26.12.13
Hèlené Cixous
(Hèlené Cixous- A chegada da escritura)
tradução livre: patrícia mc quade
5.5.13
Alejandra Pizarnik
Caminhos do espelho
I
E sobre tudo olhar com inocência. Como se não passasse nada, o que é certo.
II
Mas quero olhar você até que seu rosto se afaste de meu medo como um pássaro da margem afiada da noite.
III
Como uma menina de giz rosado no muro muito velho subitamente apagada pela chuva.
IV
Como quando se abre uma flor e revela o coração que não tem.
V
Todos os gestos de meu corpo e de minha voz para fazer de mim a oferenda, o ramo que abandona o vento no limiar.
VI
Cubra a memória de sua cara com a máscara de quem você será e assuste a menina que você foi.
VII
A noite dos dois se dispersou com a névoa. É a estação dos alimentos frios.
VIII
E a sede, minha memória é da sede, eu embaixo, no fundo, no poço, eu bebia, lembrança.
IX
Cair como um animal ferido no lugar que seria de revelações.
X
Como quem não quer a coisa. Nenhuma coisa. Boca cosida. Pálpebras cosidas. Esqueci.
Dentro o vento. Tudo fechado e o vento dentro.
XI
Ao negro sol do silêncio as palavras se douravam.
XII
Mas o silêncio é certo. Por isso escrevo. Estou só e escrevo. Não, não estou só.
Há alguém aqui que treme.
XIII
Ainda se digo sol e lua e estrela me refiro a coisas que me sucedem. E o que desejava eu?
Por isso falo.
XIV
A noite tem a forma de um grito de lobo.
XV
Delícia de perder-se na imagem pressentida. Eu me levantei de meu cadáver, eu fui em busca de quem sou.
Peregrina de mim, fui até a que dorme num país ao vento.
XVI
Minha caída sem fim a minha caida sem fim onde ninguém me esperou pois ao olhar quem me esperava
não vi outra coisa senão a mim mesma.
XVII
Algo caía no silêncio. Minha última palavra foi eu mas me referia à aurora luminosa.
XVIII
Flores amarelas constelam um círculo de terra azul. A água freme cheia de vento.
XIX
Deslumbramento do dia, pássaros amarelos na manhã. Uma mão desata trevas, uma mão arrasta
a cabeleira de uma afogada que não cessa de passar pelo espelho. Voltar à memória do corpo,
tenho voltado aos meus ossos em duelo, tenho de compreender o que disse minha voz.
Caminos del espejo
I
Y sobre todo mirar con inocencia. Como si no pasara nada, lo cual es cierto.
II
Pero a ti quiero mirarte hasta que tu rostro se aleje de mi miedo como un pájaro del borde
filoso de la noche.
III
Como una niña de tiza rosada en un muro muy viejo súbitamente borrada por la lluvia.
IV
Como cuando se abre una flor y revela el corazón que no tiene.
V
Todos los gestos de mi cuerpo y de mi voz para hacer de mí la ofrenda, el ramo que abandona
el viento en el umbral.
VI
Cubre la memoria de tu cara con la máscara de la que serás y asusta a la niña que fuiste.
VII
La noche de los dos se dispersó con la niebla. Es la estación de los alimentos fríos.
VIII
Y la sed, mi memoria es de la sed, yo abajo, en el fondo, en el pozo, yo bebía, recuerdo.
IX
Caer como un animal herido en el lugar que iba a ser de revelaciones.
X
Como quien no quiere la cosa. Ninguna cosa. Boca cosida. Párpados cosidos. Me olvidé.
Adentro el viento. Todo cerrado y el viento adentro.
XI
Al negro sol del silencio las palabras se doraban.
XII
Pero el silencio es cierto. Por eso escribo. Estoy sola y escribo. No, no estoy sola.
Hay alguien aquí que tiembla.
XIII
Aun si digo sol y luna y estrella me refiero a cosas que me suceden. ¿Y qué deseaba yo?
Deseaba un silencio perfecto.
Por eso hablo.
XIV
La noche tiene la forma de un grito de lobo.
XV
Delicia de perderse en la imagen presentida. Yo me levanté de mi cadáver, yo fui en busca de quien soy.
Peregrina de mí, he ido hacia la que duerme en un país al viento.
XVI
Mi caída sin fin a mi caída sin fin en donde nadie me aguardó pues al mirar quién me aguardaba
no vi otra cosa que a mí misma.
