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6.6.10

un regalito de carrión







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9 de novembro de 2008Leticia Cossettini y sus alumnos relatan la experiencia pedagógica del Coro de los Niños Pájaros realizada en Rosario,. Argentina en los años 40 del siglo XX. Las Hermanas Cossettini fundan el modelo de Escuela Serena, basada en el método de la Escuela Nueva Europea.

Fragmento del Documental "La Escuela de la Srta. Olga".




29.5.10

Contos e lendas da mitologia grega :: de Claude Pouzadoux

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Aprendendo com os mitos

(Dicas de como trabalhar a mitologia grega na escola)

Estudar a mitologia grega nos leva a construir uma noção da trajetória do pensamento e da arte ocidental frente aos mistérios da natureza. Por outro lado, nos leva também a entender os dilemas e contradições que povoam o lado obscuro do homem contemporâneo a partir de traços de caráter e sentimentos dos antigos deuses, características essas que são encontradas também nas pessoas comuns independente da época em que vivem. Por essas e outras razões, nas minhas aulas de literatura, com adolescentes de 12 anos, escolhi a leitura da obra Contos e Lendas da Mitologia Grega, do autor Claude Pouzadoux – ed. Companhia das Letras.

O livro aborda os mitos dos deuses do Olimpo e conta, também, as fantásticas histórias de Jasão, Medéia e os Argonautas; os 12 Trabalhos de Hércules; a luta de Perseu contra a Medusa; a vitória de Teseu sobre o Minotauro; e o trágico destino de Édipo. A partir desses textos, fizemos reflexões sobre: Por que o homem cria seus deuses e heróis? Qual a relação que podemos fazer entre mito e história? Como esses mitos prevalecem vivos até os dias de hoje? Além de alimentar a imaginação e o universo criativo dos alunos do 1º ano do 3º ciclo da Escola da Serra.

Para garantir aprendizagens significativas, fizemos leituras coletivas em sala – paralelas a leituras individuais em casa – a fim de superar os desafios da linguagem erudita e desvendar os variados significados que envolvem mito e vida real. Ampliar esse potencial de significados ajuda os nossos alunos a entender melhor o mundo onde vivem e esse é o principal objetivo do estudo da literatura.

A mitologia grega está viva por toda parte no mundo ocidental: na literatura, no cinema, na música, na dança, no teatro, na filosofia, na psicanálise e até na língua que usamos diariamente. Os alunos se divertiram ao descobrir que o termo “Complexo de Édipo” é um conceito psicanalítico criado por Freud para entender a psique humana e que a palavra “cronômetro” e suas variantes vêm do nome do deus do tempo, o terrível Cronos. Outras descobertas interessantes continuam ao longo do trabalho.

O reconto ajudou os alunos a se apropriarem dessas histórias levando todos a reconhecerem esses personagens em situações vividas no dia-a-dia. Essa prática de produção oral e escrita, coletiva e individual, realizada por eles, reconfigura as histórias dentro de uma linguagem jovial e informal, própria de suas idades. Acabou por facilitar, também, o processo do trabalho de apresentações criativas onde a literatura estabelece um diálogo interessante entre artes plásticas e teatro. Além da palavra, muitas são as linguagens usadas na apresentação dos trabalhos (teatro de fantoches e de objetos, criação de histórias em quadrinhos, técnicas de colagem, modelagem com massinha e biscuits, etc.) e o desafio passa a ser com que cada grupo conte, à sua moda divertida e criativa, uma história do livro da qual ficou responsável para o restante da turma.

Neste trabalho não só passamos a conhecer o universo mitológico dos gregos como o principal ramo da origem do pensamento e da arte ocidental, mas nos divertimos muito com as artimanhas que Zeus usava para namorar as belas mulheres mortais, desvendamos e nos indignamos com os enigmas de Édipo, nos admiramos com as façanhas dos heróis trágicos, entre outros sorrisos e suspiros. O projeto continua no segundo semestre com as lendas indígenas brasileiras e os mitos africanos. O nosso próximo desafio é entender como a cultura brasileira está formada a fim de valorizar a nossa maior riqueza: nossa mestiçagem étnica e cultural.

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bibliografia:
Pouzadoux, Claude. Contos e lendas da mitologia grega. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.


19.9.09

O cavaleiro inexistente :: de Ítalo Calvino


"— Nós nem sabíamos que estávamos no mundo...
também a existir se aprende..."
(Bradamante :: persongem feminina do livro)


Esse livro de Ítalo Calvino conta as aventuras e desventuras de um cavaleiro de Carlos Magno que de tão perfeito e nobre, não existe. Ou não, existe por uma vontade que ultrapassa o estado físico da matéria, aquilo que compõe os corpos de todos nós, podres mortais. Uns dizem que a obra é um romance, outros que é uma fábula, mas isso pouco importa, o interessante é se deliciar com toda a trama de uma história fantástica que nos surpreende ao final do livro com as revelações que são feitas aos leitores.

