18.10.08

video poema




poema passageiro de angélica freitas
que está participando da amostra sesc artes 2008.

6.10.08

canção do carcereiro, de jacques prévert

onde vai você meu carcereiro
com essa chave manchada de sangue
vou libertar aquela que eu amo
se é que ainda tenho tempo
e que eu mesmo aprisionei
ternamente cruelmente
no mais escondido do meu desejo
no mais profundo do meu tormento
nas mentiras do futuro
nas bobagens das minhas juras
eu quero libertá-la
quero que ela seja livre
e mesmo que ela me esqueça
e mesmo que ela se vá
e mesmo que ela volte
e que ainda me ame
ou que ame um outro
se um outro lhe agrada
e se eu ficar na solidão
e ela tiver ido embora
eu guardarei apenas
eu guardarei pra sempre
no côncavo das minhas duas mãos
até a minha última hora
a doçura dos seus seios modelados pelo amor

(tradução linda de leo gonçalves)

salamalandro

4.10.08

la maja vestida y la maja desnuda: goya

ninguém sabe afirmar com segurança quem foi a modelo e nem porque francisco goya fez dois quadros, la maja vestida e la maja desnuda. as opiniões se dividem em duas possíveis candidatas: a duquesa de Alba, María del Pilar Teresa Cayetana de Silva y Álvarez de Toledo (afff!), amiga mui íntima de goya, a quem retratou inúmeras vezes por encomenda, ou a amante de manuel godoy conhecida por Pepita Tudó.

godoy era um dos principais mecenas de goya, político importante que atuava junto à coroa espanhola, e quem, na opinião da amante, sentia um amor platônico pela rainha María Luísa de Parma que comandou a vida desse infeliz político como se maneja uma marionete condecorada de bufão.

as obras foram feitas entre 1790 e 1805 e conta-se que os quadros eram justapostos para impressionar a todos com o erotismo do pudico monte de vênus da modelo que se destaca em ambos os quadros - nota-se que as partes íntimas femeninas são mais evidentes no quadro da moça vestida do que naquele em que ela se encontra completamente nua.

estas obras viveram algumas peripécias antes de poderem ser contempladas no museu do prado em madrid: foram confiscadas em 1807 por Fernando VII, el deseado, rey da espanha (fazer o que com elas, nunca se soube!); e foram mais tarde raptadas pela inquisição e tachadas como "obsenas".

goya se livrou do inquérito por causa de estreitas relações com o cardeal luis maría de bourbon (uiiii!!!), e o quadro se livrou da fogueira. porém, ficou longe das vistas do público até início do séc. XX. tudo por causa da dita maldita sensualidade femenina que goya soube retratar com tanta destreza.


"à procura do Prazer sem interesse prático imediato é hoje o meu divertimento, é para mim uma necessidade vital.

francisco goya

2.10.08

"Candalia" :: grupo ALBATROZ


primeiro presente.
intervenção urbana

grupo albatroz em diálogo com os espaços da capital mineira

hoje, no final da labuta, fui informada através de um convite sobre a performance do grupo albatroz que aconteceria na praça da estação.

chegamos às portas da estação e três moças de branco esperavam por alguém exatamente no momento que antecede à chegada do trem Vitória-Minas, às 19:30h, nesta quarta-feira.

a primeira, chama constantemente por um passarinho, caminha nas pontas dos pés com uma sombrinha aberta e uma gaiola vazia, parece quase não tocar o chão ao correr.

a segunda, com um saco de maçãs verde-esperança na mão, conversa com pessoas que esperam por parentes e amigos, fala frases em francês e se parece a um personagem em branco e preto, pertencente a uma outra época, a do cinema mudo.

a terceira, diz a todos que está esperando um homem muito branco de olhos verdes como duas maçãs e traz uma pequenina sombrinha aberta em uma das mãos para se proteger inevitavelmente de algo.

mais dois homens de viola acompanham as moças observando a tudo, mas, por enquanto, calados de música.

quando o trem chega os cinco se dirigem simetricamente ao portão de desembarque, caminham enquanto cantam uma longa, lenta e melancólica canção para receberem os seus esperados.

os passageiros que descem do trem se deparam com as personagens que poderiam ter saído das páginas de um conto de virgínia wolff.

algumas bocas sorriem, outras tentam disfarçar a falta de graça misturada com surpresa, tem as que passam pelo saguão forçando a sensação de acharem tudo muito normal e desviam seus corpos dos corpos vidrados na canção de espera ainda entoada. há também aquelas que arriscam um beijinho em tchauzinho, e as que se assustam de verdade com a inesperada cena.

eu que tentei ver a quase tudo, não sabia se olhava para os rostos dos que chegavam ou dos que presentificavam a angustiosa canção de espera de quem não vem.

foi um verdadeiro presente esse convite-espera para mim.
não tenho palavras para dizer o que senti, então pinto as cenas aqui com minhas cores e meus pincéis.

a próxima apresentação será nesta quinta, dia 02/10, às 19:30h na praça da estação.

