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23.6.10

lamento de ariadna :: Friedrich Nietzsche

*
Quem me aquece, quem me ama ainda?
Dê a mim mãos ardentes!
Dê a mim um braseiro para o coração!
Estendida na terra, estremecendo-me,
como uma meio morta a quem se aquece os pés,
agitada, ai, por febres desconhecidas,
tremendo perante glaciais flechas agudas de arrepios,
caçada por você, pensamento!
Inominável! Escondido! Aterrador!
Você caçador entre as nuvens!
Fulminada na terra por você,
Olho sarcástico que me olha desde o escuro!
Assim estou jacente
dobrada, retorcida, atormentada
por todos os martírios eternos,
ferida,
por você, o mais cruel caçador,
seu desconhecido, deus…

Fira mais fundo!
Fira de novo!
Corte, recorte este coração!
Para que vem este martírio
com flechas de dentes redondos?
O que olha outra vez
sem se cansar do tormento humano
com malévolos olhos de raios divinos?
Não quer você matar,
somente martirizar, martirizar?
Para que martirizar a mim,
malévolo deus desconhecido?

Ah, ah!
Você se aproxima sinuoso
semelhante à meia-noite?...
O que quer?
Fale!
Aperte-me, oprima-me,
ah! já está muito próximo!
Ouça-me respirar,
espíe meu coração,
ciumento!
— mas, ciumento de que?
Fora, fora!
para que a escada?
você quer subir
penetrar, até o coração,
subir até meus mais
secretos pensamentos?
Devasso! Desconhecido! Ladrão!
O que quer levar roubando?
O que quer levar escutando?
O que quer levar atormentando?
você, atormentador!
você, deus carrasco!
Ou como um cão devo
esfregar-me contra o chão diante de você?
Submissa, admirada fora de mim
balançar o rabo por amor?
É inútil!
Fira-me outra vez,
aguilhão o mais cruel!
Não sou seu cão, só sua presa,
caçador o mais cruel!
sua mais orgulhosa prisioneira,
bandido detrás das nuvens…
Fale afinal!
Você, escondido com o raio! Desconhecido! fale!
O que quer, salteador, de mim?...

Como?
Um resgate?
O que quer de resgate?
Você pede muito, aconselha-o meu orgulho!
E fala pouco, aconselha-o meu orgulho!

Ah, ah!
sou eu quem você quer? Eu?
eu inteira?
Ah, ah!
E me martiriza? Louco que você é, louco!
Re-martirize meu orgulho?
Dê a mim o amor, quem me aquece ainda?
quem me ama ainda?
dê a mim mãos ardentes,
dê a mim um braseiro para o coração,
dê a mim, à mais solitária,
à que o gelo, ai! sete camadas de gelo
ensinam a somar inimigos,
dê, sim, entregue,
inimigo o mais cruel,
dê a mim, a você!

Acabou-se!
Então fugiu ele,
meu único companheiro,
meu grande inimigo
meu deus carrasco!...
Não!
volte!
Com todos os seus martírios!
Todo o curso de minhas lágrimas
escorre até você,
e a última chama de meu coração
para você re-acende.
Oh, volte,
meu deus desconhecido! minha dor!
Minha última felicidade!...

Um raio. Dionisio aparece com esmeraldina beleza.

Dionisio:

Seja sensata, Ariadna…
Tenha ouvidos pequenos, tenha meus ouvidos:
coloque neles uma palavra sensata!
Como odiar-se primeiro, se tem que amar-se?...
Eu sou o seu labirinto...

***

(tradução livre do espanhol de patrícia mc quade)

2.11.09

e assim falava Zaratustra!


*

"Eu lhes digo: é necessário possuir um caos dentro de si para dar à luz uma estrela brilhante".



NIETZSCHE, Freidrich. Assim Falava Zaratustra. SP: Hemus, nd, p. 13.

14.4.09

:: foucault, magritte, pessoa, nietzsche :: estados de espíritos fantásticos


“A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer
ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível”.
M. Foucault

(La Philosophie dans le Boudoir, René Magritte)


"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas,
que já tem a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia:
e, se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos."

