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14.1.13

Release espetáculo a VERTIGEM

“De olhos nos olhos da tristeza aprecio em dar um sorriso,
para que sua face não me pareça tão horrenda!”
Fédon

Em a VERTIGEM, A Patela Cia de teatro&dança apresenta a história de Fédon, filósofo grego e discípulo de Sócrates. É o próprio Fédon quem ressurge da Antiguidade para contar sua história. Seus interlocutores, nós, sujeitos da pós-modernidade, acompanhamos solidários o seu testemunho de dor e de amor, nos tornamos seus cúmplices e mergulhamos de forma sensorial em sua memória difusa, que busca compreender a sua própria história, o significado de sua existência. Como se estivesse dando um testemunho de guerra, de destruição, ele renasce da condição de escravo sexual como a Ave Fênix renasce das cinzas, e se reconhece novamente homem, se reconstrói na condição de amante e discípulo amado de Sócrates para tornar-se, enfim, filósofo e dono de seu destino, mensageiro do amor.

Na verdade, Fédon tampouco possui registros históricos que comprovem a sua existência. Para uns, ele é apenas um personagem ficcional dos diálogos de Platão, o preferido de Sócrates, famoso por sua eloquência e por sua beleza. Para outros, um “socrático menor”, sem grandes contribuições filosóficas.
É justamente a partir do imaginário da escritora Marguerite Yourcenar que a Cia Patela recria mais uma vez a história de Fédon, longe do sofismo de Platão e distante da visão classificatória das ciências filosóficas.

O texto dramatúrgico, transcriado por mim, nasce da partitura corporal criada pelo bailarino/ator Robson Nunes. Esta, por sua vez, foi inspirada no conto “Fédon, ou a Vertigem” do livro Fogos de Marguerite Yourcenar. Surge, portanto, o espetáculo a VERTIGEM que mantém a essência narrativa do conto e apresenta para a platéia um Fédon real, humano, dançante, sobrevivente da guerra entre Atenas e Élis, sua terra natal, um homem que encontra no amor a porta para a sua libertação.

Para potencializar e estreitar os limites entre as linguagens “palavra x gesto”, na transcriação “obra literária x partitura corporal e partitura corporal x texto dramatúrgico”, são utilizados recursos tanto do Teatro e da Dança Contemporânea como da palavra poética. A partir destas experimentações entre as linguagens do corpo, da música e da poesia as cenas do espetáculo são criadas. Neste contexto de trabalho coletivo e cooperativo, o ator/bailarino transforma seu corpo em linguagem plástica e seus gestos em música, amplia o espaço ficcional do palco em cenários intangíveis que apresentam a bucólica infância de Fédon, a destruição de sua terra natal pela guerra, sua viagem através do deserto até a cidade de Atenas e finalmente seu encontro com Sócrates, para ele sinônimo de amor, sabedoria e libertação.

Ficha Técnica:
Intérprete corporal: Robson Vieira;
Diretor: Claudio Márcio;
Texto original: Fédon ou a Vertigem, de Marguerite Yourcenar;
Texto dramatúrgico: Patrícia Mc Quade
Cenário e Figurinos: Juliana Palhares
Iluminação: Bruno e Thainá (sobrenomes)
Produção : A Patela Cia teatro&dança.

19.9.10

A Vertigem :: grupo Patela Cia teatro&dança

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O espetáculo traz em cena Fédon, príncipe insigne, escravo, bailarino de prostíbulos da Grécia antiga, discípulo de Sócrates. Sua trajetória é marcada pela dor e pelo amor, elementos básicos de sua filosofia.
O trabalho mistura teatro & dança na encenção, pesquisa que vem sendo realizada desde 2008 pelo fundador do grupo, Robson Vieira.

nos dias 24, 25 e 26 de setembro, em Belo Horizonte, acontecerá a estréia de um trabalho ainda em processo de criação, ou seja, essa primeira apresentação faz parte do laboratório cênico que continua em experivivências depois da estreia.

talvez esse seja seu maior encantamento para nós do grupo: apresentar uma obra onde a indeterminação e o acaso são causa e consequência de uma busca racional capaz de conhecer o estado presente d'a Vertigem, prever seu futuro e reconstituir o passado dessa mesma busca.

intérprete corporal: Robson Vieira;
diretor: Claudio Márcio;
Texto: Patrícia MC Quade (co-autores: Robson Vieira e Claudio Márcio)
Cenário e Figurinos: Juliana Palhares
fotografia: Luciene Oliveira
Produção : A Patela Cia teatro&dança.

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onde?
no Espaço Ambiente! rua Grão Pará, 185 - Santa Efigênia

sexta às 20h (com bate papo depois do espetáculo); sábado às 20h e domingo às 19h.
ingressos a preços mais que populares!

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5.9.10

A Vertigem :: grupo Patela Cia teatro&dança

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Se trata de um solo de dança combinado com fortes elementos cênicos.

A Vertigem conta de forma poética, dançante e intensa a história de Fédon, discípulo de Sócrates,
a partir de uma perspectiva outra daquela já conhecida: não só como um personagem dos diálogos de Platão contando os últimos instante de Sócrates antes de ser executado,
mas como um homem trágico contando sua própria história dolorida e amorosamente bela.

A trajetória de vida de Fédon é surpreendente, contudo há poucas referências,
e quase nenhum indício, de sua existência na história da filosofia.
Talvez o que tenha chegado até nós não passe de ficção e
Fédon não seja mais que um personagem criado por Platão.
Mas isso não tira a beleza de sua história, pelo contrário:

nos abre a possibilidade de criação!

Como me disse um recente amigo estudante de filosofia, Adilson,
o que importa não é saber se Sócrates ou Fédon tenham existido,
o importante é o legado de seus pensamentos filosóficos
que repercute e provoca jovens e adultos até os dias de hoje.

Nossa proposta teve como ponto de partida um conto de Marguerite Yourcenar, "Fédon" do livro Fogos, que Robson Vieira - intérprete, idealizador e criador - leu, se apaixonou e percebeu nele um intenso diálogo com a dança, música, poesia, teatro.

Esse desejo de conceber 'Fédon' agregou outros colaboradores:

Claudio Márcio - diretor;
Juliana Palhares - cenógrafa;
eu Patrícia Mc Quade - na dramaturgia

Todos vivenciamos um processo coletivo onde a partitura corporal, criada por Robson Vieira, delineou a forma e o conteúdo da obra que foi enriquecida por uma incrível interseção de contribuições e trocas de ideias até chegar no espetáculo d'A Vertigem.


Estrearemos no Espaço Ambiente nos dias 24 , 25 e 26 ...de setembro.
Os ingressos a preços populares: Sexta R$ 2,00 e Sábado e domingo R$ 5,00.

Esperamos vocês lá para nos dar a força da presença amiga
e a energia necessária que precisamos para confiar que fazer arte ainda vale a pena;
apesar de todas a dificuldades financeiras nessa busca frenética pela sobrevivência.

evoé!

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30.7.10

:: a casa de lá ::



O espetáculo A Casa de Lá conta a estória de um casal desde a infância até a velhice. Um casal como qualquer outro – com suas tristezas e alegrias, suas partidas e chegadas. Inspirado na obra de Guimarães Rosa e fruto de um trabalho de pesquisa desenvolvido no Vale do Jequitinhonha (MG), o espetáculo – que reúne o Teatro Diadokai, o grupo Girau e o ator Cristiano Peixoto, e já foi apresentado em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo – está de volta à cena mineira para uma temporada no

Galpão Cine Horto, de 29 de julho à 1º de agosto.