XVII
Algo caía en el silencio. Mi última palabra fue yo pero me refería al alba luminosa.
XVIII
Flores amarillas constelan un círculo de tierra azul. El agua tiembla llena de viento.
XIX
Deslumbramiento del día, pájaros amarillos en la mañana. Una mano desata tinieblas, una mano arrastra
la cabellera de una ahogada que no cesa de pasar por el espejo. Volver a la memoria del cuerpo,
he de volver a mis huesos en duelo, he de comprender lo que dice mi voz.
7.4.13
Para fazer um talismã
tradução livre :: patrícia mc quade
16.12.12
flautas
Dançar a vida, comer a vida: a cidade de Sibaris, ao sul do que agora chamamos Itália, estava consagrada à música e à boa mesa.
Mas os sibaritas queriam ser guerreiros, tiveram sonhos de conquista; y Sibaris foi aniquilada. Crotona, a cidade inimiga, apagou Sibaris do mapa há vinte e cinco séculos.
Às marges do golfo de Tarento, ocorreu a batalha final.
Os sibaritas, educados na música, foram pela música vencidos.
Quando a cavalaria de Sibaris se lançou em combate, os soldados de Crotona desembainharam suas flautas. Os cavalos reconheceram a melodia, frearam o galope em seco, levantaram suas patas y se puseram a dançar. Não era o momento oportuno, dadas as circunstâncias, mas os cavalos seguiram dançando, de acordo com seu gosto e costume, enquanto seus cavaleiros fugiam e as flautas não deixavam de soar.
bibliografia: GALEANO, Eduardo. Bocas del tiempo. Buenos Aires : Catálogos, 2004, p. 161.
5.12.10
o direito de sonhar
tradução livre de patricia mc quade
Ninguém sabe como será o mundo depois do ano 2000. Temos uma única certeza: se ainda estivermos aqui, já seremos pessoas do século passado y, pior ainda, seremos pessoas do milênio passado.
Entretanto, mesmo que não possamos adivinhar o mundo que será, podemos sim imaginar o que queremos que seja. O direito de sonhar não está estampado nos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram em 1948. Mas se não fosse por ele, e pelas águas que dá de beber, os outros direitos morreriam de sede.
Deliremos, pois, por um momento. O mundo, que está de pernas para o ar, se firmará sobre seus pés.
• Nas ruas, os automóveis serão pisados por cachorros.
• Os cozinheiros não acreditarão que as lagostas adoram ser fervidas vivas.
• A polícia não será a maldição de quem não pode comprá-la.
• O ar estará limpo dos venenos das máquinas, e não haverá mais poluição do que aquela que emana dos medos humanos e das humanas paixões.
• Os historiadores não acreditarão que os países adoram ser invadidos. Os políticos não acreditarão que os pobres adoram comer promessas.
• A justiça e a liberdade, irmãs siamesas condenadas a viverem separadas, voltarão a se juntar, bem coladinhas, costa com costa.
• As pessoas não serão dirigidas pelo automóvel, nem serão programadas pelo computador, nem serão compradas pelo supermercado, nem serão assistidas pelo televisor.
• O mundo já não estará em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza, e a indústria militar não terá mais remédio do que declarar para sempre sua falência.
• Uma mulher, negra, será presidente do Brasil e outra mulher, negra, será presidente dos Estados Unidos da América.
Uma mulher índia governará Guatemala e outra, Peru.
• O televisor deixará de ser o membro mais importante da família, e será tratado como o ferro de passar ou a máquina de lavar roupas.
• Ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão.
• Na Argentina, as loucas da Praça de Maio serão um exemplo de saúde mental, porque elas se negaram a esquecer nos tempos de amnésia obrigatória.
• As pessoas trabalharão para viver, em lugar de viverem para trabalhar.
• Os meninos de rua não serão tratados como se fosse lixo, porque não haverá meninos de rua.
• A Santa Madre Igreja corrigirá algumas erratas das tábuas de Moisés:
O sexto mandamento ordenará: “Festejarás o corpo”.
O nono, que desconfia do desejo, irá declará-lo sagrado.
• Em nenhum país irão presos os rapazes que se neguem a fazer o serviço militar, senão aqueles que queiram fazê-lo.
• As crianças ricas não serão tratadas como se fosse dinheiro, porque não haverá crianças ricas.
• A igreja também ditará um décimo primeiro mandamento, que se esqueceu o Senhor: “Amarás a natureza, da qual fazes parte”.