Nesta obra o romance de cavalaria é contado às avessas, assim como Don Quijote de La Mancha. Ítalo Calvino nos faz rir, sonhar, nos deixa intrigados com acontecimentos e nos provoca emoções em cada capítulo do livro, principalmente depois da metade da leitura. Sua habilidade de construir um enredo que foge a toda e qualquer forma convencional, onde consegue transformar tudo em alegoria de uma forma interessante e humorística, nos faz rir de situações consideradas sérias: a burocracia do Estado, as relações de poder, as relações de amizade, o respeito absoluto por um soberano, as mazelas do amor e a magia de se sentir e estar de fato vivo nesse afã humano demasiadamente humano que nos condiciona sensações de fome, frio e dores, seja por ferimentos físicos ou por amor.

O protagonista é Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, o cavaleiro inexistente da corte de Carlos Magno. Ele serve com fé a causa da Cristandade de forma cega e rígida, cumpre todas as regras burocráticas do regimento à risca, é um cavaleiro muito competente nas batalhas, sua armadura alva e pura está sempre impecável, é um exemplo de cavaleiro levado à potência do absolutamente correto. Ao mesmo tempo ele sente pelos homens uma mistura de ressentimento, admiração e desdém por sua condição de seres humanos contraditórios, ineficientes e imperfeitos em matéria e espírito. Ao redor dele circulam vários personagens que os considero também protagonistas: Rambaldo, um jovem soldado que quer vingar a morte de seu pai e sonha em ser cavaleiro; Bradamante, uma mulher guerreira, a única amazonas do exército de Carlos Magno; Torrismundo, um rapaz que não vê sentido real naquele regimento militar e parte em busca de sua história que está vinculada aos cavaleiros do Santo Graal; e Gurdulu, o ser mais interessante de todo o livro, um mendigo que por ironia do destino se torna o escudeiro de Agilulfo, um ser inocente que está aberto a todos os estímulos positivos que encontra pelo caminho, às vezes se comporta como homem, outras como animal e até se confunde e pensa com um ser inanimado, um simples componente da paisagem.

A trama parte da questão que se coloca em um banquete sobre a autenticidade do título de Cavaleiro concedida a Agilulfo, o cavaleiro inexistente, e também de sua nobre reputação. Ítalo Calvino nos proporciona um mergulho nos tempos heróicos da cavalaria medieval, de forma burlesca e ao mesmo tempo crítica. Utiliza como narrador uma freira confinada no convento, cuja penitência é justamente escrever a história desse cavaleiro 'sui generis'. É ela, a freira, quem nos leva a um desfecho da narrativa surpreendente.
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A partir desse livro estou conseguindo trabalhar com meus alunos de 12 e 13 anos da Escola da Serra todos os elementos de uma narrativa: construção dos personagens, o papel do narrador, o espaço e o tempo ficcional, a trama e o clímax da história, linguagem da narração e metalinguagem, além de levá-los a uma leitura mais subjetiva estabelecendo um diálogo entre literatura e vida.

Vale a pena ler essa obra assim como os outros títulos da trilogia: O visconde partido ao meio e O barão das árvores.






bibliografia:
CALVINO,Ítalo. O cavaleiro inexistente. Companhia das Letras: São Paulo, 2004.

5.9.09

"Terra Sonambula" :: um romance de Mia Couto

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Estou finalizando o estudo do livro Terra Sonâmbula de Mia Couto com alunos do 3º ciclo da Escola da Serra (adolescentes de 13/14 anos). Este escritor moçambicano, já é bem conhecido aqui pelos lados de Belo Horizonte, pois diversas vezes recebemos sua visita na UFMG e muitas foram as palestras que ele nos presenteou para falar de literatura em língua portuguesa e de seu país Moçambique.

Terra Sonâmbula
tem como contexto histórico a guerra da independência do país que durou cerca de 16 anos. Com seu término em 1975 os moçambicanos herdam uma terra em estado de luto, deflorada pelas ganâncias do poder capitalista, voltada para o desafio de reconstruir sua nação e resgatar suas tradições em processo de esquecimento por causa do terror da guerra que desumaniza qualquer povo nestas circunstâncias.

