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27.2.10

cogito, ergo sum

*
sou, eu sei: um ser pensante!
então não me venha suprimir
com seus neuróticos sentidos.

e esse ser ou não ser
já deixou de ser
a epanafórica questão.


***

14.4.09

:: foucault, magritte, pessoa, nietzsche :: estados de espíritos fantásticos


“A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer
ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível”.
M. Foucault

(La Philosophie dans le Boudoir, René Magritte)


"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas,
que já tem a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia:
e, se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos."

Fernando Pessoa

***
depois de uma conversa rápida com a minha amiga luciana gonçalves, comecei a pensar em algumas aprendizagens que podemos tirar da realidade que sofremos e da ficção que vivemos. aqui então postei algumas conclusões emprestadas desses espíritos fantásticos que nos ajudam a ver como "a vida é!" a partir de uma ilusão de ótica, pois talvez não suportaríamos encarar a realidade em sua nudez e brilho ofuscante. talvez se assim fosse nós não conseguiríamos viver para contar essa experiência. assim aconteceu com a ousada sêmele (mãe de dionisio) que morre fulminada depois de ver zeus em sua forma real e esplendorosa de deus. a arte e os mitos nos ensinam muito. a realidade não deve ser encarada de frente, deve ser vista através de frestas, de espelhos ou reflexos, com toda a precaução necessária que devemos ter quando nos colocamos diante do perigo - ela é a fera que nos espreita. senão, podemos ser transformados em estátua de pedra :: a imobilidade, a falta de re-ação frente a tomada de decisões. a realidade é essa medusa que combatemos todos os dias de nossas vidas e que a ficção nos ajuda a suportá-la, quiçá vencê-la. para isso criamos personagens de nós mesmos, multidões deles. aqui está também um pouquinho de minhas leituras de nietzsche.

bjs lu :*

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28.1.09

sobre filosofia e estética :: friedrich nietzsche


Medusa ,Michelangelo Merisi da Caravaggio, 1598

"apenas os artistas, especialmente os do teatro, dotaram os homens de olhos e ouvidos para ver e ouvir com algum prazer o que cada um é, o que cada um experimenta e o que quer; apenas eles nos ensinaram a estimar o herói escondido em todos os seres cotidianos, e também a arte de olhar a si mesmo como herói, à distância e como que simplificado e transfigurado - a arte de se 'por em cena' para si mesmo. somente assim podemos lidar com alguns vis detalhes em nós! sem tal arte, seríamos tão-só primeiro plano e viveríamos inteiramente sob o encanto da ótica que faz o mais próximo e o mais vulgar parecer imensamente grande, a realidade mesma."

"temos que aprender com os artistas, os que estão a rigor continuamente dedicados a realizar tais inventos e artifícios, a nos afastar das coisas até que tenhamos delas uma visão parcial, até que não as vejamos mais bem ou tenhamos que juntar muito delas para ainda vê-las, ou espreitá-las para vê-las como que em recorte, colocá-las de tal modo que se escondam parcialmente e só permitam ser vistas de relance, em perspectiva, ou contemplá-las através do vidro colorido ou à luz dos poentes, ou dar-lhes uma superfície e uma pele sem completa transparência. tudo isso temos de aprender com os artistas, e em todo o resto ser mais sábios do que eles. pois neles termina normalmente esta sua requintada faculdade: onde a arte acaba, começa a vida; nós, porém, queremos ser os poetas da nossa vida, e em primeiro lugar, das coisas mais pequenas e comuns."

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esse nietzshe é um grande provocador mesmo. o que será essa arte de se ver a si mesmo e ao mundo através de filtros coloridos? o que seria essa forma de se por a si mesmo e às coisas em um plano geral através da arte? seria o de se ver como herói dos tempos das tragédias gregas? aquele édipo marcado por um destino funesto, aquela antígona fiel aos ritos sagrados e por força do sistema uma subversiva política, aquele prometeu que roubou o fogo sagrado de zeus para entregá-lo aos homens? alguém que venceu seus próprios medos e dominou sua força? que se identificou com o ritmo e o fluxo da vida como uma maneira de fazer frente ao sofrimento de sua existência? a arte é que nos ajuda a ver a nossa realidade violenta e cruel a partir de um reflexo, uma greta, um filtro! será a realidade tão dura assim que não suportaríamos encará-la de frente, olhando diretamente nos olhos? precisariamos de um espelho ou o reflexo do escudo de perseu para ver essa medusa, pois se a encaramos tal e qual é seremos transformados em estátua de pedra?

entre essas e outras questões transitam meus pensamentos e minhas leituras ultimamente: pela visão dionisíaca do mundo a partir das teorias de nietzshe. já li uns três livros dele sobre essa danada filosofia da estética para escrever a minha dissertação de mestrado em literatura e teatro - curso de letras. quem quiser me ajudar com pensamentos voadores, pontos de vistas obtusos, vivências particulares sobre a arte, estética, representação da realidade, deixem aqui seus comentários. aceito tb indicação bibliográfica. o meu objetivo é entender a visão de estética dele, o conceito de tragédia hoje e a relação do homem como ser em conflito e inerente a sua própria existência. procuro por interlocutores! =]