Idéia original :: Cristiano Peixoto
Direção :: Ricardo Gomes

Dramaturgia :: Ricardo Gomes e Cristiano Peixoto (livremente inspirada na obra de João Guimarães Rosa e nas histórias orais dos moradores do Vale do Jequitinhonha, em especial Josefa Alves dos Reis (Dona Zefa) e Antônio Luis de Matos (Mestre Antônio)

Elenco :: Amanda Prates, Cristiano Peixoto e Priscilla Duarte
Direção musical e Trilha sonora original :: Amanda Prates
Músicos :: Grupo Girau - Gabriela da Costa e Daniel Guedes
Figurino ::Priscilla Duarte
Cenário :: Bruna Christófaro
Teatro de sombras :: criação - Paulinho Polika e Thaís Moreira / Manipulação :: Bárbara Henriques e Natali Bentley
Iluminação :: Felipe Cosse


Assistente de Iluminação :: Tainá Rosa
Coordenação de produção :: Regina Célia
Produção executiva :: Gabriela da Costa
Luthier :: Antonio Moreira
Cenotécnicos :: Antonio Moreira e Joaquim Agostinho Costureira :: Maria Guiomar da Silva
Projeto gráfico :: Otávio Santiago
Filmagem :: Mauricio Resende
Fotografia :: Naty Torres
Administração :: Silvia Batista

14.3.10

Louise Bourgeois: faço, desfaço, refaço :: de Denise Stoklos

*
Fui assistir no Teatro Alterosa, este último sábado (13/03/2010), a uma peça de Denise Stoklos, Louise Bourgeois: faço, desfaço, refaço. Fiquei sabendo dessa atriz através da minha irmã que chegou a pouco de Florianópolis e me contou, a título de comentário, que havia assistido a outras peças dela em São Paulo. O curioso foi que a Margareth me falou de Denise Stoklos em um final de semana e no próximo (no caso este) a peça entrou em cartaz aqui em Beagá. Coincidências à parte, energias e premonições não se explicam, convidei outra amiga e fomos ver o espetáculo.

Denise Stoklos realmente impressiona no palco. Vitalidade, voz poderosa e presença física conseguem retratar de forma ampla e densa a trajetória e as reflexões da escultora Louise Bourgeois: “Meu espetáculo é a Louise inteirinha. É o livro dela completo (Destruição do pai/ Reconstrução do pai: Escritos e entrevistas) e o que pude viver com ela em Nova York, tentando entender o que diz o livro”, afirma a atriz.

O espetáculo foi todo pensado e construído em um trabalho de parceria com a escultora. Esta pequena-gigante senhora de 99 anos, ao contar suas experiências e dividir o seu cotidiano com Denise, não serviu somente de inspiração para a atriz na montagem desse espetáculo autobiográfico, mas participou ativamente de todo o processo de construção da obra. Ela, Louise Bourgeois, escreveu o texto, canto e rap que compõem a dramaturgia da peça, construiu o cenário — que na verdade é uma instalação de objetos que retratam o subconsciente particular da escultora — e ainda atuou como co-produtora do espetáculo junto a Denise Stoklos. A atriz, por sua vez, concebeu o espetáculo a partir da imensa admiração que cultivou por Louise Bougeois, traduziu e adaptou o texto dramatúrgico e assumiu os papéis de direção, coreografia, figurino, sonoplastia, iluminação, além de uma atuação solo no palco.

A peça é um monólogo, mas está longe de ser monótona. Além de incitar uma reflexão sobre os sentimentos humanos como eles são, arrancou risos da platéia apresentando na fala da personagem o humor negro da escultora. Sabemos da dificuldade que existe em conseguir montar um monólogo que prenda a atenção do público. O texto deve ser intenso e intrigante, além da presença física do ator precisar ser muito bem preparada e a força do personagem ser tão bem traduzida em gestos e voz a ponto de seduzir a platéia. No caso do monólogo Louise Bourgeois: faço, desfaço, refaço, Denise Stoklos alcança todas essas qualidades.

A personagem?! Denise Stoklos conseguiu captar em gestos e voz a lógica das pulsões de Louise; vinculou o espetáculo à vida/obra da escultora e teve como ponto de partida o livro de Bougeois: Destruição do Pai Reconstrução do Pai: escritos e entrevistas, ed. Cosac Naify. Assim como o livro, a peça aborda os grandes temas do conhecimento humano e da literatura. A arte não se apresenta nem no livro nem no espetáculo como uma organização de sistemas de arte propriamente ditos, mas em vida e desprendimento da aura em torno ao objeto de arte. Os recalques e embates da vida de Louise como o abandono e a ira, o desejo e a agressão, a comunicação e a inacessibilidade do outro são apresentados e vivificados no palco de forma visceral e fluida. Há o confronto permanente entre as pulsões de morte, as angústia e depressões, os medos, mas também as pulsões de vida. Louise Bourgeois é performatizada pela atriz de forma dolorosa e, ao mesmo tempo, triunfante. Parece que Stoklos vivencia a afirmação de si mesma quando vive a experiência da existência de Bourgeois. A erotização para a escultora é a forma plena e autêntica de comunicação de si com o outro. Na peça a atriz vivifica essa ideia erotizada da escultora no ato de transformar corpo e voz em arte, uma constante conversão física, que toca a conversão da energia da obra da escultora em força energética que emana do corpo da atriz. “Faço, desfaço, refaço” são as palavras de ordem da peça e o título foi sugerido pela própria Bourgeois. Esta tem o desejo de que sua arte seja um corpo erotizado que comunique emoções e pensamentos. Acredito que esse desejo tenha encontrado nesse espetáculo a sua materialidade e uma comunicação através do corpo da atriz Denise Stoklos em contato com o público. Quem assistiu a peça, com certeza, sabe do que estou falando.

O drama?! Esta peça intensifica a referência ao sujeito Louise Bourgeois. Esta por sua vez retira a figura feminina das sombras da história da arte. Denise Stoklos apresenta em carne e espírito esse sujeito duo de Bourgeois: a mulher e a artista excêntrica. Duas sem deixar de ser uma. A aranha é um signo trabalhado pela escultora e mencionada constantemente durante o espetáculo como uma referência à figura materna. Neste caso a teia passa a tomar uma importância muito maior que a imensa aranha das obras de Bourgeois. Teia enquanto texto, enquanto trama, enquanto drama, enquanto vida vivida e tecida pelas mãos femininas e maternas, as que engendram, que envolvem, que enredam.

O cenário?! Antes de tudo, uma instalação. Obras da escultora compõem o cenário do espetáculo. Do lado esquerdo e direito dois objetos, uma escada e um espelho oval. No centro uma célula, ou cela, em forma de octógono (signo da teia?) rodeada de tela de arame. Um penetrável onde são encenados os labirintos sensoriais da escultora que por sua vez são vivenciados pela atriz e apenas observados à distância pelos espectadores, o que considero uma pena! Um espelho redondo no teto da célula em posição levemente inclinada, apresenta outros pontos de vista sobre o local da encenação. Ali dentro, dizem, estão alguns objetos do ateliê de Louise, como ferramentas e moldes de suas esculturas.

Enfim, nesta experiência espetacular, podemos conhecer um pouco mais sobre a vida dessa escultora rara e polêmica que completa seu centenário ano que vem (* 25/12/1911), pensar na função do objeto de arte para nós, sobreviventes do séc. XXI e compreender com maior profundidade as contradições que envolvem estas duas artistas em particular que são dotadas de uma percepção da realidade inconscia e que percorrem os recônditos sentimentos recalcados de todos nós. Elas fazem, desfazem e refazem cada pessoa que ali as assiste, e este é o maior espetáculo.