Mia Couto cria um cenário que mescla sonho e realidade, o pesadelo da guerra é o personagem principal. A busca pelo resgate da humanidade perdida dentro da alma dos cidadãos moçambicanos é o que comove leitores e nos aproxima de sua história. Faz parte da estética literária de Mia Couto, nesta e em outras de suas obras, a recriação de uma dimensão mágica e mítica das tradições africanas – que são tantas quantas não se pode contar – em busca de uma identidade que unisse as diversas etnias nessa terra existentes e que passaram a fazer parte dos limites de fronteiras impostos pelos colonizadores. Seus personagens, todos vagueiam por uma terra destruída pelo colonialismo brutal e pela luta de sobrevivência, compartilham o desespero mais pungente e uma esperança pela paz que se não se entrega à morte.

Sua linguagem é trabalhada a partir da oralidade das línguas africanas desse país reunidas em vocábulos e expressões próprias desses povos como recurso estilístico de criação de uma língua portuguesa moçambicana, que seja legítima a eles e por eles apropriada. Subverte as regras da gramática portuguesa e re-inventa um língua que a aproxima das identidades dos povos que ali vivem. A partir desse jogo lingüístico enriquece o português e o consagra como uma língua incorporada ao povo moçambicano. De muitos idiomas Terra Sonâmbula é constituída. Em uma entrevista o escritor afirma: “O encontro entre a oralidade e a escrita é uma das pontes que nos faltam para encontrar neste mundo o nosso mundo”.

E o resultado é poesia! Mia Couto canta as vozes dos silenciados pela guerra e massacre, pela fome e desnutrição, pelo abandono e exploração. Essas vozes trazem as histórias míticas da formação de povos, trazem a alma das tradições africanas que foram por milênios, solapadas, estupradas, deturpadas e amordaçadas.

Sem dúvida, Terra Sonâmbula é um romance que nos aproxima — nós, brasileiros — da realidade moçambicana, ainda que sejamos diferentes em contextos históricos, compartilhamos de uma irmandade mística mais negra que branca, uma irmandade de identidade mestiça, por isso universal.
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bibliografia:
COUTO, Mia. Terra Sonâmbula. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995.
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11.8.09

blog :: AQUECIMENTO GLOBAL

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trabalho em uma escola que tem um perfil pedagógico diferenciado. lá os alunos são incentivados a construírem seu próprio conhecimento. nós, professores, não levamos nada pronto para sala de aula. nada de decoreba ou empurrar informações goela abaixo nos alunos. planejamos nossas aulas à base de projetos e atividades variadas que contemplem várias habilidades cognitivas, físicas, psicossociais e emocionais . o estimulo à leitura, pesquisa, jogos e trabalhos em grupo ajudam a fortalecer o respeito uns pelos outros e a capacidade dos alunos de escutar o colega. além disso desenvolve a oralidade e a escrita, competências importantes para que os alunos se expressem com desenvoltura, ética, criatividade e coerência sobre os variados assuntos discutidos em sala de aula. o senso crítico, a autonomia e a capacidade de assumir suas próprias responsabilidades também são nossas metas. e isso tudo contribui para ajudar esses estudantes a se tornarem auto-didatas, pessoas que independem do espaço escolar para a formalização de seus conhecimentos.

há um projeto em especial que reúne todas essas competências acima citadas. chama-se "projeto de livre escolha".

nele os alunos escolhem um assunto de seu interesse, algo que desperte a curiosidade deles em conhecer mais sobre algum tema específico — é imprescindível que esse tema tenha base científica. em seguida, eles definem se querem realizar o trabalho de pesquisa sozinhos ou em pequenos grupos. a partir disso, montam sob a orientação do professor responsável um projeto de pesquisa e investigam toda a bibliografia disponível na biblioteca da escola. neste processo é muito importante o acompanhamento da família, pois os parentes sempre ajudam muito para o enriquecimento da pesquisa oferecendo outros materiais e fontes de consulta. o trabalho escrito deve obedecer a alguns critérios de formalidade exigidos pelo professor: capa com título da pesquisa e nome dos pesquisadores, conteúdo bem desenvolvido e que atenda aos objetivos do projeto inicial, ilustração, conclusão que deve ser escrita com as próprias palavras dos alunos sobre o que aprenderam e fonte bibliográfica. depois disso, os pesquisadores pensam em organizar a apresentação de seu trabalho aos outros colegas de sala: cartazes, data show, exposição de objetos, experiências científicas, performances, videos, etc. são alguns dos recursos usados nesta hora.

o que eu posso falar é que o resultado sempre me surprende muito.

em especial, este ano, uma dupla de pequenas pesquisadoras de 09 e 10 anos, alunas minhas, tiveram a iniciativa de construirem um blog para expor a pesquisa do "projeto de livre escolha" que fizeram. foi uma surpresa quando cheguei em casa hoje e vi uma mensagem de uma delas me anunciando sobre o blog. o tema que elas investigaram foi "o aquecimento global". fizeram uma pesquisa profunda sobre esse assunto que está ultimamente sendo uma das grandes preocupações no mundo todo. essas duas pequetitas engajadas falam sobre o efeito estufa, o protocolo de kioto, o desequilíbrio do clima no planeta e as consequências que todos os seres vivos irão sofrer se algo não for feito pelo ser humano para corrigir esse grave problema que causamos.

