanto infinitas, familiares aos observadores que podem flagrar a si mesmos cometendo esses mesmos pecados. nos quatro rincões da moldura encontramos círculos, dentro dos quais estão as figuras oníricas da morte, do juízo final, do inferno e do paraíso. esse circulo central leio como uma mandala que, talvez, sem Bosch se dar conta e obedecendo a sua força de expressividade, ele pintou — de forma alegórica sim — a representação dos elementos pecaminosos que fazem parte intrínseca do ser humano. os outros círculos ao redor seriam partes do universo imaterial que o humano cria a partir de seu imaginário herdado pelo cristianismo, algo fora dele, como se fossem poderes controladores, que insitam a autoflagelação psíquica/física. essa mandala central seria, portanto, a luta do ser humano pela unidade do eu, pela unidade de sua natureza, ou melhor dizendo, pela unidade de seus pecados que o tornam essencialmente humanos.
essa é a minha ousada leitura desse quadro!
Hieronymus Bosch nasceu por volta de 1450 em província holandesa, provavelmente na pequena cidade de Hertogenbosch, da qual é quase certo que derivou seu sobrenome artístico.
***
"O momento ápice no desenvolvimento humano é o todo contínuo de seus pecados. É por causa deles que existem as mais extraordinárias descobertas e também as ordens cristãs. Esta última declara tudo imundo, tudo profano; enquanto a primeira é condizente ao estado original do homem, sem corruptelas. Tudo o que ocorreu antes do pecado, nada aconteceu". Hieronymus Bosch

acepção dos 7 pecados :: segundo houaiss e patricia mc quade

avareza: desejo intenso e violento de possuir; concupiscência de bens materiais; anelo de prazeres sensuais; falta de magnanimidade, de generosidade; mesquinharia.
gula: desejo ardente de comer; desejo sensual imoderado; atração irresistível por...; gulodice; vício de comer e beber (alguém) em excesso.
luxúria: amor aos prazeres da carne; corpo lascivo propenso à libertinagem; corrupção do viço; atração desmesurada pelo falo ou/e pelo monte de vênus.
preguiça: aversão ao trabalho; estado de indolência do corpo sensual, morosidade, negligência das responsabilidades, ócio, vagabundagem, vadiagem.
inveja: provocado pela prosperidade ou alegria alheia; desejo irrefreável de possuir ou gozar, em caráter exclusivo, o que é possuído ou gozado por outrem.
soberba: arrogância, amor próprio exagerado; capacidade a atribuir a si os direitos de outros; altura de algo que é superior a outro; elevação, estado sobranceiro.
ira: raiva, ódio, paixão desmesurada que nos incita contra alguém, desejo de vingança; rancor generalizado em função de alguma situação injuriante; fúria, indignação, cólera.

6.10.08

canção do carcereiro, de jacques prévert

onde vai você meu carcereiro
com essa chave manchada de sangue
vou libertar aquela que eu amo
se é que ainda tenho tempo
e que eu mesmo aprisionei
ternamente cruelmente
no mais escondido do meu desejo
no mais profundo do meu tormento
nas mentiras do futuro
nas bobagens das minhas juras
eu quero libertá-la
quero que ela seja livre
e mesmo que ela me esqueça
e mesmo que ela se vá
e mesmo que ela volte
e que ainda me ame
ou que ame um outro
se um outro lhe agrada
e se eu ficar na solidão
e ela tiver ido embora
eu guardarei apenas
eu guardarei pra sempre
no côncavo das minhas duas mãos
até a minha última hora
a doçura dos seus seios modelados pelo amor

(tradução linda de leo gonçalves)

salamalandro

4.10.08

la maja vestida y la maja desnuda: goya

ninguém sabe afirmar com segurança quem foi a modelo e nem porque francisco goya fez dois quadros, la maja vestida e la maja desnuda. as opiniões se dividem em duas possíveis candidatas: a duquesa de Alba, María del Pilar Teresa Cayetana de Silva y Álvarez de Toledo (afff!), amiga mui íntima de goya, a quem retratou inúmeras vezes por encomenda, ou a amante de manuel godoy conhecida por Pepita Tudó.

godoy era um dos principais mecenas de goya, político importante que atuava junto à coroa espanhola, e quem, na opinião da amante, sentia um amor platônico pela rainha María Luísa de Parma que comandou a vida desse infeliz político como se maneja uma marionete condecorada de bufão.

as obras foram feitas entre 1790 e 1805 e conta-se que os quadros eram justapostos para impressionar a todos com o erotismo do pudico monte de vênus da modelo que se destaca em ambos os quadros - nota-se que as partes íntimas femeninas são mais evidentes no quadro da moça vestida do que naquele em que ela se encontra completamente nua.

estas obras viveram algumas peripécias antes de poderem ser contempladas no museu do prado em madrid: foram confiscadas em 1807 por Fernando VII, el deseado, rey da espanha (fazer o que com elas, nunca se soube!); e foram mais tarde raptadas pela inquisição e tachadas como "obsenas".

goya se livrou do inquérito por causa de estreitas relações com o cardeal luis maría de bourbon (uiiii!!!), e o quadro se livrou da fogueira. porém, ficou longe das vistas do público até início do séc. XX. tudo por causa da dita maldita sensualidade femenina que goya soube retratar com tanta destreza.