(foto de San Francisco Chronicle)

“A arte é um privilégio, uma benção, um alívio. Nascer artista é ao mesmo tempo um privilégio e uma maldição. Privilégio porque quer dizer que você é um favorito, que o que você faz não é completamente seu crédito, nem se deve completamente a você, mas um favor que lhe foi concedido. É um privilégio fantástico ter acesso ao inconsciente. Eu tive de merecer esse privilégio e exercê-lo.” (Louise Bourgeois)

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30.7.09

Os sertões :: Grupo Oficina :: Teatro Ritual

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interesses culturais, pessoais, artíticos, históricos, geográficos, literários, filosóficos, cênicos, performáticos, musicais, plásticos, arqueológicos, biográficos, ritualísticos, humanos, antropofágicos, corporais, biológicos, poéticos, políticos, sociais, metafísicos, comunicativos, expressivos, antropológicos, estratégicos, dançantes, teológicos, astrológicos, experimentais, caricaturais, etc.
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ufa! uma pesquisa que me acomete a 3 anos.
divido com vcs alguns vídeos da peça.
em alguns deles eu estava presente de corpo
e entregue de alma ; j
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é um espetáculo simplismente maravilhoso de ver com os ouvidos, tocar com os olhos, sentir com a razão e pensar com o coração. experimente fazer isso, é pura metafísica!
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(Associação Teatro Oficina apresenta"Os Sertões" ::
Rio de Janeiro nov/2007)



(Rio São Francisco :: A Terra :: em Os Sertões :: Rio de Janeiro 06/11/2007)




(Teatro Oficina Uzyna Uzona o2/10/2006 :: Homem I)




(Teatro Oficina Uzyna Uzona 19/09/2006 :: Homem II)



(Ensaio aberto 23/12/2005 :: A Luta I :: estréia em cartaz em 2006)


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(Teatro Oficina Uzyna Uzona 10/10/2006 :: A Luta II)
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16.7.09

a metáfora da torre de babel :: por jerzy grotowski

"Ludwik Flaszer, o meu estreito colaborador, usou uma vez a metáfora da torre de Babel, que gostaria de desenvolver: parece-me de fato que hoje não só cada coletividade tradicional tenha se tornado uma torre de Babel, na qual as línguas sofreram uma nova mistura e na qual se esvaíram as crenças comuns, mas também cada homem é uma torre de Babel, por que na base do seu ser não há um sistema uniforme de valores. Na forma extrema podem observá-lo em vocês mesmos. Em cada um de vocês provavelmente coexistem diversas crenças: em primeiro lugar, a fé tradicional, a religião tradicional com a qual talvez vocês tenham rompido mas que permanece viva nos estratos profundos do seu ser – é essa que articula a linguagem da imaginação; em segundo lugar, aquela fé (se não desejamos chamá-la de religião, falemos em última análise de filosofia) à qual vocês aspiram conscientemente; no fundo vocês se esforçam para convencer os outros e vocês mesmos de que possuem essa fé de verdade, o que, em suma, se reduz mais a preocupar-se por possuir essa fé geral, do que em possuí-la de verdade, porque estão agitados demais dentro de vocês; depois, têm essa vida dividida entre diversos círculos sociais, pequenos pensamentozinhos, diria crenças pela metade para uso da família, dos colegas, do ambiente de trabalho; mas na base disso tudo há no profundo do seu ser algo como um esconderijo secreto, onde turbilhonam aspirações, crenças autênticas, a fé abandonada; eis a verdadeira torre de Babel. Vocês são assim porque nenhum de vocês quer reconciliar-se com o próprio ser. O velho quer ser um jovenzinho, o jovem quer ser moderno, mas não ele mesmo, porque a vontade de ser moderno se reduz – apesar de todos os protestos – à imitação dos outros, dos mais velhos. Por isso cada um tende a algo que na maioria das vezes não existe; essa é, creio, a doença da civilização, essa multiplicidade de fés; ela pode ter às vezes lados positivos, enquanto rigidez da fé, especialmente se se trata de fé religiosa o para-religiosa, se torna perigosa e conduz ao fanatismo. Porém isso pode ser analisado de diversos pontos de vista; (...)"
quadro de: Duke of Bedford, "Torre de Babel",
c. 1423. British Library, Londres


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bibliografia degustada:

GROTOWSKI, Jerzy. "Teatro e Ritual" in: Teatro laboratório de Jerzy Grotowski 1959 - 1969. São Paulo: Perspectiva, 2007. p. 126.

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sobre o livro :: Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski

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não é preciso dizer que Grotowski é um dos mais significativos diretores e pensadores do teatro contemporâneo. depois de uma leitura gostosa e ao mesmo tempo inquietante do livro Teatro Laboratorio De Jerzy Grotowski, penso que suas teorias são muito mais do que teatro unicamente como expressão artística. ele, em suas palestras, leva o teatro para a vida e traz a vida para o teatro com uma intimidade impressionante nas duas esferas , que são uma na essência dos fatos discorridos por ele. em tom de conversa íntima com o público ele desvela os seus pensamentos e experiências sobre o espaço cênico unitário fora dos parâmetros das salas de teatro, o corpo como memória inscrita de uma subjetividade particular a um indivíduo, o ato como o fim de um movimento interior natural que termina no gesto, a autenticidade do ato, o respeito pelos movimentos do próprio corpo e de sua psique, a relação verdadeira entre ator/espectador, os diálogos e dissonâncias entre teatro e ritual, entre outras considerações viscerais que tocam a mente, o corpo, o espírito. considero suas palestras e textos neste livro reunidos argumentações filosóficas, que além de nos orientar em uma pesquisa voltada para o teatro enquanto arte – ajudando-nos a entender melhor esse universo codificado e decodificado das vertentes teóricas e experimentais – , abrange outras questões infinitas que habitam o ser humano e seu estado constante de confronto com a sua própria natureza.

recomendo em especial a leitura da palestra que Grotowski deu na Colômbia em 1970 intitulada "O que foi" (p. 199 a 211). ela por si explica tudo o que me falta em palavras e me sobra em reflexões.


“É necessário dar-se conta de que o nosso corpo é a nossa vida. No nosso corpo, inteiro, são inscritas todas as experiências. São inscritas sobre a pele e sob a pele, da infância até a idade presente e talvez também antes da infância, mas talvez também antes do nascimento da nossa geração. O corpo-vida é algo de tangível”. (grotowski, p. 205)

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bibliografia indicada:

GROTOWSKI, Jerzy. Teatro laboratório de Jerzy Grotowski 1959 - 1969. São Paulo: Perspectiva, 2007.

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eis o enigma que grotowski suscita :: a pergunta essencial

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"Porém, o fenômeno existe e a pergunta foi feita. Qual pergunta? A pergunta: “o que é essencial? O que é verdadeiramente essencial?”

Um dia Persifal chegou ao castelo do Rei Pescador, o rei estava paralisado, todo o reino estava em decomposição, as mulheres não procriavam, as árvores não davam frutos, as vacas – leite: esterilidade, total ausência de fertilidade. Sentado à mesa convival Persifal avistou um cortejo com uma virgem que carregava um vaso estranho, o cortejo atravessava a sala, saía, depois de algum tempo voltava e a coisa se repetia. Persifal não perguntou nada, a atmosfera do castelo lhe parecia um tanto singular; como se no ar se levantasse algo de obscuro. De manhã percebeu que o castelo estava vazio. Pensou que talvez a caça tivesse engolido todos, montou a cavalo e se pôs a caminho. Enveredou-se pelo bosque, onde se deparou com uma jovem mulher que tinha no colo o corpo morto do amado; então, virou-se para ela dizendo: “o que acontece neste castelo?” – “Você viu o cortejo?” – “Sim”. – “Com a mulher que carregava o vaso?” – “Sim”. – “ E você perguntou?” E Persifal respondeu: “Não, não perguntei”. – “Não perguntou e pela sua falta de curiosidade as mulheres não podem gerar, as árvores não podem dar frutos, as vacas não dão leite e o rei está paralisado. Você não perguntou”.