é isso, o assunto do meio ambiente é tão sério que virou preocupação de criança!
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visitem o espaço delas,

essas duas gatinhas merecem muitos parabéns pela iniciativa e todo o encorajamento para que continuem esse trabalho bonito de encher os olhos e movimentar pensamentos.

é só por causa dessas surpresas que eu consigo continuar a acreditar na humanidade.

Luana e Hannah, vocês duas são incríveis!
um bj carinhoso da paty (é como os meus pequenos da escola da serra me chamam :)

10.7.09

Bloguesfera: um estímulo às produções textuais

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Aprender a escrever não é apenas uma forma de encontrar idéias e concatená-las. Os alunos do 3º ciclo da Escola da Serra descobriram que escrever textos criativos e/ou críticos ultrapassa, e muito, os limites das idéias criativas, do saber expressar-se se valendo da linguagem verbal, de seus códigos formais e informais, de sua meta-linguagem, de expor de forma organizada seu ponto-de-vista e da simples capacidade de contar narrativas fictícias ou reais ou mesclar as duas ao mesmo tempo.

Mais do que tudo isso, é preciso encontrar na escrita uma forma prazerosa de criação, uma forma interessante de dizer o que se pensa através de variados gêneros textuais.

E para encontrar o prazer na escrita é preciso também estabelecer interlocutores, ou seja, para quem se escreve (?). Um professor, por mais que esteja preocupado em desenvolver a arte da escrita entre seus alunos, não é o interlocutor “ideal” que estimule esse potencial criativo entre os adolescentes. Eles precisam ser lidos por outras pessoas que comentem e questionem o que escreveram, que concordem ou discordem com eles e que indiquem outros textos que dialoguem com aqueles. Enfim, que haja uma comunicação!


Escrever contos, crônicas e resenhas foi o desafio proposto para as turmas 3A2 e 3B da Escola da Serra (alunos entre 12 a 14 anos). Se esses textos fossem parar nas pastas dos alunos depois de passar pela correção da professora de português, perderiam a sua razão de serem escritos, perderiam a sua função social que é a comunicação. Um projeto literário está sendo desenvolvido com essas turmas a fim de extravasar os limites da sala de aula. Os alunos se empenham em melhorar suas produções textuais, escrevem e re-escrevem, escutam as opiniões de colegas e procuram ter atenção à forma e ao conteúdo de suas produções, pois a possibilidade de outras pessoas lerem e avaliarem seus textos se tornou concreta.

Tudo começou com a proposta do blog. Quanta polêmica isso resultou! Escolheram o nome fantasia, dividiram-se funções, e ampliaram-se as possibilidades de produções. Um conselho editorial foi escolhido por todos a partir do voto aberto. Esses alunos eleitos são responsáveis por: correção ortográfica, formatação, edição e ilustração (se for o caso) dos textos no blog. Quais os textos que são editados? Aqueles que se destacam dentre as produções dos alunos em sala, os que atingiram não só o objetivo da proposta de produção como jogaram com as várias possibilidades lingüísticas de forma criativa, interessante e, ao mesmo tempo, estabelecendo um diálogo com suas próprias vivências. As produções circulam entre as individuais e coletivas, entre as criativas e as críticas.


Os blogues “E por falar em pândega...” e “Primeira impressão” já estão ativos e gradualmente serão recheados de produções dos próprios alunos. Por lá já pode ser encontrado resenha de filme e de livros literários (todos trabalhados em sala), crônicas e contos.

O que falta agora? Os interlocutores citados acima.

Fica aqui o nosso convite. Visitem os blogs, deixem seus comentários (que serão moderados por mim, a professora responsável) e ajudem a estimular a arte da escrita de nossos, quem sabe, futuros escritores.


“O leitor, em princípio, é aquela pessoa que espera de nós um pouco de felicidade, de surpresa, de inteligência, e o nosso papel, como aprendizes de escritores, é corresponder a essa expectativa”. (turmas 3B e 3A2)

27.5.09

a flor mais grande do mundo :: animação a partir de um conto de saramago

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como uma pequena ação faz a MAIS GRANDE diferença!