• Os economistas não chamarão nível de vida ao nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida à quantidade de coisas.
• A educação não será um privilégio de quem possa por ela pagar.
• Todos os penitentes serão celebrantes, e não haverá noite que não seja vivida como se fosse a última, nem dia que não seja vivido como se fosse o primeiro.
* *
texto traduzido do site: pro diversitas
*
já dez anos quase concluidos de século XXI se passaram e continuo inclinada ao meu direito legítimo de sonhar. sonho com a segunda década deste ainda novo século cheia de transformações na mentalidade das pessoas e na realidade de vida vivida, morta e ressuscitada com mais justiça e liberdade para todos.
*
19.9.10
Heróis
(tradução livre :: patrícia mc quade)
Eles não brigarão mais do que em disputas conjugais.
Não derramarão mais sangue do que num corte ao barbear-se.
Não respirarão mais gases venenosos do que cospe o automóvel.
Não se afundarão no barro, por muito que chova no jardim.
Não vomitarão pelo cheiro dos cadáveres apodrecendo ao sol, senão por alguma intoxicação de sanduíches.
Não lhes perturbarão as explosões que despedaçarão pessoas e cidades, senão os foguetes que celebrarão a vitória.
Não lhes perseguirão o sonho os olhos de suas vítimas.
22.8.10
Furtos e rapinas
(tradução livre :: patrícia mc quade)
As palavras perdem seu sentido, enquanto perdem sua cor o mar verde e o céu azul, que foram pintados gentilmente pelas algas que lançaram oxigênio durante três bilhões de anos.
E a noite perde suas estrelas. Já há cartazes de protestos pregados nas grandes cidades do mundo:
Não nos deixam ver as estrelas.
Assinado: As pessoas.
E no firmamento apareceram já muitos cartazes que clamam:
Não nos deixam ver as pessoas.
Assinado: As estrelas.
bibliografia: GALEANO, Eduardo. Bocas del tiempo. Buenos Aires : Catálogos, 2004, p. 249.
***
26.7.10
Os amorosos
(tradução livre :: patrícia mc quade)
O amor é o silêncio mais fino,
o mais temeroso, o mais insuportável.
Os amorosos buscam,
os amorosos são os que abandonam,
são os que mudam, os que esquecem.
Seu coração lhes diz que nunca vão encontrar,
não encontram, buscam.
Os amorosos andam como loucos
porque estão sós, sós, sós,
entregando-se, dando-se a cada momento,
chorando porque não salvam o amor.
Preocupa-lhes o amor. Os amorosos
vivem o dia, não podem fazer mais, não sabem.
Sempre estão indo,
Sempre, para alguma parte.
Esperam,
Não esperam nada, mas esperam.
Sabem que nunca vão encontrar.
O amor é a delonga perpétua,
sempre o passo seguinte, o outro, o outro.
Os amorosos são os insaciáveis,
Os que sempre – que bom! – vão estar sós.
Os amorosos são a hidra do conto.
Têm serpentes no lugar de braços.
As veias do pescoço se incham
também como serpentes para asfixiá-los.
Os amorosos não podem dormir
porque se dormem lhes comem os vermes.
Na escuridão abrem os olhos
E lhes sobressalta o espanto.
Encontram escorpiões debaixo do lençol
E sua cama flutua sobre um lago.
Os amorosos são loucos, só loucos,
sem Deus e sem diabo.
Os amorosos saem de suas covas
temerosos, famintos,
para caçar fantasmas.
Riem das pessoas que sabem de tudo,
das que amam o perene, verídicamente,
das que acreditam no amor como uma lâmpada de inesgotável azeite.
Os amorosos brincam de agarrar água,
de tatuar fumaça, de não se ir.
Jogam faz tempo, o triste jogo do amor.
Ninguém há de resignar-se.
Dizem que ninguém há de resignar-se.
Os amorosos se envergonham de toda conformidade.
Vazios, mas vazios de uma a outra costela,
a morte lhes fermenta atrás dos olhos,
E eles caminham, choram até a madrugada
quando trens e galos se despedem dolorosamente.
Sentem às vezes um cheiro de terra recém nascida,
de mulheres que dormem com a mão no sexo, gozosas
de córregos de água carinhosa e de cozinhas.
Os amorosos cantam entre lábios
uma canção não aprendida,
e se vão chorando, chorando,
a formosa vida.