Creio que quando fazemos as perguntas fundamentais, ou mesmo uma pergunta fundamental, porque na realidade existe talvez só uma, é fácil acabarmos sendo considerados loucos (...) e talvez sejamos loucos (...). Passo a passo a nossa vida vai se transformar, lhe será imposta uma certa linha, uma qualidade totalmente diferente daquela que desejávamos e estaremos repletos de sofrimento, de tristeza e muito sós. Eis porque creio que não se deva repetir o erro de Persifal."

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bibliografia degustada:

GROTOWSKI, Jerzy. "Teatro e Ritual" in: Teatro laboratório de Jerzy Grotowski 1959 - 1969. São Paulo: Perspectiva, 2007. p. 136.

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14.7.09

HYSTERIA :: grupo XIX de teatro

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segunda-feira, 13 de julho de 2009, Hystería – do Grupo XIX de Teatro de são paulo – foi novamente encenada em bh. eu havia assistido pela primeira vez essa peça em 2006 no FIT (festival internacional de teatro) evento que ocorre a cada dois anos na capital mineira. na época o prédio escolhido para o espetáculo foi o museu mineiro, monumento histórico situado na av. joão pinheiro, centro. dessa vez, o lugar foi um prédio de arquitetura neo-clássica – hoje ocupado pelo SESC Minas Gerais –, construído provavelmente na fundação da cidade, situado à rua caetés, 603 - centro. curiosidade interessante: o ano que marca o tempo ficcional da peça é 1897, a mesma data de transferência da capital mineira para belo horizonte. esse fato também me fez lembrar do êxodo rural que Minas Gerais sofreu com a construção da nova capital, fato que ocorria também em todo o Brasil com o crescimento das grandes cidades como são paulo e rio de janeiro (cidade ficcional onde acontece o enredo). coincidência ou não, esse foi o primeiro detalhe da peça que me chamou a atenção.


mas outras marcas históricas pode-se ler nesse espetáculo: a abolição da escravatura, o preconceito étnico contra os negros, as ideias positivistas que impulsionavam as descobertas científicas, a razão em supressão à emoção, a descoberta da psicanálise, o advento recente da república, a denúncia do infanticídio – crianças abandonadas nas Rodas de igrejas – ato que evitava os escândalos morais das mães-solteiras brancas, muitas vezes vítimas de estupro, e , principalmente o foco da peça, a repressão da mulher e o seu papel social em fins do séc. XIX:


“Falamos também de um tempo onde as vontades e decisões femininas, no seio familiar, eram secundárias perante a posição tomada pelo chefe da família. Assim, as mulheres acabavam por repreender (principalmente através da cultura da religião católica) e esconder suas vontades e seus desejos reais. Falamos de um momento de extrema repreensão feminina, onde o hospício vinha a ser uma punição e não um tratamento para o bem-estar. Situação essa favorável aos surtos histéricos, que também nos leva a defender a idéia de que existe muita verdade atrás da histeria. Como cita Breton Aragon; ‘A histeria não é um fenômeno patológico e pode ser considerada, em todos os sentidos, um meio supremo de expressão’ [paris, 1918]." (fragmento retirado do folheto de apresentação da peça Hystería do Grupo XIX de Teatro)

o espaço cênico é peculiar nesse espetáculo. o grupo sempre busca ocupar lugares de arquitetura correspondente à época da peça. totalmente alternativo, o espaço escolhido nunca é uma sala de teatro, o que me lembra a proposta do teatro pobre de grotowski. mas sim, salões amplos onde bancos de madeira estão dispostos de forma circular para o público feminino e uma arquibancada que fecha um dos lados do círculo é reservado ao público masculino. o ambiente é desprovido de recursos cênicos, o cenário se dá a partir da própria arquitetura do lugar – chão de tábua corrida, pilastras, janelas dispostas ao longo das paredes e que ocupam também quase a sua altura – enfim, espaço propriamente ambientado a um sanatório no clima do séc. XIX.

sem recursos sonoros de sonoplastia ou microfones, as atrizes se valem apenas de suas vozes femininas e ecos que ressoam os gritos inesperados de espanto, dor ou lamentos. a iluminação: somente a luz natural vespertina que entra pelas janelas que se mantém fechadas durante todo o espetáculo. o calor incomoda e em uma hora se torna insuportável, suamos juntos, respiramos o hálito daquele ambiente que vai se tornando aos poucos insalubre. antes de entrar no sanatório feminino, o público é separado: os homens na arquibancada – eles entram primeiro – e as mulheres vão ocupar os bancos de madeira e o chão fechando a arena do espetáculo. ao entrar, somos recebidas pela enfermeira (mara helleno) que nos trata como internas do lugar, ou seja, diagnosticadas todas como histéricas, também personagens involuntárias da obra. outras quatro atrizes estão presentes no ato cênico: uma sentada ao centro da arena de feição acriançada; outra colada ora às paredes, ora às janelas de vidro; uma outra sentada em um dos bancos de madeira aparenta docilidade e submissão e a última transita com familiaridade ajudando as mulheres-público a ocupar seus lugares de acordo com as órdens da enfermeira-chefe.

a peça acontece em um giro de 360º, todo o espaço é aproveitado para a encenação do enredo. as atuações das atrizes acontecem entre as mulheres da platéia, ao lado delas, em frente, atrás. a platéia é disposta para que haja um contraposição entre os gêneros: na sala de apresentação, os homens são os espectadores e tem um olhar distanciado sobre as cenas que discorrem no salão, assumem o papel que a sociedade lhes impõe, ou seja, o de observadores dos surtos e histerias, aqueles que avaliam, que compreendem ou que recriminam os desvarios femininos; as mulheres estão no olho do furacão, fazem parte do cenário e muitas são convidadas a encenarem junto às atrizes e assumem o papel de coadjuvantes do espetáculo: dão depoimentos, respondem a perguntas às vezes íntimas, declamam poesias, são diagnosticadas de insanidade, dançam pelo espaço cênico em rodas e folias, são repreendidas pela enfermeira-chefe, uma ou outra se manifesta com espontaneidade. esse happening garante que cada apresentação da peça seja única, pois as interações acontecem muitas vezes de forma livre, criando uma atmosfera de improvisações e surpresas, tanto para o público como para as atrizes. é o diálogo concreto e viceral entre atrizes e mulheres da platéia que faz o diferencial dessa peça. em especial nesse dia, uma senhora de terceira idade chamada Inês, com a qual conversei momentos antes de iniciar a peça, talvez identificando a cena que acabava de assistir com algo de sua vivência, chamou a atenção das pessoas com uma fala irônica dirigida à enfermeira: “sua benção, madre-superiora!”, talvez fazia ali uma alusão aos colégios internos católicos que educavam as meninas a serem submissas à família, à igreja e ao Estado, esferas de manutenção do poder patriarcal.

em uma conversa informal depois do espetáculo, perguntei sobre o processo pelo qual passou a construção das personagens. uma atriz me relatou, então, que elas foram nascendo a partir de leituras de diversos materiais de pesquisa, entre eles: depoimentos (história oral de tias, avós, mães, etc.); notícias de jornal, boletins de ocorrência e relatos médicos de casos psiquiátricos da época; estudos antropológicos da condição feminina ao longo dos tempos (a bibliografia lida para a pesquisa está no site oficial do grupo e pode ser consultada por quem se interessar). o figurino foi criado à moda do séc. XIX, a partir de vestidos de noivas, de primeira comunhão, de batizados de membros da família dessas atrizes.

sobre as personagens!

cada personagem possui uma personalidade, um temperamento, que se apresenta dócil e terno, mas que repentinamente se transforma em crises emocionais, com explosões psicológicas e atos de agressividade subversiva:

CLARA– interpretada pela atriz janaína leite – quando criança havia sido abandonada na Roda, fruto de um ato sexual considerado impuro pela igreja e sociedade. analfabeta e totalmente infantilizada, recusa-se em crescer e tornar-se mulher. agarra-se à deus e busca a purificação de sua alma, penaliza-se por um passado que desconhece. coleciona bilhetes que acompanham as crianças que são deixadas nas Rodas à própria sorte por mães anônimas.