A flor mais grande do mundo é inspirada na pintura barroca de velazquez a partir de um relato de oscar wilde. uma produção que associa três nomes da indústria cultural: na trilha sonora, emilio aragón; juan pablo etcheverry como diretor, um expert em animação e também o autor de Minotauromaquia (animação inspirada no mito de minotauro e nas obras de pablo picasso, com música de stravinsky); e por último josé saramago, o autor do conto original infantil. é ele o narrador-personagem do curta-metragem. A flor mais grande do mundo concorreu a vários festivais nacionais e internacionais.

extremamente simples como o pensamento infantil, a animação trata de forma delicada a questão ecológica que anda em pauta nas grandes discussões sobre o desenvolvimento sustentável. a partir dela dá para trabalhar várias habilidades criativas e formas de expressividade com crianças, jovens e adultos: desde a criação literária (contos e poemas) a partir da provocação que faz o próprio autor do conto que narra a história, até as outras artes como desenho, pintura, música, representação cênica. dá também para estimular uma reflexão sobre a responsabilidade que deveríamos ter em relação ao consumismo exacerbado, ao crescimento urbano desenfreado e ainda sobre o nosso papel enquanto transformadores dessa realidade instaurada pelos meios de produção e pelo capitalismo selvagem.

veja o curta-metragem no site oficial



e aproveite para conferir também a outra animação do diretor juan pablo etcheverry,


há outros muitos curtas-metragens no mesmo site, para o público adulto e infantil


eu já me deliciei.

17.5.09

espetáculo :: Yepá, avó do Mundo

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na última terça-feira fui levar meus alunos de 08 a 10 anos da escola da serra para ver a um espetáculo no teatro marília. já tinha algum conhecimento prévio sobre a temática e algumas referências de que era uma peça interessante e muito bem feita. mas, de longe, não esperava um espetáculo tão bonito de ver com os olhos, escutar com os ouvidos e sentir com o coração. todos os meus sentidos ficaram aguçados para não perder nada daquilo, que desde o início, enlaçou a atenção não só minha, mas da maioria das crianças do teatro que ali assistiam. e olha que não eram poucas, dentre os 38 alunos de minhas turmas, havia mais ou menos ali umas 120 crianças somadas, de 01 a 12 anos, todas hiperativas por estarem fora do ambiente escolar de costume. excursão sempre mobiliza a escola inteira e as crianças ficam como que ligadas a uma potência 220 v. mas na hora da peça, quando começou o espetáculo, a maioria se fez silente para degustar cada pedacinho daquele universo mágico.


três atrizes surgem no fundo do teatro, de forma inesperada, e cantam lindamente ao descerem as escadas laterais da platéia ao toque de seus tambores. uma surpresa para todos, pois os olhares estavam voltados para o palco e o início começava em um lugar inusitado para as crianças que agitadas buscavam de onde vinham as vozes de encantamento que entoavam esse canto. as carinhas que eu observava iam se acendendo uma a uma e os sorrisos iam brotando como pipoca quando encontravam enfim a pintura em movimento das moças. ao chegar no palco, as três Marias contam a sua história.


um dia, quando se sentiam muito sozinhas e com saudades de sua infância, as três Marias foram fuçar em um baú de histórias que pertencia a sua avó, transladada em estrela já fazia algum tempo. de lá tiraram várias que contavam peripécias de heróis vencendo perigos e conquistando amores, histórias de terror, de assombração e de muitos medos, histórias de amizade sincera que dura a vida inteira. mas não encontraram nenhuma que pudesse acalmar seus corações que sofriam de uma angústia que não tinha explicação. foi ai que resolveram construir uma avó para lhes contar uma história. juntaram barro, sementes, lembranças de suas avós e mais as lembranças das avós de boa parte das crianças da platéia. essa foi a hora "happening" e todos queriam compartilhar o carinho que cada um sentia de sua avó, todos queriam contribuir na construção daquela história. no palco novamente, as três Marias modelaram Yepá, avó do Mundo. e fez-se a mágica. surgiu a avó mais velha, a primeira avó do mundo! a história que Yepá conta para as três Marias é uma lenda indígena, ‘O nascimento da noite’. ela, a avó do mundo, é a personagem principal e se torna o centro do espetáculo onde cada aparição sua é um novo deslumbramento: nasce gigantesca, diminui de tamanho, vira luz, vira sombra, e por fim volta ao pó da terra e às lembranças de quem ali a história experenciava.