21.7.10
escena XIX :: calderón de la barca :: la vida es sueño
É verdade, pois reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição
se alguma vez sonhamos.
E si faremos, pois estamos
num mundo tão singular,
que o viver só é sonhar;
e a experiência me ensina
que o homem que vive sonha
o que é até despertar.
Sonha o rei que é rei, e vive
com este engano mudando,
dispondo e governando;
e este aplauso que recebe
emprestado, no vento escreve,
e em cinzas se converte
a morte (augúrio forte!)
O que há com quem tenta reinar?
Vendo que há de despertar
no sonho da morte!
Sonha o rico em sua riqueza
que mais cuidados lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e sua pobreza;
sonha o que medir começa
sonha o que afana e pretende;
sonha o que agoniza e ofende;
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
mesmo que ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
destas prisões carregado,
e sonhei que noutro estado
mais lisonjeiro me vi.
O que é a vida? Um frenesi.
O que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção,
e o maior bem é pequeno;
que toda a vida é sonho;
e os sonhos, sonhos são.
esta fiera condición,
esta furia, esta ambición
por si alguna vez soñamos.
Y sí haremos, pues estamos
en mundo tan singular,
que el vivir sólo es soñar;
y la experiencia me enseña
que el hombre que vive sueña
lo que es hasta despertar.
Sueña el rey que es rey, y vive
con este engaño mandando,
disponiendo y gobernando;
y este aplauso que recibe
prestado, en el viento escribe,
y en cenizas le convierte
la muerte (¿desdicha fuerte!);
¿que hay quien intente reinar,
viendo que ha de despertar
en el sueño de la muerte!
Sueña el rico en su riqueza
que más cuidados le ofrece;
sueña el pobre que padece
su miseria y su pobreza;
sueña el que a medrar empieza,
sueña el que afana y pretende,
sueña el que agravia y ofende;
y en el mundo, en conclusión,
todos sueñan lo que son,
aunque ninguno lo entiende.
Yo sueño que estoy aquí
destas prisiones cargado,
y soñé que en otro estado
más lisonjero me vi.
¡Qué es la vida? Un frenesí.
¡Qué es la vida? Una ilusión,
una sombra, una ficción,
y el mayor bien es pequeño;
que toda la vida es sueño,
y los sueños, sueños son.
***
blibliografia: BARCA, Calderón de la. La vida es sueño. Buenos Aires: Olympia, 1995. p. 84, 85.
***
12.7.10
Aranhas
(tradução livre :: patrícia mc quade)
Passinho a passo, fio após fio, o aranho se aproxima da aranha.
Oferece-lhe música, transformando a teia em harpa, e dança para ela, enquanto pouquinho a pouco vai acariciando, até o desmaio, seu corpo de veludo.
Então, antes de abraçá-la com seus oito braços, o aranho envolve a aranha na teia e a amarra bem amarrada. Se não a amarra, ela o devora depois do amor.
O aranho não gosta nada desse costume da aranha, de modo que ama e foge antes de que a prisioneira acorde e exija o serviço completo de cama e comida.
Quem entende o aranho? Ele poderia amar sem morrer, teve a manha de cumprir essa façanha, e agora que está a salvo de sua sanha, sente saudade da aranha.
bibliografia: GALEANO, Eduardo. Bocas del tiempo. Buenos Aires : Catálogos, 2004, p. 18.
***
4.7.10
el lado oscuro del corazón :: con poesía de mario benedetti
recorte de "El Lado Oscuro del Corazón" de eliseo subiela, argentina.
dario grandinetti y sandra ballesteros cantan poemas de mario benedetti.
nuestro poeta benedetti aparece como un náufrago jubilado cantando versos en alemán a una aburrida muchacha al final del video.
No te salves
No te quedes inmóvil
al borde del camino
no congeles el júbilo
no quieras con desgana
no te salves ahora
ni nunca
no te salves
no te llenes de calma
no reserves del mundo
sólo un rincón tranquilo
no dejes caer los párpados
pesados como juicios
no te quedes sin labios
no te duermas sin sueño
no te pienses sin sangre
no te juzgues sin tiempo
pero si
pese a todo
no puedes evitarlo
y congelas el júbilo
y quieres con desgana
y te salvas ahora
y te llenas de calma
y reservas del mundo
sólo un rincón tranquilo
y dejas caer los párpados
pesados como juicios
y te secas sin labios
y te duermes sin sueño
y te piensas sin sangre
y te juzgas sin tiempo
y te quedas inmóvil
al borde del camino
y te salvas
entonces
no te quedes conmigo.