Dona de Castelo

segundo presente.
interpretação: adriana calcanhoto

Composição: Jards Macalé/ Waly Salomão

Amor perfeito
Amor quase perfeito
Amor de perdição paixão que cobre
Todo o meu pobre peito pela vida afora
Vou-me embora, embromadora
Você para mim agora
Passa como jogadora
Sem graça nem surpresa
Diga que perdi a cabeça
Seu eu me levantar da mesa e partir
Antes do final do jogo
Louco seria prosseguir essa partida
Peça falsa que se enraíza
E faz negro todo meu desejo pela vida afora
Vou-me embora, embromadora
E quando eu saltar de banda
E quanto eu saltar de lado
Vou desabar seu castelo de cartas marcadas
E tramas variadas
Sim
Seu castelo de baralho vai se desmanchar
Desmantelado
Decifrado
Sobre o borralho da sarjeta
Chegou o inverno !!!!!!

1.10.08

como aprender a pensar?

a maior habilidade humana que possuímos é a nossa incrível capacidade de aprender, de pensar, de refletir sobre o que nos é apresentado como conhecimento, de nos aperfeiçoar, de encontrar soluções para variados problemas nas condições mais diversas. a família e a escola são, sem dúvida, as principais responsáveis nessa tarefa de desenvolver a notável capacidade de pensar nas nossas crianças desde a mais tenra idade e devem estar aliadas nessa busca de levá-las pelos caminhos de conhecer o que o ser humano já produziu enquanto conhecimento e o que ele ainda pode produzir, enquanto novidades. mas a pergunta incômoda é: como fazer?

a criança chega ao mundo e já começa a aprender com ele. os conhecimentos que ela vai assimilando, progressivamente vão sendo colocados em prática, em um constante teste para ver como tudo funciona e se realmente funciona. esse mundo é infinitamente desconhecido para a criança, assim como a criança é um ser desconhecido para o mundo. é nesse choque entre o antigo e o novo, entre a tradição e a sua renovação, entre a revelação do mundo e a criança, que acontece a descoberta do saber. com o conhecimento progressivo do mundo que a rodeia, a criança vai desenvolvendo e descobrindo a sua própria maneira de pensar esse mundo, ao mesmo tempo em que começa a conhecer a si mesma.

estamos todo o tempo lidando com novos conhecimentos por diversos meios tecnológicos e midiáticos, mas serão somente esses novos conhecimentos os que melhor dialogam com a juventude? as chamadas “velhas tradições” (contação de histórias, fábulas, mitologias, lendas, cantigas, história da filosofia, etc.) que ensinaram os homens e as mulheres mais notáveis de nossa história não deveriam ter um lugar privilegiado na aprendizagem de nossas crianças? o contato com a arte – seja ela da antigüidade clássica, da era moderna ou pós-moderna – não ajudaria as crianças a serem introduzidas no complexo sistema de nossa sociedade de maneira mais prazerosa (e isso não descarta o incômodo que a arte também nos provoca) e significativa? ao se refletir sobre o extenso passado da humanidade, não se compreenderia melhor o nosso presente e possibilitaria a construção de um futuro com pessoas mais conscientes de seus papéis políticos no mundo?

a história da humanidade é tão rica em culturas e descobertas científicas que pensar em estudar o mundo sob o prisma de sua tradição pode ser uma resposta. não se trata aqui de conhecimentos “conteudistas”, onde a criança assimila informações e as reproduz tal qual como as aprendeu. definitivamente não! trata-se de ensinar as nossas crianças a refletirem sobre a sua própria história, que é a história de toda a humanidade.