os recursos cênicos dessa peça foram de uma simplicidade que me surpreendeu, pois os efeitos tiveram resultados muito interessantes e até requintados do ponto de vista da estética teatral. bonecos de vários tamanhos e materiais foram criando vida no palco e assumindo seus papéis na peça. lençóis, panos e colheres de pau foram tomando formas de personagens e cenário a fim de compor os episódios da história. o jogo de luzes potencializou o clima mágico e o teatro de sombra foi trabalhado de uma forma muito orgânica em toda a peça, recriando o universo nebuloso das lendas, da fantasia e das histórias encantadas. a poesia estava em toda parte: na linguagem verbal do texto, na sonoplastia musical, nas imagens produzidas em cena, nos corpos e gestos delicados e precisos das atrizes, nas pedrinhas batendo na lata pra fazer o som de água, nas pinturas rupestres do vestido de Yepá, nas mantas bordadas que compunham o cenário, nas luzes, na escuridão, nas carinhas das crianças que assistiam assombradas e maravilhadas ao mesmo tempo.


a mensagem da peça é de difícil verbalização. em cada pessoa que assiste ela acontece de forma diferente, a partir de cada experiência vivida e sofrida. sabemos onde ela nos toca: no profundo oculto de nossa herança cultural humana, lugar que entendemos hoje como memória coletiva guardada no coração de cada indivíduo. nos tempos primórdios da nossa espécie [divago eu em meio a desvarios] a escola era a própria natureza que existia ao nosso redor e dentro de nós mesmos. o professor era um indivíduo da comunidade, aquele que conhecia mais sobre a vida, contava suas experiências com sabedoria, mantinha um contato místico com seus ancestrais, cultivava a tradição e a identidade cultural de seu povo e narrava histórias maravilhosas que foram surgindo sei lá de onde: talvez da curiosidade do ser humano em descortinar segredos, ou do desejo de explicar onde e como as coisas surgiram, quem sabe nasceu da magia do próprio intelecto humano se descobrindo, ou ainda da vontade de expandir o que se vê, escuta e sente. as lições de casa era a aplicação de todos esses ensinamentos na vida prática, no cotidiano, entre deveres cumpridos e diversões permanentes. o recreio era o tempo todo, quando se trabalhava, quando se aprendia, quando se brincava, até quando se dormia e sonhava com esse universo oculto que recheava de mistério a beleza de se estar vivo, mesmo em meio a tantos perigos e luta constante pela sobrevivência. essa peça dá uma saudade da minha vó Ana, das histórias que me contava da bahia e também de tudo o que eu nunca vi: essa bagagem cultural de milênios, que carrego em memória dentro de mim!


o grupo Aldeia, teatro de bonecos faz uma pesquisa profunda sobre os mitos e lendas do nosso folclore. busca nas raízes de nossa cultura oral os elementos mágicos para construír suas obras. iniciou contando histórias em várias cidades da região de Terras Altas da Serra, visitando escolas, bibliotecas e também distribuindo livros. o grupo já gravou um cd onde narra quatro lendas indígenas. a continuidade desse projeto intitulado Laços e Lendas segue com o espetáculo Yepá, avó do Mundo.

muitos são os profissionais que trabalham nessa obra: 
no elenco: ana cristina fernandes, débora mazochi e suzana louzada.
direção: débora mazochi e bruno godinho
idéia original: débora mazochi e suzana louzada
texto teatral e adaptação da lenda: débora mazochi e silvino fernandes.
cenário e adereços: ana cristina fernandes e suzana louzada

entre outros muitos.


visite o site oficial do grupo e descubra outras de suas pesquisas e façanhas que combinam arte e vida: 


essa peça, classificada como infantil, serve para qualquer idade. desde o primeiro ano de vida até os milênios que já somam a humanidade.

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depois de tantos devaneios, concluo o texto com um poema de oswald de andrade:

"aprendi com meu filho de dez anos
 que a poesia
 é a descoberta das coisas que eu nunca vi."


evoé!

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24.4.09

blog :: e por falar em pândega...


essa pândega é uma turma de alunos arrojados e hiperativos que povoa a Escola da Serra. grupo de adolescentes geniais, eles sabem a importância do pensamento crítico frente a tudo o que ocorre ao seu entorno. conhecem também a hora e o lugar da critavidade: sempre e em toda parte. há algum tempo estamos planejando montar esse blog. quanta polêmica resultou essa minha proposta! mas deu certo. eu como professora de português e literatura da turma estou impressionada com a desenvoltura dessa pândega nas produções escritas tanto de teor criativo quanto de teor crítico. é nesse blog E por falar em pândega... que apresentaremos essas produções. quem quiser e puder acompanhar irá encontrar de tudo um pouco: notícias, resenhas de muita coisa que a pandegagem assistir nos palcos e telas da cidade, discussões sobre obras literárias, cinematográficas, música e artes plásticas. tudo isso através de textos desenvolvidos em sala de aula, além de poemas, crônicas, contos, citações e outras coisas interessantes que a turma julgar que seja importante dizer ou gritar. agora como colaboradora do blog, confio no exercício da escrita como algo a ser ininterruptamente construido, a cada texto podemos aprimorar mais e mais essa arte de trabalhar a palavra e até brincar com ela. sinto-me orgulhosa da turma e confio no potencial criativo e auto-crítico que eles vem construindo e amadurecendo ao longo de suas histórias individuais e também coletiva como estudantes da Escola da Serra.