HERCÍLIA – interpretada por evelyn klein – rebelde irremediável, é afastada da sociedade e internada no sanatório para não contaminar as mulheres com sua mentalidade revolucionária e avançada para a época. possui uma educação formal, conhece a literatura e impressiona o público com declamações de poemas de L. Brant (pseudônimo de hercília?) e Safo de Lesbos. se destaca por uma obstinação excessiva e um temperamento indomável. diversas vezes é castigada por isso. passa várias cenas escrevendo em paredes e no chão do lugar. é a personagem pivô das cenas de insubordinação, desobediência às regras e levantes entre as internas.

M.J. – interpretada por juliana sanches – mulher de tendências lascivas, sofre de vapores (sensualidade sem controle, fora dos parâmetros sociais) que a induzem a práticas sexuais consideradas devassas. conta seus casos amorosos de forma voluptuosa e diz que o coito é algo essencial a toda mulher. afirma todo o tempo que aquele é seu último dia no sanatório, pois se diz curada pelo dr. Mendes. espera por seu marido joão que irá buscá-la àquele dia. a espera já é entendida pela platéia como eterna.

MARIA TOURINHO – interpretada por sara antunes – mulher dócil e gentil, educada para o casamento. aprendeu dotes importantes a uma mulher devota ao lar: costurou seu próprio vestido de noiva, borda, cozinha, toca piano, zela pelos filhos. legitima a submissão da mulher ao homem. ao final da peça revela seu lado negro de forma surpreendente: é a autora do assassinato do marido. presa ao passado, conta constantemente sobre sua criação severa quando menina e do sentimento de maternidade que continua a nutrir, ambas vivências marcadas em seus gestos e comportamento.

NINI – interpretada por mara helleno – enfermeira-chefe. solteirona que se dedica aos cuidados de outros a fim de sentir-se útil. apesar de enérgica, se apresenta também afetiva para com as moças do sanatório. possui segredos íntimos, desejos secretos e sonhos frustrados, que são registrados em seu caderno-goiabada (referência ao caderno de receitas escrito a mão pelas mulheres, tradição antiga passada de geração em geração). enfatiza ser diferente das demais internas, mas no fim, identifica-se na mesma solidão e angustias sofridas por todas que ali estão.

onde a peça nos toca?

talvez nessa memória corporal feminina que atravessa os séculos de história da humanidade e que repercute nas culpas e ações de autosabotagem da mulher. por mais que os tempos modernos sejam outros, por mais que as mulheres tenham conquistado liberdades sociais na esfera sexual e profissional, carregamos ainda o estigma do matrimônio, da maternidade, do zelo pelo lar, do sonho em encontrar “o príncipe encantado”, e da somatória de todas essas frustrações. pessoas ainda se sentem indignadas ao ouvir que uma mulher decidiu por não casar-se, por não ter filhos, por não se submeter às exigências sociais patriarcais. hoje a histería se chama TPM e é comum escutar de terceiros que o motivo de alguma indignação exposta por uma mulher através de suas reivindicações é resultado de uma tensão pré-menstrual. discurso muito utilizado para neutralizar o que ali foi dito por esse ser feminino, o que foi reivindicado por ela enquanto direito humano. essa ação impossibilita qualquer reflexão sobre o que foi reivindicado, impossibilita qualquer alteração social em favor da mulher do séc. XXI. a peça proporciona que esse discurso, que anula os movimentos políticos femininos, seja enfim desmascarado, que a sociedade mostre a sua cara assim como é: ainda machista e opressora, apesar de todos as conquistas feministas. como afirma o próprio diretor luiz fernando marques antes de iniciar o debate sobre a peça: “a histería não é aqui considerada um mal patológico, mas sim uma consequência de um distúrbio social”.

ao final da peça é anunciado por uma das atrizes a chuva que talvez lavará todo esse mal social que ofende os direitos humanos das mulheres. as janelas e portas são abertas e podemos respirar, quem sabe, o advento de uma nova era livre dos preceitos e parâmetros masculinos de poder sobre a mulher.

a comoção foi geral. os homens nos olhavam ainda com espectativa, algumas mulheres da platéia choravam, outras se entreolhavam com os corações apertados de angustia e cumplicidade. minha amiga que me acompanhava, heloísa lopes, deitou sua cabeça sobre meus braços cruzados nos joelhos e eu retribui o mesmo movimento de afeto e lhe dei um beijo entre os cabelos. compartilhamos por um momento dessa mesma dor:

“Na verdade não importa se é séc. XIX ou séc. XX, acho que é só um espelho mesmo para a gente se ver e, às vezes, se colocar [esse espelho] longe, na verdade traz mais para perto. Todas somos mulheres e alguém nos diz que somos histéricas”. (depoimento de uma mulher ao final da peça que aparece no vídeo publicado abaixo).



as atuações no espetáculo são primorosas, as atrizes desempenham seus papéis de forma muito intensa e possuem um trabalho corporal digno de elogios. parece que cada personagem nasce dentro de cada uma delas, e atuam no palco em partners (atriz/personagem) com a intimidade que tem a mãe com um filho, essa ação interna termina no gesto, na linha de seus braços e mãos, de seus corpos e voz. a direção alcançou, através da simplicidade dos recursos cênicos, efeitos afetivos e analíticos ao mesmo tempo. é uma experiência única esse espetáculo e as reflexões tiradas a partir dele são inesgotáveis. é possível fazer também uma leitura meta-teatral pois a obra trabalha elementos do teatro dramático do séc. XIX — identificação do público com as cenas suscitando comoção — assim como as teorias que surgiram no séc. XX a partir de brecht, becket, arthaud e, no meu ponto de vista, principalmente grotowski. aqui relato as minhas observações através de uma leitura livre de teorias. vale a pena conferir!

Dez mandamentos da mulher:

1. Amai a vosso marido sobre todas as coisas.
2. Não lhes jureis falso.
3. Preparai-lhe dias de festa.
4. Amai-o mais do que a vosso pai e vossa mãe.
5. Não o atormenteis com exigências, caprichos e amuos.
6. Não o enganeis.
7. Não lhe subtraias dinheiro, nem gasteis este com futilidades.
8. Não resmungueis, nem finjais ataques nervosos.
9. Não desejeis mais do que um próximo, e que este seja o teu marido.
10. Não exijais luxo e não vos detenhais diante das vitrines.

Estes dez mandamentos devem ser lidos pelas mulheres doze vezes por dia, e depois ser bem guardados na caixinha de toillete. (Jornal do Comércio, 1888)


(retirado do folheto de apresentação da peça Hystería do Grupo XIX de Teatro)

para mais informações sobre o trabalho do grupo e outras obras, acesse o site:

bibliografia consultada:

folheto de apresentação da peça Hystería do grupo XIX de teatro.
livro que reúne os textos dramatúrgicos, fotos e cometários críticos das peças Hystería e Hygiene editado pelo grupo e vendido a um preço simbólico de 10 reais (vale a pena adquirir o seu).
site oficial do grupo: www.grupoxixdeteatro.ato.br