28.8.08

conversa de balangandãs

de mãos espalmadas ao longo do rosto ela responde franzindo levemente o nariz:
— pois eu gosto de dengo!
— e eu de bunda!
ele já esperava para dar sua resposta com os lábios levemente contraídos entre os dentes.
— veja como é gostoso dizer: que bunda!
conclui repetindo o mesmo gesto sensual dos lábios dando mais ênfase ao aspecto sonoro da palavra.
— o que está acontecendo aqui?
chega um outro tentando adivinhar o que era aquele fragmento de conversa que acabava de pescar.
depois de se inteirar dá o seu veredicto se aproximando da orelha da moça:
— pois eu gosto de cuchicho!
com uma piscadinha de olho pra ela, quase como um convite, sai de cena.

19.7.08

cata vento


(para luciana gonçalves)

mi amor es como el viento
a veces cerca, otras lejos
a veces tormenta, lluvia y truenos
a veces brisa, tíbio suave viento
va del mar a la tierra
vuelta de la tierra al mar
olas de aire en movimiento


17.7.08

SALOMÉ e a magia do ventre


Entre os autores que se arriscaram a penetrar no universo mítico da figura de Salomé, cito: Mallarmé, com o poema Herodíade — autor que demorou toda a sua vida em busca do desejo de torná-lo poeticamente perfeito; Flaubert, com o poema Salambô; Gabriel Mourey (crítico de arte), contribuiu com um estudo sobre a transcendência de Salomé na arte desde a antiguidade; Mário de Sá-Carneiro, Théodore de Banville, William Wilde, Pierre Louÿs criaram sonetos entre outras formas poéticas; Gustave Moreau produziu uma série de quadros sobre a história dessa virgem fatal; quadros que inspiraram Oscar Wilde quando escreveu a peça de teatro Salomé, de apenas um ato, que o autor nunca viu encenada; esta por sua vez inspirou o compositor Richard Strauss, resultando em uma ópera que levou o mesmo nome da peça estreada em 1905, famosa pela cena da Dança dos sete véus.

Chamada de “Musa da Decadência” a dançarina Salomé atravessa os séculos como o ícone absoluto da Mulher Fatal. Não é difícil visualizá-la como uma moça linda, suntuosamente vestida, uma odalisca, adornada com jóias, de rosto juvenil que beira o limite da inocência e da sensualidade, dançando de forma lasciva com a cabeça de Iokanan decepada em uma bandeja de prata (João Batista, o último dos profetas judeus). Seria ela, então, a síntese do feminino perigoso, o mistério, o lado obscuro do ser humano, a condensação de todas as mulheres cruéis da história, o poder ctônico que vem das profundezas da Mãe Terra, aquela que dá a vida aos seres vivos, mas também a que provoca as mais terríveis destruições.

Na Bíblia, seu nome não é mencionado (Marcos VI, 14-29 e Mateus XIV 1-13), é apresentada apenas como "Princesa da Judéia, filha de Herodíade". Seu nome — que por ironia do destino significa "A Pacífica" — chega ao nosso conhecimento por intermédio de Flávio Josefo, historiador judeu, nascido por volta de 37 d.C., autor que deixou vários livros apócrifos.

O breve relato bíblico conta que Salomé comete o crime para atender a um pedido de sua mãe, rainha da Judéia, que nas palavras absolutas do poeta-profeta era mulher promíscua, leviana, idólatra e incestuosa. A versão trans-criativa da Idade Média, recuperada parcialmente por Oscar Wilde, conta sobre uma desoladora paixão da princesa por Iokanan (João Batista em hebraico). A princesa ao ser rejeitada por ele, dança para Herodes, seu tio/padrasto, provoca o desejo incestuoso do rei e pede a cabeça de Iokanan como recompensa de seu desafeto.

Na atualidade fica a dúvida e Salomé continua bailando com seu rebolado ondulante e sensual na imaginação de homens e mulheres de nossa época.

15.1.08

entrevista sobre literatura e ensino no overmundo



o site overmundo recebe a colaboração do poeta, agora como entrevistador, leo gonçalves em uma matéria que fala de temas diretamente ligados à importância do ensino de literatura nas escolas como também da necessidade de formar leitores e suas potencialidades no campo de escritas criativas. a entrevistada fui eu, onde falei de minhas experiências de sala de aula e reflexões sobre elas.

para dar uma olhada, é só clicar nesse link:

www.overmundo.com.br/entrevista

entrem, votem, comentem. e participem também do overmundo.