E por falar em pândega...

fica aqui a minha dica.

1.10.08

como aprender a pensar?

a maior habilidade humana que possuímos é a nossa incrível capacidade de aprender, de pensar, de refletir sobre o que nos é apresentado como conhecimento, de nos aperfeiçoar, de encontrar soluções para variados problemas nas condições mais diversas. a família e a escola são, sem dúvida, as principais responsáveis nessa tarefa de desenvolver a notável capacidade de pensar nas nossas crianças desde a mais tenra idade e devem estar aliadas nessa busca de levá-las pelos caminhos de conhecer o que o ser humano já produziu enquanto conhecimento e o que ele ainda pode produzir, enquanto novidades. mas a pergunta incômoda é: como fazer?

a criança chega ao mundo e já começa a aprender com ele. os conhecimentos que ela vai assimilando, progressivamente vão sendo colocados em prática, em um constante teste para ver como tudo funciona e se realmente funciona. esse mundo é infinitamente desconhecido para a criança, assim como a criança é um ser desconhecido para o mundo. é nesse choque entre o antigo e o novo, entre a tradição e a sua renovação, entre a revelação do mundo e a criança, que acontece a descoberta do saber. com o conhecimento progressivo do mundo que a rodeia, a criança vai desenvolvendo e descobrindo a sua própria maneira de pensar esse mundo, ao mesmo tempo em que começa a conhecer a si mesma.

estamos todo o tempo lidando com novos conhecimentos por diversos meios tecnológicos e midiáticos, mas serão somente esses novos conhecimentos os que melhor dialogam com a juventude? as chamadas “velhas tradições” (contação de histórias, fábulas, mitologias, lendas, cantigas, história da filosofia, etc.) que ensinaram os homens e as mulheres mais notáveis de nossa história não deveriam ter um lugar privilegiado na aprendizagem de nossas crianças? o contato com a arte – seja ela da antigüidade clássica, da era moderna ou pós-moderna – não ajudaria as crianças a serem introduzidas no complexo sistema de nossa sociedade de maneira mais prazerosa (e isso não descarta o incômodo que a arte também nos provoca) e significativa? ao se refletir sobre o extenso passado da humanidade, não se compreenderia melhor o nosso presente e possibilitaria a construção de um futuro com pessoas mais conscientes de seus papéis políticos no mundo?

a história da humanidade é tão rica em culturas e descobertas científicas que pensar em estudar o mundo sob o prisma de sua tradição pode ser uma resposta. não se trata aqui de conhecimentos “conteudistas”, onde a criança assimila informações e as reproduz tal qual como as aprendeu. definitivamente não! trata-se de ensinar as nossas crianças a refletirem sobre a sua própria história, que é a história de toda a humanidade.

15.1.08

entrevista sobre literatura e ensino no overmundo



o site overmundo recebe a colaboração do poeta, agora como entrevistador, leo gonçalves em uma matéria que fala de temas diretamente ligados à importância do ensino de literatura nas escolas como também da necessidade de formar leitores e suas potencialidades no campo de escritas criativas. a entrevistada fui eu, onde falei de minhas experiências de sala de aula e reflexões sobre elas.

para dar uma olhada, é só clicar nesse link:

www.overmundo.com.br/entrevista

entrem, votem, comentem. e participem também do overmundo.

28.12.07

Jejuo também por democracia real


Por Dom Luiz Flávio Cappio - de Sobradinho, BA


(no calor das discussões que venho acompanhando, ainda sem conseguir fundamentar uma opinião sólida sobre o assunto da transposição do rio são francisco, este texto me levou a organizar melhor meus pensamentos, levantando questões relevantes sobre democracia, direito, ética, consciência política, (des)educação, equilíbrio ambiental, etc. questões que tem que fazer parte das nossas discussões diárias junto a uma mobilização de opinião pública, exigindo do governo uma participação do povo na tomada das decisões que afetam os nossos recursos naturais e humanos).

Acusam-me de inimigo da democracia por estar em jejum e oração combatendo um projeto do governo federal autoritário, falacioso e retrógrado, que é o da transposição de águas do rio São Francisco.

Meu gesto não é imposição voluntarista de um indivíduo. Fosse isso, não teria os apoios numerosos, diversificados e crescentes que tem tido de representantes de amplos setores da sociedade, inclusive do próprio PT.