Fernando Pessoa

***
depois de uma conversa rápida com a minha amiga luciana gonçalves, comecei a pensar em algumas aprendizagens que podemos tirar da realidade que sofremos e da ficção que vivemos. aqui então postei algumas conclusões emprestadas desses espíritos fantásticos que nos ajudam a ver como "a vida é!" a partir de uma ilusão de ótica, pois talvez não suportaríamos encarar a realidade em sua nudez e brilho ofuscante. talvez se assim fosse nós não conseguiríamos viver para contar essa experiência. assim aconteceu com a ousada sêmele (mãe de dionisio) que morre fulminada depois de ver zeus em sua forma real e esplendorosa de deus. a arte e os mitos nos ensinam muito. a realidade não deve ser encarada de frente, deve ser vista através de frestas, de espelhos ou reflexos, com toda a precaução necessária que devemos ter quando nos colocamos diante do perigo - ela é a fera que nos espreita. senão, podemos ser transformados em estátua de pedra :: a imobilidade, a falta de re-ação frente a tomada de decisões. a realidade é essa medusa que combatemos todos os dias de nossas vidas e que a ficção nos ajuda a suportá-la, quiçá vencê-la. para isso criamos personagens de nós mesmos, multidões deles. aqui está também um pouquinho de minhas leituras de nietzsche.

bjs lu :*

***

5.4.09

lamento de ariadna :: de Friedrich Nietzsche

**
Quem me aquece, quem me ama ainda?
Dê a mim mãos ardentes!
Dê a mim um braseiro para o coração!
Estendida na terra, estremecendo-me,
como uma meio morta a quem se aquece os pés,
agitada, ai, por febres desconhecidas,
tremendo perante glaciais flechas agudas de arrepios,
caçada por você, pensamento!
Inominável! Escondido! Aterrador!
Você caçador entre as nuvens!
Fulminada na terra por você,
Olho sarcástico que me olha desde o escuro!
Assim estou jacente
  dobrada, retorcida, atormentada
por todos os martírios eternos,
ferida,
por você, o mais cruel caçador,
seu desconhecido, deus…

Fira mais fundo!
Fira de novo!
Corte, recorte este coração!
Para que vem este martírio
com flechas de dentes redondos?
O que olha outra vez
sem se cansar do tormento humano
com malévolos olhos de raios divinos?
Não quer você matar,
somente martirizar, martirizar?
Para que martirizar a mim,
malévolo deus desconhecido?

Ah, ah!
Você se aproxima sinuoso
semelhante à meia-noite?...
O que quer?
Fale!
Aperte-me, oprima-me,
ah! já está muito próximo!
Ouça-me respirar,
espíe meu coração,
ciumento!
— mas, ciumento de que?
Fora, fora!
para que a escada?
você quer subir
penetrar, até o coração,
subir até meus mais
secretos pensamentos?
Devasso! Desconhecido! Ladrão!
O que quer levar roubando?
O que quer levar escutando?
O que quer levar atormentando?
você, atormentador!
você, deus carrasco!
Ou como um cão devo
esfregar-me contra o chão diante de você?
Submissa, admirada fora de mim
balançar o rabo por amor?
É inútil!
Fira-me outra vez,
aguilhão o mais cruel!
Não sou seu cão, só sua presa,
caçador o mais cruel!
sua mais orgulhosa prisioneira,
bandido detrás das nuvens…
Fale afinal!
Você, escondido com o raio! Desconhecido! fale!
O que quer, salteador, de mim?...

Como?
Um resgate?
O que quer de resgate?
Você pede muito, aconselha-o meu orgulho!
E fala pouco, aconselha-o meu orgulho!

Ah, ah!
sou eu quem você quer? Eu?
eu inteira?
Ah, ah!
E me martiriza? Louco que você é, louco!
Re-martirize meu orgulho?
Dê a mim o amor, quem me aquece ainda?
quem me ama ainda?
dê a mim mãos ardentes,
dê a mim um braseiro para o coração,
dê a mim, à mais solitária,
à que o gelo, ai! sete camadas de gelo
ensinam a somar inimigos,
dê, sim, entregue,
inimigo o mais cruel,
dê a mim, a você!

Acabou-se!
Então fugiu ele,
meu único companheiro,
meu grande inimigo
meu deus carrasco!...
Não!
volte!
Com todos os seus martírios!
Todo o curso de minhas lágrimas
escorre até você,
e a última chama de meu coração
para você re-acende.
Oh, volte,
meu deus desconhecido! minha dor!
Minha última felicidade!...

Um raio. Dionisio aparece com esmeraldina beleza.

Dionisio:

Seja sensata, Ariadna…
Tenha ouvidos pequenos, tenha meus ouvidos:
coloque neles uma palavra sensata!
Como odiar-se primeiro, se tem que amar-se?...
Eu sou o seu labirinto...

***

(tradução livre do espanhol de patrícia mc quade)

link do poema em espanhol e alemão para quem se interessar:

***

28.1.09

sobre filosofia e estética :: friedrich nietzsche


Medusa ,Michelangelo Merisi da Caravaggio, 1598

"apenas os artistas, especialmente os do teatro, dotaram os homens de olhos e ouvidos para ver e ouvir com algum prazer o que cada um é, o que cada um experimenta e o que quer; apenas eles nos ensinaram a estimar o herói escondido em todos os seres cotidianos, e também a arte de olhar a si mesmo como herói, à distância e como que simplificado e transfigurado - a arte de se 'por em cena' para si mesmo. somente assim podemos lidar com alguns vis detalhes em nós! sem tal arte, seríamos tão-só primeiro plano e viveríamos inteiramente sob o encanto da ótica que faz o mais próximo e o mais vulgar parecer imensamente grande, a realidade mesma."