30.6.09

o último passo de dança de Pina Bausch na Terra

"No fundo, todas as nossas criações possuem uma relação estreita com o que acontece no mundo" (Pina Bausch)

foi encantada pelo azul de um poema que me veio a lume a notícia da morte da dançarina, coreógrafa e performer Pina Bausch (27/07/1940 — 30/06/2009). quando lia o poema não me veio à lembrança as cenas que eu já havia visto e das quais ela era a autora: foi a poeta, que fazia uma homenagem a ela no dia de sua morte, quem me chamou a atenção para o fato e me convidou a ver alguns videos no youtube. ao assistir, constatei que já conhecia um pouco de seu trabalho. sem guardar o nome da bailarina — não sou boa em memorizá-los — de alguma forma a imagem de seu corpo esguio, cheio de vigor, serpentiando entre outros bailarinos, ficou gravado na minha telinha interior. uma das vezes que a vi foi em uma cena do filme de pedro almodóvar Hable con ella. em outra ocasião, eu assisti a uma comunicação sobre performance na faculdade de letras (ufmg) em que uma colega de mestrado apresentava uma leitura sobre sua obra. ainda outras imagens foram por mim guardadas a partir de fotos belíssimas de suas danças — aqui edito algumas — onde eu nem supunha que era a mesma bailarina que ali a mim se revelava, distraída que sou. é assim, quem cria arte de corpo e coração, como fez Pina, não precisa de um nome para ser reconhecida ou recordada. sua obra fala por si só, sua imagem marca à brasa a memória de quem a toca com o olhar. assim aconteceu comigo! essa artista completa revolucionou a dança moderna e o teatro-performance dos séculos XX e XXI. seu estilo considerado expressionista é identificado pela repetição, simultaneidade e movimentos ritmicos do corpo que suscitam os sentimentos de angústia, paixão, solidão, frenesi, delírio, as relações entre homem e mulher (...). bisbilhotando sua vida e obra, descobri que algumas vezes, enquanto dançava, contava histórias. seus espetáculos mais famosos são: Café Müller, Sagração da Primavera , Barbe Bleue, Bandoneón, Vollmond, Mazurca Fogo, Viktor, entre muitos outros. segue dois vídeos que compartilho enquanto descobertas.

"Existem certos momentos que não sei como criar um espetáculo, não sinto nada, é muito difícil continuar criando. Então o que podemos fazer? É muito complicado. É usar algo que está dentro de nós, mas não só. No fundo, todas as nossas criações possuem uma relação estreita com o que acontece no mundo."(Pina Bausch)



"Trabalho a maior parte do tempo dentro de um estúdio sem janelas, em Wuppertal. Era um antigo cinema, que usamos como sala de ensaios. Mas eu coloco minha fantasia lá dentro também. Eu tenho o nascer do sol, a areia. Para mim, tudo pode estar lá. E, normalmente, nós não vemos apenas esses elementos da natureza em nossas peças, nós os vivenciamos, eles interferem em nosso movimento, seja a grama ou folhas... Isso traz uma nova experiência para o corpo, para o som. Há tantas coisas também sensoriais para tratar. Se eu não posso ir lá fora, eu trago tudo isso para dentro" (Pina Bausch)




"A dança é a única maneira que eu consigo me expressar de fato. É a minha linguagem, é como eu sei dizer o que acho que devo dizer -e não em palavras apenas. O que espero, do que gostaria. É através das peças que as pessoas me conhecem de verdade" (Pina Bausch)

edito o poema azul que me trouxe a re-descoberta da bailarina labareda e aproveito para agradecer a márcia zanelatto pela notícia, ainda que tardia, sobre a identidade dessa extraordinária artista do corpo.

Pina Bausch

esse azul todo
suspenso
impressionante
sobre nós

agora entendo

é teu corpo
pina
que se estende
infinito
alongado
irrestrito
abrindo os átomos
teu corpo
lindo

azul livre
translúcido
reluzente
assume
toda luz
entre as células
não está mais
doente

hoje
em teu nome
o inverno
cede
espera
para que tua
eternidade
se faça
sagração da primavera

:: mz, 30 de junho de 2009 ::

***

as citações de Pina Bausch foram retiradas de uma entrevista que a bailarina concedeu a Fabio Cypriano quando esteve no Brasil, publicada originalmente na Ilustrada, quinta-feira, 03 de agosto de 2006, intitulada "Pina Bausch equilibra a tristeza do mundo".

para ler a entrevista na íntegra acesse o blog:

Mistérios Gozosos de Frau Stu

***

17.5.09

espetáculo :: Yepá, avó do Mundo

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na última terça-feira fui levar meus alunos de 08 a 10 anos da escola da serra para ver a um espetáculo no teatro marília. já tinha algum conhecimento prévio sobre a temática e algumas referências de que era uma peça interessante e muito bem feita. mas, de longe, não esperava um espetáculo tão bonito de ver com os olhos, escutar com os ouvidos e sentir com o coração. todos os meus sentidos ficaram aguçados para não perder nada daquilo, que desde o início, enlaçou a atenção não só minha, mas da maioria das crianças do teatro que ali assistiam. e olha que não eram poucas, dentre os 38 alunos de minhas turmas, havia mais ou menos ali umas 120 crianças somadas, de 01 a 12 anos, todas hiperativas por estarem fora do ambiente escolar de costume. excursão sempre mobiliza a escola inteira e as crianças ficam como que ligadas a uma potência 220 v. mas na hora da peça, quando começou o espetáculo, a maioria se fez silente para degustar cada pedacinho daquele universo mágico.


três atrizes surgem no fundo do teatro, de forma inesperada, e cantam lindamente ao descerem as escadas laterais da platéia ao toque de seus tambores. uma surpresa para todos, pois os olhares estavam voltados para o palco e o início começava em um lugar inusitado para as crianças que agitadas buscavam de onde vinham as vozes de encantamento que entoavam esse canto. as carinhas que eu observava iam se acendendo uma a uma e os sorrisos iam brotando como pipoca quando encontravam enfim a pintura em movimento das moças. ao chegar no palco, as três Marias contam a sua história.


um dia, quando se sentiam muito sozinhas e com saudades de sua infância, as três Marias foram fuçar em um baú de histórias que pertencia a sua avó, transladada em estrela já fazia algum tempo. de lá tiraram várias que contavam peripécias de heróis vencendo perigos e conquistando amores, histórias de terror, de assombração e de muitos medos, histórias de amizade sincera que dura a vida inteira. mas não encontraram nenhuma que pudesse acalmar seus corações que sofriam de uma angústia que não tinha explicação. foi ai que resolveram construir uma avó para lhes contar uma história. juntaram barro, sementes, lembranças de suas avós e mais as lembranças das avós de boa parte das crianças da platéia. essa foi a hora "happening" e todos queriam compartilhar o carinho que cada um sentia de sua avó, todos queriam contribuir na construção daquela história. no palco novamente, as três Marias modelaram Yepá, avó do Mundo. e fez-se a mágica. surgiu a avó mais velha, a primeira avó do mundo! a história que Yepá conta para as três Marias é uma lenda indígena, ‘O nascimento da noite’. ela, a avó do mundo, é a personagem principal e se torna o centro do espetáculo onde cada aparição sua é um novo deslumbramento: nasce gigantesca, diminui de tamanho, vira luz, vira sombra, e por fim volta ao pó da terra e às lembranças de quem ali a história experenciava.



os recursos cênicos dessa peça foram de uma simplicidade que me surpreendeu, pois os efeitos tiveram resultados muito interessantes e até requintados do ponto de vista da estética teatral. bonecos de vários tamanhos e materiais foram criando vida no palco e assumindo seus papéis na peça. lençóis, panos e colheres de pau foram tomando formas de personagens e cenário a fim de compor os episódios da história. o jogo de luzes potencializou o clima mágico e o teatro de sombra foi trabalhado de uma forma muito orgânica em toda a peça, recriando o universo nebuloso das lendas, da fantasia e das histórias encantadas. a poesia estava em toda parte: na linguagem verbal do texto, na sonoplastia musical, nas imagens produzidas em cena, nos corpos e gestos delicados e precisos das atrizes, nas pedrinhas batendo na lata pra fazer o som de água, nas pinturas rupestres do vestido de Yepá, nas mantas bordadas que compunham o cenário, nas luzes, na escuridão, nas carinhas das crianças que assistiam assombradas e maravilhadas ao mesmo tempo.