Não se salve
Não fique imóvel
à margem do caminho
não congele seu júbilo
não ame sem vontade
não se salve agora
nem nunca
não se salve
não se farte de calma
não reserve do mundo
só um canto tranquilo
não deixe cair suas pálpebras
pesadas como juízos
não fique sem lábios
não se durma sem sonho
não se pense sem sangue
não se julgue sem tempo
mas se
apesar de tudo
não puder evitar
e congela seu júbilo
e ama sem vontade
e se salva agora
e se farta de calma
e reserva do mundo
só um canto tranquilo
e deixa cair suas pálpebras
pesadas como juízos
e se seca sem lábios
e se dorme sem sonho
e se pensa sem sangue
e se julga sem tempo
e fica imóvel
à margem do caminho
e se salva
então
não fique comigo
***
27.6.10
Esse vão costume que me inclina ao sul
(tradução livre :: patrícia mc quade)
I
Já não é mágico o mundo. Abandonaram você
Já não compartilhará a clara lua
nem os lentos jardins. Já não há uma
lua que não seja espelho do passado,
cristal de solidão, sol de agonias.
Adeus as mutuas mãos e as têmporas
que aproximava o amor. Hoje você só tem
a fiel memória e os desertos dias.
Ninguém perde (repete você em vão)
senão algo que não tem nem teve
nunca, contudo não basta ser valente
para aprender a arte do esquecimento.
Um símbolo, uma rosa, se lhe desgarra
E pode matar você uma guitarra.
II
Já não serei feliz. Talvez não importa.
Há tantas outras coisas no mundo;
um instante qualquer é mais profundo
e diverso que o mar. A vida é curta
e ainda que as horas sejam tão longas, uma
escura maravilha nos espía,
A morte, esse outro mar, essa outra flecha
que nos livra do sol e da lua
e do amor. A sorte que você me deu
e me tomou deve ser apagada;
o que era tudo tem que ser nada.
Só me resta o gozo de estar triste,
esse vão costume que me inclina
ao sul, a certa porta, a certa esquina.
23.6.10
lamento de ariadna :: Friedrich Nietzsche
Quem me aquece, quem me ama ainda?
Dê a mim mãos ardentes!
Dê a mim um braseiro para o coração!
Estendida na terra, estremecendo-me,
como uma meio morta a quem se aquece os pés,
agitada, ai, por febres desconhecidas,
tremendo perante glaciais flechas agudas de arrepios,
caçada por você, pensamento!
Inominável! Escondido! Aterrador!
Você caçador entre as nuvens!
Fulminada na terra por você,
Olho sarcástico que me olha desde o escuro!
Assim estou jacente
dobrada, retorcida, atormentada
por todos os martírios eternos,
ferida,
por você, o mais cruel caçador,
seu desconhecido, deus…
Fira mais fundo!
Fira de novo!
Corte, recorte este coração!
Para que vem este martírio
com flechas de dentes redondos?
O que olha outra vez
sem se cansar do tormento humano
com malévolos olhos de raios divinos?
Não quer você matar,
somente martirizar, martirizar?
Para que martirizar a mim,
malévolo deus desconhecido?
Ah, ah!
Você se aproxima sinuoso
semelhante à meia-noite?...
O que quer?
Fale!
Aperte-me, oprima-me,
ah! já está muito próximo!
Ouça-me respirar,
espíe meu coração,
ciumento!
— mas, ciumento de que?
Fora, fora!
para que a escada?
você quer subir
penetrar, até o coração,
subir até meus mais
secretos pensamentos?
Devasso! Desconhecido! Ladrão!
O que quer levar roubando?
O que quer levar escutando?
O que quer levar atormentando?
você, atormentador!
você, deus carrasco!
Ou como um cão devo
esfregar-me contra o chão diante de você?
Submissa, admirada fora de mim
balançar o rabo por amor?
É inútil!
Fira-me outra vez,
aguilhão o mais cruel!
Não sou seu cão, só sua presa,
caçador o mais cruel!
sua mais orgulhosa prisioneira,
bandido detrás das nuvens…
Fale afinal!
Você, escondido com o raio! Desconhecido! fale!
O que quer, salteador, de mim?...
Como?
Um resgate?
O que quer de resgate?
Você pede muito, aconselha-o meu orgulho!