"temos que aprender com os artistas, os que estão a rigor continuamente dedicados a realizar tais inventos e artifícios, a nos afastar das coisas até que tenhamos delas uma visão parcial, até que não as vejamos mais bem ou tenhamos que juntar muito delas para ainda vê-las, ou espreitá-las para vê-las como que em recorte, colocá-las de tal modo que se escondam parcialmente e só permitam ser vistas de relance, em perspectiva, ou contemplá-las através do vidro colorido ou à luz dos poentes, ou dar-lhes uma superfície e uma pele sem completa transparência. tudo isso temos de aprender com os artistas, e em todo o resto ser mais sábios do que eles. pois neles termina normalmente esta sua requintada faculdade: onde a arte acaba, começa a vida; nós, porém, queremos ser os poetas da nossa vida, e em primeiro lugar, das coisas mais pequenas e comuns."

***

esse nietzshe é um grande provocador mesmo. o que será essa arte de se ver a si mesmo e ao mundo através de filtros coloridos? o que seria essa forma de se por a si mesmo e às coisas em um plano geral através da arte? seria o de se ver como herói dos tempos das tragédias gregas? aquele édipo marcado por um destino funesto, aquela antígona fiel aos ritos sagrados e por força do sistema uma subversiva política, aquele prometeu que roubou o fogo sagrado de zeus para entregá-lo aos homens? alguém que venceu seus próprios medos e dominou sua força? que se identificou com o ritmo e o fluxo da vida como uma maneira de fazer frente ao sofrimento de sua existência? a arte é que nos ajuda a ver a nossa realidade violenta e cruel a partir de um reflexo, uma greta, um filtro! será a realidade tão dura assim que não suportaríamos encará-la de frente, olhando diretamente nos olhos? precisariamos de um espelho ou o reflexo do escudo de perseu para ver essa medusa, pois se a encaramos tal e qual é seremos transformados em estátua de pedra?

entre essas e outras questões transitam meus pensamentos e minhas leituras ultimamente: pela visão dionisíaca do mundo a partir das teorias de nietzshe. já li uns três livros dele sobre essa danada filosofia da estética para escrever a minha dissertação de mestrado em literatura e teatro - curso de letras. quem quiser me ajudar com pensamentos voadores, pontos de vistas obtusos, vivências particulares sobre a arte, estética, representação da realidade, deixem aqui seus comentários. aceito tb indicação bibliográfica. o meu objetivo é entender a visão de estética dele, o conceito de tragédia hoje e a relação do homem como ser em conflito e inerente a sua própria existência. procuro por interlocutores! =]

***

bibliografia citada:

NIETZSHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

4.1.09

prólogo 1 :: genealogia da moral :: friedrich nietzsche


nós, homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmos somos desconhecidos - e não sem motivo. nunca nos procuramos: como poderia acontecer que um dia nos encontrássemos? com razão alguém disse: "onde estiver teu tesouro, estará também teu coração". nosso tesouro está onde estão as colméias do nosso conhecimento. estamos sempre a caminho delas, sendo por natureza criaturas aladas e coletoras do mel do espírito, tendo no coração apenas um propósito - levar algo "para casa". quanto ao mais da vida, as chamadas "vivências", qual de nós pode levá-las a sério? ou ter tempo para elas? nas experiências presentes, receio, estamos sempre "ausentes": nelas não temos nosso coração - para elas não temos ouvidos. antes, como alguém divinamente disperso e imerso em si, a quem os sinos acabam de estrondear no ouvido as doze batidas do meio-dia, e súbito acorda e se pergunta "o que foi que soou?", também "quem somos realmente?", e em seguida contamos, depois, como disse, as doze vibrantes batidas da nossa vivência, da nossa vida, nosso ser - ah! e contamos errado... pois continuamos necessariamente estranhos a nós mesmos, não nos compreendemos, temos que nos mal-entender, a nós se aplicará para sempre a frase: "cada qual é o mais distante de si mesmo" - para nós mesmos somos "homens do desconhecimento"...


***

somente uma provocação ao pensamento ontológico de nietzsche que nos suscita, quer se queira ou não, o desejo de nos desvendar. quem sou eu? quem somos nós? de onde vêm esses valores morais que apreendemos socialmente e que acreditamos ser nossos? para que serve a moral? como ela acontece? a moral é uma característica inata do ser humano? você saberia se responder? 

***

primeira leitura filosófica intensa do ano:

NIETZSCHE, Friedrich. genealogia da moral, uma polêmica. São Paulo: companhia da Letras, 2007.