a mensagem da peça é de difícil verbalização. em cada pessoa que assiste ela acontece de forma diferente, a partir de cada experiência vivida e sofrida. sabemos onde ela nos toca: no profundo oculto de nossa herança cultural humana, lugar que entendemos hoje como memória coletiva guardada no coração de cada indivíduo. nos tempos primórdios da nossa espécie [divago eu em meio a desvarios] a escola era a própria natureza que existia ao nosso redor e dentro de nós mesmos. o professor era um indivíduo da comunidade, aquele que conhecia mais sobre a vida, contava suas experiências com sabedoria, mantinha um contato místico com seus ancestrais, cultivava a tradição e a identidade cultural de seu povo e narrava histórias maravilhosas que foram surgindo sei lá de onde: talvez da curiosidade do ser humano em descortinar segredos, ou do desejo de explicar onde e como as coisas surgiram, quem sabe nasceu da magia do próprio intelecto humano se descobrindo, ou ainda da vontade de expandir o que se vê, escuta e sente. as lições de casa era a aplicação de todos esses ensinamentos na vida prática, no cotidiano, entre deveres cumpridos e diversões permanentes. o recreio era o tempo todo, quando se trabalhava, quando se aprendia, quando se brincava, até quando se dormia e sonhava com esse universo oculto que recheava de mistério a beleza de se estar vivo, mesmo em meio a tantos perigos e luta constante pela sobrevivência. essa peça dá uma saudade da minha vó Ana, das histórias que me contava da bahia e também de tudo o que eu nunca vi: essa bagagem cultural de milênios, que carrego em memória dentro de mim!


o grupo Aldeia, teatro de bonecos faz uma pesquisa profunda sobre os mitos e lendas do nosso folclore. busca nas raízes de nossa cultura oral os elementos mágicos para construír suas obras. iniciou contando histórias em várias cidades da região de Terras Altas da Serra, visitando escolas, bibliotecas e também distribuindo livros. o grupo já gravou um cd onde narra quatro lendas indígenas. a continuidade desse projeto intitulado Laços e Lendas segue com o espetáculo Yepá, avó do Mundo.

muitos são os profissionais que trabalham nessa obra: 
no elenco: ana cristina fernandes, débora mazochi e suzana louzada.
direção: débora mazochi e bruno godinho
idéia original: débora mazochi e suzana louzada
texto teatral e adaptação da lenda: débora mazochi e silvino fernandes.
cenário e adereços: ana cristina fernandes e suzana louzada

entre outros muitos.


visite o site oficial do grupo e descubra outras de suas pesquisas e façanhas que combinam arte e vida: 


essa peça, classificada como infantil, serve para qualquer idade. desde o primeiro ano de vida até os milênios que já somam a humanidade.

***

depois de tantos devaneios, concluo o texto com um poema de oswald de andrade:

"aprendi com meu filho de dez anos
 que a poesia
 é a descoberta das coisas que eu nunca vi."


evoé!

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4.5.09

cenário nacional em luto :: morre augusto boal

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A jornalista Ana Paula Sousa reproduz a última entrevista de Augusto Boal, o inventor do Teatro do Oprimido, publicada na revista Carta Capital. Boal fala de teatro, critica a Lei Rouanet e diz que a mídia só "gosta de campeões". "A escolha individualista nunca esteve no meu horizonte". Boal morreu sábado, dia 02/05, vítima de leucemia.

***
:: entrevista copiada do blog de alê peixoto :: boca no trombone ::

***


"O Teatro do Oprimido é
o teatro no sentido mais arcaico do termo.
Todos os seres humanos são atores — porque atuam —
e espectadores — porque observam.
Somos todos ‘espect-atores’".
(augusto boal)

***

Para Augusto Boal, éramos todos artistas

por Ana Paula Sousa


A morte de Augusto Boal virou notícia de destaque neste final de semana. Curiosamente, porém, o dramaturgo e diretor tinha sumido da imprensa brasileira nos últimos anos, como se nada andasse fazendo.

Não foi sem algum susto que li a notícia de sua morte.

Conversei com Boal há cerca de um mês, dias antes de sua partida para Paris, onde recebeu uma homenagem na Unesco. A despeito da doença, ele soava, ao telefone, cheio de vitalidade e planos.

Reproduzo, a seguir, a reportagem que foi publicada na revista CartaCapital. Ao que me consta, foi a última longa entrevista concedida por ele.


ATIVISTA TEATRAL

Foi no Thèatre de Ville, em Paris, que Augusto Boal celebrou, na sexta-feira 27 de março, o Dia Mundial do Teatro. Homenageado pela Unesco, o diretor, dramaturgo e ensaísta brasileiro via o trabalho que realiza desde os anos 1960 ser mundialmente aplaudido.

O Teatro do Oprimido, o método que Boal desenvolve desde os anos 1960, é tão conhecido quanto impalpável. Muita gente já ouviu falar dele. Mas o que é, de fato, esse teatro que se propõe a ser, a um só tempo, arte, ação social e movimento político?

Boal, ex-integrante do Teatro de Arena e escritor incansável, diz, na entrevista a seguir, que se trata de uma ação capaz de transformar a sociedade e de fazer à estética dominante.

Em poucas palavras, como o senhor definiria o Teatro do Oprimido?

Defendemos que todos nós podemos fazer teatro, que todos podemos ser personagens, de fato, de nossas próprias vidas.

Por que temos de seguir a estética determinada pela classe dominante? O Teatro do Oprimido traz consigo a estética do oprimido. Ou seja, queremos que as pessoas retomem suas próprias palavras, imagens e sons.

Na prática, isso significa o que?

Significa compreender que, hoje, todas as formas de expressão e comunicação estão nas mãos dos opressores.

O que a televisão oferece é um crime estético. E ainda acham estranho que alguém saia matando 15 pessoas de uma só vez. O cérebro das pessoas está impregnado dessas imagens.

As rádios também repetem o mesmo som o tempo todo. Sem falar no tecno, que desregula até marca-passo, e é pior que ouvir gente quebrando tijolo em construção.

O que a gente quer, no Teatro do Oprimido, é lutar nesses três campos : palavra, imagem e som.

Nos dê um exemplo desse trabalho. Como ele é feito, que resultados proporciona?

O Teatro do Oprimido é seguido, por exemplo, pelo MST. Há uns 10 anos, eles fundaram um grupo e quase 30 camponeses vieram conhecer o nosso trabalho. Passamos pra eles tudo que podíamos.

Eles não vieram para consumir uma técnica, mas para receber instrumentos que pudessem usar em suas terras. Essa é também a ideia do Teatro do Oprimido ponto-a-ponto, que difunde o trabalho pelo Brasil. Temos multiplicadores do que fazemos aqui no Rio de Janeiro. Estamos em 16 Estados.

O que significa, para uma organização como o MST, ter grupos de teatro?

Significa ter o direito de tratar de certos assuntos a partir da visão deles, expor uma visão dos acontecimentos que não é aquela dos jornais, que coloca o MST como um bando de brutamontes.

O teatro permite que o pensamento que está por trás do movimento seja exposto, retrabalhado.

Em linhas gerais, qual a sua avaliação do teatro brasileiro hoje?

Existe um mundo de teatros no Brasil. Nunca vi um espetáculo no Amazonas ou no Pará, então não posso avaliar.

O que posso dizer é que a Lei Rouanet assassinou a criatividade do teatro.

Ao transferir do governo, que representa o povo, para as empresas a decisão de onde investir, a Lei substitui o pensamento criativo pelo publicitário. Essa lei tem que acabar.

Muitos produtores dizem exatamente o oposto: se acabar a lei, acaba o teatro.

Não é a verdade. Há muitos grupos produzindo por aí. Esse dinheiro da lei deveria ser transferido para um fundo.