Vivêssemos uma democracia republicana, real e substantiva, não teria que fazer o que estou fazendo.

Um dos mais graves males da "democracia" no Brasil é achar que o mandato dado pelas urnas confere um poder ilimitado, aval para um total descompromisso com o discurso de campanha, senha para o vale-tudo, para mais poder e muito mais riquezas. Tráficos de influências, desvios do erário, porcentagens em obras públicas e mensalões são práticas tradicionais na política brasileira, infelizmente, pelo visto, ainda longe de acabar. A sociedade está enojada e precisa se levantar.

Há políticos – e, infelizmente, não são poucos – que, por onde passaram na vida pública, deixaram um rastro de desmandos, corrupção, enriquecimento ilícito etc. Como ainda funcionam o clientelismo eleitoral, a mitificação de personagens, as falsas promessas de campanha, o "toma-lá-dá-cá" e mais deseducação que educação política do povo, esses políticos conseguem se reeleger e galgar posições de alto poder em governos, quaisquer que sejam as siglas e as alianças.

Na campanha do candidato Lula, o tema crucial da transposição era evitado o máximo possível. Mas as campanhas eleitorais, à base do marketing e das verbas de "caixa dois" das empresas, são tidas e havidas como grandes manifestações do vigor de nossa democracia, que, com urnas eletrônicas, dá exemplo até aos EUA...

O projeto de transposição não é democrático, porque não democratiza o acesso à água para as pessoas que passam sede na região semi-árida, distante ou perto do rio São Francisco.

O governo mente quando diz que vai levar água para 12 milhões de sedentos.

É um projeto que pretende usar dinheiro público para favorecer empreiteiras, privatizar e concentrar nas mãos dos poucos de sempre as águas do Nordeste, dos grandes açudes, somadas às do rio São Francisco.

A transposição não tem nada a ver com a seca. Tanto que os canais do eixo norte, por onde correriam 71% dos volumes transpostos, passariam longe dos sertões menos chuvosos e das áreas de mais elevado risco hídrico.

E 87% dessas águas seriam para atividades econômicas altamente consumidoras de água, como a fruticultura irrigada, a criação de camarão e a siderurgia, voltadas para a exportação e com seríssimos impactos ambientais e sociais.

Esses números são dos EIAs-Rima (Estudos de Impacto Ambiental/Relató rio de Impacto sobre o Meio Ambiente), públicos por lei, já que, na internet, o governo só colocou peças publicitárias.

O projeto de transposição é ilegal e vem sendo conduzido de forma arbitrária e autoritária: os estudos de impacto são incompletos, o processo de licenciamento ambiental foi viciado, áreas indígenas são afetadas e o Congresso Nacional não foi consultado como prevê a Constituição.

Há 14 ações que comprovam ilegalidades e irregularidades ainda não julgadas pelo Supremo Tribunal Federal. Mas o governo colocou o Exército para as obras iniciais, abusando do papel das Forças Armadas, militarizando a região.

A decisão do TRF (Tribunal Regional Federal) da 1ª Região, de Brasília, em 10/12 deste ano, obrigando a suspensão das obras, é mais uma evidência disso.

O mais revoltante, porque chega a ser cruel, é que o governo insiste em chantagear a opinião pública, em especial a dos Estados pretensos beneficiários, com promessas de água farta e fácil, escondendo quem são os verdadeiros destinatários, os detalhes do funcionamento, os custos e os mecanismos de cobrança pelos quais os pequenos usos subsidiariam os grandes, como já acontece com a energia elétrica.

Os destinos da transposição os EIAs/Rima esclarecem: 70% para irrigação, 26% para uso industrial, 4% para população difusa.

Temos um projeto muito maior. Queremos água para 44 milhões de pessoas no semi-árido. Para nove Estados, não apenas quatro. Para 1.356 municípios, não apenas 397. Tudo pela metade do preço previsto no PAC para a transposição.

O Atlas Nordeste da Agência Nacional de Águas (ANA) e as iniciativas da Articulação do Semi-Árido (ASA) são muito mais abrangentes, têm prioridade no abastecimento humano e utilizam as águas abundantes e suficientes do semi-árido.

Fui chamado de fundamentalista e inimigo da democracia porque provoquei que o povo se levantasse e, disso, os "democratas" que me acusam têm medo.

Por que não se assume a verdade sobre o projeto e se discute qual a melhor obra, qual o caminho do verdadeiro desenvolvimento do semi-árido? É nisso que consiste a nossa luta e a verdadeira democracia.

Dom Luiz Flávio Cappio, é bispo diocesano da cidade de Barra (BA) e autor do livro Rio São Francisco, uma Caminhada entre Vida e Morte