E fala pouco, aconselha-o meu orgulho!
Ah, ah!
sou eu quem você quer? Eu?
eu inteira?
Ah, ah!
E me martiriza? Louco que você é, louco!
Re-martirize meu orgulho?
Dê a mim o amor, quem me aquece ainda?
quem me ama ainda?
dê a mim mãos ardentes,
dê a mim um braseiro para o coração,
dê a mim, à mais solitária,
à que o gelo, ai! sete camadas de gelo
ensinam a somar inimigos,
dê, sim, entregue,
inimigo o mais cruel,
dê a mim, a você!
Acabou-se!
Então fugiu ele,
meu único companheiro,
meu grande inimigo
meu deus carrasco!...
Não!
volte!
Com todos os seus martírios!
Todo o curso de minhas lágrimas
escorre até você,
e a última chama de meu coração
para você re-acende.
Oh, volte,
meu deus desconhecido! minha dor!
Minha última felicidade!...
Um raio. Dionisio aparece com esmeraldina beleza.
Dionisio:
Seja sensata, Ariadna…
Tenha ouvidos pequenos, tenha meus ouvidos:
coloque neles uma palavra sensata!
Como odiar-se primeiro, se tem que amar-se?...
Eu sou o seu labirinto...
(tradução livre do espanhol de patrícia mc quade)
19.6.10
História clínica
Informou que sofria taquicardia cada vez que o via, mesmo que fosse de longe.
Declarou que secavam suas glândulas salivares quando ele a mirava, mesmo que fosse de viés.
Admitiu uma hipersecreção das glândulas sudoríparas cada vez que ele lhe falava, mesmo que fosse para responder-lhe a uma saudação.
Reconheceu que padecia de graves desequilíbrios na pressão sanguínea quando ele a roçava, mesmo que fosse por engano.
Confessou que por ele padecia de tonturas, que se turvava a visão, que se afrouxavam os joelhos. Que de dia não conseguia parar de dizer bobagens e de noite não conseguia dormir.
— Foi-se há muito tempo, doutor — disse —. Eu nunca mais senti nada disso.
O médico arqueou as sobrancelhas:
— Nunca mais sentiu nada disso?
E diagnosticou:
— Seu caso é grave.
bibliografia: GALEANO, Eduardo. Bocas del tiempo. Buenos Aires : Catálogos, 2004, p. 09.
***
27.5.10
outro poema :: de Jacobo Fijman
Luador, quatro luas
luaram os céus
que valem aos trigos e cevadas,
uma lua de terra secará as maçãs
fechando-se nos olhos mais belos da morte
e você luante pelas luas luado
entre coisas e coisas
ainda o ser do verbo, e as luas, e o mar,
ainda o ser luado,
e os olhos abertos que sagram a morte.
Lunador, cuatro lunas
han lunado los cielos
que valen a los trigos y cebadas,
una luna de tierra secará las manzanas
cerrándose en los ojos más bellos de la muerte.
Y tú lunante por las lunas lunado
entre cosas y cosas,
aún el ser del verbo, y las lunas, y el mar,
aún el ser lunado,
y los ojos abiertos que sacran la muerte.
aqui em beagá a lua cheia está linda!
2.5.10
Testemunhas
eduardo galeano
O professor e um jornalista passeiam pelo jardim.
Nisso, Jean-Marie Pelt, o professor, se detém, assinala com o dedo e diz:
— Apresento-lhe nossas avós.
E o jornalista, Jacques Girardon, se agacha y descobre uma bolinha de espuma que surge entre as pastagens.
É um povoado de microscópicas algas azuis. Nos dias de muita umidade, as algas se deixam ver. Assim, todas juntas, parecem uma cuspida. O jornalista franze o nariz: a origem da vida não tem um aspecto muito atrativo convenhamos, mas dessa baba, dessa porcaria, viemos todos os que têm pernas, patas, raízes, antenas ou asas.
Antes de antes, nos tempos da infância do mundo, quando não havia cores nem sons, elas, as algas azuis, já existiam. Produzindo oxigênio, deram cor ao mar e ao céu. E num bom dia, um dia que durou milhões de anos, as muitas algas azuis se transformaram em algas verdes. E as algas verdes foram gerando, muito pouquinho a pouco, liquens, fungos, musgos, medusas e todas as cores y sons que depois vieram, viemos, causar alvoroço no mar e na terra.
Mas outras algas azuis preferiram continuar sendo como eram.