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bibliografia citada:

NIETZSHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

4.1.09

prólogo 1 :: genealogia da moral :: friedrich nietzsche


nós, homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmos somos desconhecidos - e não sem motivo. nunca nos procuramos: como poderia acontecer que um dia nos encontrássemos? com razão alguém disse: "onde estiver teu tesouro, estará também teu coração". nosso tesouro está onde estão as colméias do nosso conhecimento. estamos sempre a caminho delas, sendo por natureza criaturas aladas e coletoras do mel do espírito, tendo no coração apenas um propósito - levar algo "para casa". quanto ao mais da vida, as chamadas "vivências", qual de nós pode levá-las a sério? ou ter tempo para elas? nas experiências presentes, receio, estamos sempre "ausentes": nelas não temos nosso coração - para elas não temos ouvidos. antes, como alguém divinamente disperso e imerso em si, a quem os sinos acabam de estrondear no ouvido as doze batidas do meio-dia, e súbito acorda e se pergunta "o que foi que soou?", também "quem somos realmente?", e em seguida contamos, depois, como disse, as doze vibrantes batidas da nossa vivência, da nossa vida, nosso ser - ah! e contamos errado... pois continuamos necessariamente estranhos a nós mesmos, não nos compreendemos, temos que nos mal-entender, a nós se aplicará para sempre a frase: "cada qual é o mais distante de si mesmo" - para nós mesmos somos "homens do desconhecimento"...


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somente uma provocação ao pensamento ontológico de nietzsche que nos suscita, quer se queira ou não, o desejo de nos desvendar. quem sou eu? quem somos nós? de onde vêm esses valores morais que apreendemos socialmente e que acreditamos ser nossos? para que serve a moral? como ela acontece? a moral é uma característica inata do ser humano? você saberia se responder? 

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primeira leitura filosófica intensa do ano:

NIETZSCHE, Friedrich. genealogia da moral, uma polêmica. São Paulo: companhia da Letras, 2007.

1.12.08

dois mundos

a miguel de unamuno

estou farta do mundo sensível da fome
deste mundo sensível filho da fome
que cega os sentidos
e cala devaneios
tira o gosto das cores da boca
e a dança da música agrio que baila o silêncio

estou farta do mundo sensível da fome
deste mundo sensível filho da fome
que mata de úlcera
todos sonhos dalva
quero o tempo dos ventos nos pelos
o verde sem medo de áspide que envenena os ensejos

e quando saborear o mundo ideal do amor
sim, o mundo ideal filho do amor!
quem poderá dizer: qual quimera!?
quem poderá provocar a sua inexistência?
se sinto em mim florear um corpo idílico,
se me flama a sua frágil persistência?

ah! homem de carne e osso
que não se farta de vida
para garantir sua fome de existência

***


esse poema eu escrevi a anos atrás quando estava submergida na filosófica leitura existencialista Do Sentimento Trágico da Vida de miguel de unamuno e totalmente contagiada de sua linguagem e pensamentos que ele me instigava. além de filósofo, foi poeta e escritor espanhol da famosa geração de 98 - fins do sec. XIX. dentre às anotações de minhas leituras eu encontrei algumas citações célebres deste livro, de grifo meu, que marcaram o meu jeito de pensar deus, religião, política e revolucionou a forma de me sobre-pensar, enquanto ser quase onisciente de mim mesma:

"Nós só vivemos contradições e para as contradições; a vida é tragédia e luta perpétua sem vitória e sem esperança de vitória; ela é contradição"

“O homem concreto, de carne e osso, é o sujeito e, ao mesmo tempo, o supremo objeto de toda filosofia.”

“Assim, o que mais nos deve importar num filósofo é o homem”

“A filosofia é um produto humano de cada filósofo, e cada filósofo é um homem de carne e osso que se dirige a outros homens de carne e ossos como ele. Faça o que fizer, filosofa, não apenas com a razão, mas com a vontade, com o sentimento, com a carne e com os ossos, com toda a alma e todo o corpo."

"A fé, a vida e a razão se necessitam mutuamente. O anseio vital não é propriamente problema, não pode adquirir estado lógico, não pode formular-se em proposições racionalmente discutíveis, mas se coloca a nós, como a nós se coloca a fome. Um lobo que se lança sobre a sua presa para devorá-la ou sobre a loba para fecundá-la também não pode colocar-se racionalmente, e como problema lógico, o seu impulso.”

“Não basta pensar, é preciso sentir nosso destino”


22.11.08

sobre a sensação :: gilles deleuze


"... o que é uma sensação?

É a operação de contrair em uma superfície receptiva trilhões de vibrações."

DELEUZE, Gilles. Bergsonismo. Trad. de Luiz B. L. Orlandi. SP: Ed. 34, 1999.


a citação é uma provocação ao pensamento suscitada por davi pantuzza. a foto foi presente de cléa batista. achei que a questão provocativa combina certinho com a foto em alguns casos.

fica o não dito pelo dito-imagem.