"à procura do Prazer sem interesse prático imediato é hoje o meu divertimento, é para mim uma necessidade vital.

francisco goya

2.10.08

"Candalia" :: grupo ALBATROZ


primeiro presente.
intervenção urbana

grupo albatroz em diálogo com os espaços da capital mineira

hoje, no final da labuta, fui informada através de um convite sobre a performance do grupo albatroz que aconteceria na praça da estação.

chegamos às portas da estação e três moças de branco esperavam por alguém exatamente no momento que antecede à chegada do trem Vitória-Minas, às 19:30h, nesta quarta-feira.

a primeira, chama constantemente por um passarinho, caminha nas pontas dos pés com uma sombrinha aberta e uma gaiola vazia, parece quase não tocar o chão ao correr.

a segunda, com um saco de maçãs verde-esperança na mão, conversa com pessoas que esperam por parentes e amigos, fala frases em francês e se parece a um personagem em branco e preto, pertencente a uma outra época, a do cinema mudo.

a terceira, diz a todos que está esperando um homem muito branco de olhos verdes como duas maçãs e traz uma pequenina sombrinha aberta em uma das mãos para se proteger inevitavelmente de algo.

mais dois homens de viola acompanham as moças observando a tudo, mas, por enquanto, calados de música.

quando o trem chega os cinco se dirigem simetricamente ao portão de desembarque, caminham enquanto cantam uma longa, lenta e melancólica canção para receberem os seus esperados.

os passageiros que descem do trem se deparam com as personagens que poderiam ter saído das páginas de um conto de virgínia wolff.

algumas bocas sorriem, outras tentam disfarçar a falta de graça misturada com surpresa, tem as que passam pelo saguão forçando a sensação de acharem tudo muito normal e desviam seus corpos dos corpos vidrados na canção de espera ainda entoada. há também aquelas que arriscam um beijinho em tchauzinho, e as que se assustam de verdade com a inesperada cena.

eu que tentei ver a quase tudo, não sabia se olhava para os rostos dos que chegavam ou dos que presentificavam a angustiosa canção de espera de quem não vem.

foi um verdadeiro presente esse convite-espera para mim.
não tenho palavras para dizer o que senti, então pinto as cenas aqui com minhas cores e meus pincéis.

a próxima apresentação será nesta quinta, dia 02/10, às 19:30h na praça da estação.

1.10.08

como aprender a pensar?

a maior habilidade humana que possuímos é a nossa incrível capacidade de aprender, de pensar, de refletir sobre o que nos é apresentado como conhecimento, de nos aperfeiçoar, de encontrar soluções para variados problemas nas condições mais diversas. a família e a escola são, sem dúvida, as principais responsáveis nessa tarefa de desenvolver a notável capacidade de pensar nas nossas crianças desde a mais tenra idade e devem estar aliadas nessa busca de levá-las pelos caminhos de conhecer o que o ser humano já produziu enquanto conhecimento e o que ele ainda pode produzir, enquanto novidades. mas a pergunta incômoda é: como fazer?

a criança chega ao mundo e já começa a aprender com ele. os conhecimentos que ela vai assimilando, progressivamente vão sendo colocados em prática, em um constante teste para ver como tudo funciona e se realmente funciona. esse mundo é infinitamente desconhecido para a criança, assim como a criança é um ser desconhecido para o mundo. é nesse choque entre o antigo e o novo, entre a tradição e a sua renovação, entre a revelação do mundo e a criança, que acontece a descoberta do saber. com o conhecimento progressivo do mundo que a rodeia, a criança vai desenvolvendo e descobrindo a sua própria maneira de pensar esse mundo, ao mesmo tempo em que começa a conhecer a si mesma.

estamos todo o tempo lidando com novos conhecimentos por diversos meios tecnológicos e midiáticos, mas serão somente esses novos conhecimentos os que melhor dialogam com a juventude? as chamadas “velhas tradições” (contação de histórias, fábulas, mitologias, lendas, cantigas, história da filosofia, etc.) que ensinaram os homens e as mulheres mais notáveis de nossa história não deveriam ter um lugar privilegiado na aprendizagem de nossas crianças? o contato com a arte – seja ela da antigüidade clássica, da era moderna ou pós-moderna – não ajudaria as crianças a serem introduzidas no complexo sistema de nossa sociedade de maneira mais prazerosa (e isso não descarta o incômodo que a arte também nos provoca) e significativa? ao se refletir sobre o extenso passado da humanidade, não se compreenderia melhor o nosso presente e possibilitaria a construção de um futuro com pessoas mais conscientes de seus papéis políticos no mundo?

a história da humanidade é tão rica em culturas e descobertas científicas que pensar em estudar o mundo sob o prisma de sua tradição pode ser uma resposta. não se trata aqui de conhecimentos “conteudistas”, onde a criança assimila informações e as reproduz tal qual como as aprendeu. definitivamente não! trata-se de ensinar as nossas crianças a refletirem sobre a sua própria história, que é a história de toda a humanidade.

28.8.08

conversa de balangandãs

de mãos espalmadas ao longo do rosto ela responde franzindo levemente o nariz:
— pois eu gosto de dengo!
— e eu de bunda!
ele já esperava para dar sua resposta com os lábios levemente contraídos entre os dentes.
— veja como é gostoso dizer: que bunda!
conclui repetindo o mesmo gesto sensual dos lábios dando mais ênfase ao aspecto sonoro da palavra.
— o que está acontecendo aqui?
chega um outro tentando adivinhar o que era aquele fragmento de conversa que acabava de pescar.
depois de se inteirar dá o seu veredicto se aproximando da orelha da moça:
— pois eu gosto de cuchicho!
com uma piscadinha de olho pra ela, quase como um convite, sai de cena.