Assim seguem estando.
Desde o remoto mundo que foi, elas olham o mundo que é.
Não se sabe o que pensam.
bibliografia: GALEANO, Eduardo. Bocas del tiempo. Buenos Aires : Catálogos, 2004, p. 03.
***
(foto de Gabriela Carrión :: retirado do blog pez es pájaro)***
5.4.10
um poema :: de Jacobo Fijman
tradução livre :: patrícia mc quade
Sobre minhas mãos agudas
descendem as chamas das visões
Sóis e sóis.
Correm os sóis sóis e sóis.
Águas e águas correm as águas sobre a luz, sobre as águas multiplicadas.
Minha boca grande de oração derrama vôos.
Amo teu nome com amor pavoroso.
Com pavor amoroso meu caminho se alegra e regozija com teu nome.
Ouça em minha solidão; veja em meu pranto
Minha sede crê em meu pranto; tua solidão chega ao meu pranto.
Entrou a noite em nosso pranto.
Sobre mis manos agudas
descienden las llamas de las visiones.
Soles y soles.
Corren los soles soles y soles.
Aguas y aguas corren las aguas sobre la luz, sobre las aguas multiplicadas.
Mi boca grande de oración derrama vuelos.
Amo tu nombre con amor pavoroso.
Con pavor amoroso mi camino se alegra y regocija con tu nombre.
Oye en mi soledad; mira en mi llanto.
Mi sed cree en mi llanto; tu soledad llega a mi llanto.
Ha entrado la noche en nuestro llanto.
conhecimento em processo!
28.3.10
uma homenagem à Lua Cheia
(y un saludo cariñoso a una guapa che de ojitos achinados!)
花間一壺酒
獨酌無相親
舉杯邀明月
對影成三人
月既不解飲
影徒隨我身
暫伴月將影
行樂須及春
我歌月徘徊
我舞影零亂
醒時同交歡
醉後各分散
永結無情遊
相期邈雲漢
***
(tradução: Cecília Meireles)
Entre as flores há um jarro de vinho.
Sou o único a beber: não tenho aqui nenhum amigo.
Levanto a minha taça, oferecendo-a à lua:
com ela e a minha sombra, já somos três pessoas.
Mas a lua não bebe, e a minha sombra imita o que faço.
A sombra e a lua, companheiras casuais,
divertem-se comigo, na primavera.
Quando canto, a lua vacila.
Quando danço, a minha sombra se agita em redor.
Antes de embriagados, todos se divertem juntos.
Depois, cada um vai para a sua casa.
Mas eu fico ligado a esses companheiros insensíveis:
nossos encontros são na Via Láctea…
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Tradução-pt: Poemas Chineses: Li Po e Tu Fu. [Por: Cecília Meireles]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.
11.3.10
Verderias
(tradução livre :: patrícia mc quade)
Quando o mar já era mar, a terra não era mais que rocha nua.
Os liquens, vindos do mar, fizeram os prados. Eles invadiram, conquistaram e verdearam o reino da pedra.
Isso aconteceu no ontem dos ontens, e continua acontecendo ainda. Onde nada vive, os liquens vivem: nas estepes geladas, nos desertos ardentes, no lugar mais alto das mais altas montanhas.
Os liquens vivem enquanto dura o casamento entre as algas e seus filhos fungos. Se o casamento se desfaz, se desfazem os liquens.
Às vezes, as algas e os fungos se divorciam, por causa de brigas e disputas. Segundo elas, eles as mantêm enjauladas e não permitem que vejam a luz. Segundo eles, elas os empanturram de tanto dar-lhes açúcar noite e dia.
7.1.10
Ver
eduardo galeano
(tradução livre :: patrícia mc quade)
Carlos Santalla lhe perguntou, com todo respeito, se era verdade o que diziam: que ele via o invisível porque tinha mente grande. Tão grande era sua mente, diziam, que não cabia no crânio e sentia dor de cabeça.
O velho gaúcho riu a gargalhadas:
— Eu, o que posso dizer é que sou muito curioso, e que tenho sorte. Quanto mais se encurta a minha vista, mais vejo.
Carlos tinha nove anos quando escutou isso. Quando já ia completar um século de vida, ainda se lembrava. Os anos também tinham encurtado a sua vista, para que visse mais.
bibliografia: GALEANO, Eduardo. Bocas del tiempo. Buenos Aires : Catálogos, 2004, p. 146.
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