A verba do fundo seria distribuída de acordo com a avaliação de comissões constituídas pela sociedade. A Lei não incentiva companhias como a minha, ou as de Zé Celso (Martinez Corrêa), Antunes Filho, Aderbal (Freire Filho) ou grupos como o Tapa.

Ela só funciona para projetos isolados, individualistas. Se eu depender do apoio de uma empresa de macarrão, como vou produzir uma peça como Ralé, de Gorki, que fala sobre a fome?

Qual a sua avaliação do Ministério da Cultura?

Desde que o Gilberto Gil assumiu, temos, pela primeira vez, um Ministério da Cultura. Antes, até houve pessoas interessantes na pasta, mas nunca um Ministério de fato.

Também acho que, pela primeira vez, deixou-se de pensar em cultura apenas como erudição, no sentido dos grandes clássicos literários, dos grandes pintores. O governo indicou que o Brasil deveria se apropriar do que já existia, daquilo que o povo faz.

A cultura não é apenas o que o povo consome, é também o que o povo produz. Os pontos de cultura são isso, eles apoiam o que já existia.

O Teatro do Oprimido também foi beneficiado, não?

Sim, e o Gil disse até que servimos de inspiração para os pontos de cultura. Mas também trabalhamos com outros Ministérios, como Educação e Saúde.

Fizemos um trabalho em escolas de cinco cidades, nas proximidades do Rio, e vimos o poder de transformação que o teatro exerceu sobre os alunos.

Nos dê um exemplo dessa transformação proporcionada pelo teatro.

No caso dos hospitais psiquiátricos, há uma diminuição absurda no consumo de medicamentos. Trabalhamos com a saúde e não com a doença mental.

Procuramos ativar a parte saudável do cérebro doente, estimulá-lo no que tem de vivo e criativo. Com isso, o teatro é capaz de devolver ao convívio social alguém que tinha se isolado. Nas comunidades carentes acontece o mesmo.

Os programas populares da televisão são um massacre, impedem que as pessoas percebam o que está dentro delas. Elas apenas consomem o que lhes é imposto. O Teatro do Oprimido procura ajudá-las a encontrar seus próprios meios de expressão.

Que episódios, nessas andanças, mostraram ao senhor o sentido do seu trabalho?

Vários. Me lembro de um presídio, no interior de São Paulo, que funcionava como um leprosário. A população da cidade queria o isolamento total daqueles presos.

Resolvemos fazer uma peça de teatro, com os presos, no meio de uma praça pública, e um morador era chamado para entrar em cena. Isso amenizou aquela relação conflituosa e violenta.

Também de lembro de um preso, que era engraçado, e, numa cena, fez uma menina de 10 anos rir. A menina foi elogiá-lo. Ele se vira pra mim e diz: “É a primeira vez na minha vida que alguém me diz que eu sirvo para a alguma coisa”.

O senhor receberá, na França, uma homenagem da Unesco. Aqui no Brasil o senhor se considera reconhecido?

Sou reconhecido no meu trabalho, mas pela mídia, não. A imprensa só se interessaria pelo nosso grupo se formássemos três bailarinos que fossem dançar no Bolshoi.

A mídia gosta de campeões. Campeão de Fórmula 1, filme campeão de bilheteria, qualquer coisa que chegue na frente, que represente a vitória. Mas o ser humano não é cavalo de corrida.

Nos anos 1950, o senhor fez parte do Teatro de Arena, que teve grande projeção e, ao seguir o caminho do Teatro do Oprimido, mudou o rumo da sua carreira. Foi consciente essa escolha?

Totalmente. A escolha individualista nunca esteve no meu horizonte.

Quando era pequeno e trabalhava na padaria do meu pai, eu via aqueles operários que passavam o dia com um pão com manteiga e uma média e pensava: “Isso não pode continuar assim”. Eu acredito na solidariedade.

Estou com 78 anos. Isso é muito tempo. Foi outro dia que nasci e não deu tempo de fazer nem metade do que eu queria.

Mas, mesmo com todas as dificuldades, o Teatro do Oprimido me realizou.

Cidadão não é aquele que vive em sociedade, cidadão é aquele que transforma. E acredito que o Teatro do Oprimido tenha deixado alguma coisa para o mundo.


7.1.09

campanha de popularização do teatro e da dança 2009


iniciou-se dia 05/01 a campanha de popularização de teatro e dança de 2009, com mais de 100 espetáculos em cartaz a R$ 10,00 a entrada. esse evento estará acontecendo até o dia 08/03. algumas apresentações estarão sendo encenadas por vários dias, outras contarão com apenas uma única apresentação, por isso fique atento à programação e postos de vendas de ingressos:

confira tudo aqui

algumas peças considero muito boas e vale a pena conferir:

AQUELES DOIS

Diretores: Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves, Rômulo Braga e Zé Walter Albinati
Autor: Cia. Luna Lunera
Produtor: Cia. Luna Lunera
Da rotina de uma repartição pública, revela-se o desenvolvimento de laços de cumplicidade e afeição entre dois de seus novos funcionários, gerando incômodo nos demais. “Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra.” Criado a partir do conto homônimo de Caio Fernando Abreu.
Classificação 16 anos
Duração: 80 min
Sala Juvenal Dias 08/01 a 01/02 • Qui a Sáb: 21h / Dom: 20h
Galpão Cine Horto 05/02 a 01/03 • Qui a Sáb: 21h / Dom: 20h (exceto 19/02 a 22/02)

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PEQUENOS MILAGRES

Diretor: Paulo de Moraes
Dramaturgia: Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes
Produtor: Grupo Galpão
Construído a partir de histórias reais enviadas pelo público ao Grupo Galpão, "Pequenos Milagres", dirigido por Paulo de Moraes, é composto por quatro cenas que, sob a ótica do homem comum, misturam elementos da comédia, do drama e do melodrama, e traçam situações reais e tipos que são um retrato do Brasil dos últimos cinqüenta anos.
Classificação 12 anos
Duração: 110 min
Palácio das Artes (Grande Teatro) 05/02 a 08/02 • Qui e Sex: 21h / Sáb: 18h e 21h / Dom: 19h

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DO TEMPO E DA PAIXÃO - fragmentos descontínuos de Frida Kahlo

Diretora: Dayse Belico
Autor: Juarez Dias
Produtor: Cyntilante Produções
O espetáculo propõe uma reflexão poética sobre as relações humanas e a morte, a partir do universo da pintora mexicana Frida Kahlo, uma linguagem contemporânea, que experimenta em cena o jogo entre o ator e o boneco.
Classificação 12 anos
Duração: 60 min
Espaço Cultural Minas Shopping 29/01 a 01/02 • Qui a Sáb: 21h / Dom: 19h
Teatro Marília 05/02 a 08/03 • Qui a Dom: 20h

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LAMPIÃOZINHO E MARIA BONITINHA

Diretor: Yuri Simon
Autor: Léo Mendonza
Produtor: Cyntilante Produções
Um fenômeno dos palcos mineiros, vencedor de 19 prêmios, incluindo três na categoria melhor espetáculo. Recomendado pelos Jornais Folha de São Paulo, Estado de São Paulo e revista Veja SP, o espetáculo homenageia a cultura brasileira por meio das históricas figuras do casal que fez fama no nordeste, com músicas ao vivo!
Classificação livre
Duração: 60 min
Teatro Dom Silvério 09/01 a 01/02 • Sex e Dom: 16h30

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outros espetáculos eu quero primeiro conhecer para poder dar as minhas singelas impressões. entre eles estão: Vexame da diretora Inez Peixoto; Júlia e a memória do futuro da cia tríade de tetro; e algumas outras peças infantis e de dança .

entretanto, para a maioria das peças encenadas na campanha eu não arriscaria meus dez reais. mas isso fica a critério das exigências estéticas de cada um.

para quem gosta de teatro e dança, bom espetáculo!