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ascendo às estrelas
que estralam
na brasa do cigarro
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9.9.09
Tempo que diz
eduardo galeano
(tradução livre :: patrícia mc quade)
A desintegração da persistência da memória :: Salvador Dalí
De tempo somos.
Somos seus pés e suas bocas.
Os pés do tempo caminham em nossos pés.
À curta ou à longa, já se sabe, os ventos do tempo apagarão as pegadas.
Travessia do nada, passos de ninguém? As bocas do tempo contam a viagem.
Somos seus pés e suas bocas.
Os pés do tempo caminham em nossos pés.
À curta ou à longa, já se sabe, os ventos do tempo apagarão as pegadas.
Travessia do nada, passos de ninguém? As bocas do tempo contam a viagem.
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bibliografia: GALEANO, Eduardo. Bocas del tiempo. Buenos Aires : Catálogos, 2004, p. 01.
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Parábola :: Ademir Assunção
onde falam: falhas!
vejo folhas
onde falam: folhas!
ouço flautas
onde a voz falta
e o ar fala
ouça
o sábio sabe
quando cala
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vc encontra mais sobre ele aqui
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8.9.09
ah, Camões! por essa tu não esperavas!
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O Vestibular da Universidade da Bahia cobrou dos candidatos a interpretação do seguinte trecho de poema de Camões:
'Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente,
é um contentamento descontente,
dor que desatina sem doer '.
Uma vestibulanda de 16 anos deu a sua interpretação:
'Ah, Camões!, se vivesses hoje em dia,
tomavas uns antipiréticos,
uns quantos analgésicos
e Prozac para a depressão.
Compravas um computador,
consultavas a Internet
e descobririas que essas dores que sentias,
esses calores que te abrasavam,
essas mudanças de humor repentinas,
esses desatinos sem nexo,
não eram feridas de amor,
mas somente falta de sexo !'
A Vestibulanda ganhou nota DEZ, pela originalidade, pela estruturação dos versos, das rimas insinuantes e também, foi a primeira vez que, ao longo de mais de 500 anos, alguém desconfiou que o problema de Camões era apenas falta de sexo.
O Vestibular da Universidade da Bahia cobrou dos candidatos a interpretação do seguinte trecho de poema de Camões:
'Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente,
é um contentamento descontente,
dor que desatina sem doer '.
Uma vestibulanda de 16 anos deu a sua interpretação:
'Ah, Camões!, se vivesses hoje em dia,
tomavas uns antipiréticos,
uns quantos analgésicos
e Prozac para a depressão.
Compravas um computador,
consultavas a Internet
e descobririas que essas dores que sentias,
esses calores que te abrasavam,
essas mudanças de humor repentinas,
esses desatinos sem nexo,
não eram feridas de amor,
mas somente falta de sexo !'
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A Vestibulanda ganhou nota DEZ, pela originalidade, pela estruturação dos versos, das rimas insinuantes e também, foi a primeira vez que, ao longo de mais de 500 anos, alguém desconfiou que o problema de Camões era apenas falta de sexo.
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6.9.09
medo de amar
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"amar: ir além de si mesmo, ultrapassar todos os limites.
"amar: ir além de si mesmo, ultrapassar todos os limites.
e diante de tanta ousadia,
o medo assombra: muitas vezes esse ir, não tem volta."
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suja de piche
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5.9.09
"Terra Sonambula" :: um romance de Mia Couto
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Estou finalizando o estudo do livro Terra Sonâmbula de Mia Couto com alunos do 3º ciclo da Escola da Serra (adolescentes de 13/14 anos). Este escritor moçambicano, já é bem conhecido aqui pelos lados de Belo Horizonte, pois diversas vezes recebemos sua visita na UFMG e muitas foram as palestras que ele nos presenteou para falar de literatura em língua portuguesa e de seu país Moçambique. Terra Sonâmbula tem como contexto histórico a guerra da independência do país que durou cerca de 16 anos. Com seu término em 1975 os moçambicanos herdam uma terra em estado de luto, deflorada pelas ganâncias do poder capitalista, voltada para o desafio de reconstruir sua nação e resgatar suas tradições em processo de esquecimento por causa do terror da guerra que desumaniza qualquer povo nestas circunstâncias.
Mia Couto cria um cenário que mescla sonho e realidade, o pesadelo da guerra é o personagem principal. A busca pelo resgate da humanidade perdida dentro da alma dos cidadãos moçambicanos é o que comove leitores e nos aproxima de sua história. Faz parte da estética literária de Mia Couto, nesta e em outras de suas obras, a recriação de uma dimensão mágica e mítica das tradições africanas – que são tantas quantas não se pode contar – em busca de uma identidade que unisse as diversas etnias nessa terra existentes e que passaram a fazer parte dos limites de fronteiras impostos pelos colonizadores. Seus personagens, todos vagueiam por uma terra destruída pelo colonialismo brutal e pela luta de sobrevivência, compartilham o desespero mais pungente e uma esperança pela paz que se não se entrega à morte.
Sua linguagem é trabalhada a partir da oralidade das línguas africanas desse país reunidas em vocábulos e expressões próprias desses povos como recurso estilístico de criação de uma língua portuguesa moçambicana, que seja legítima a eles e por eles apropriada. Subverte as regras da gramática portuguesa e re-inventa um língua que a aproxima das identidades dos povos que ali vivem. A partir desse jogo lingüístico enriquece o português e o consagra como uma língua incorporada ao povo moçambicano. De muitos idiomas Terra Sonâmbula é constituída. Em uma entrevista o escritor afirma: “O encontro entre a oralidade e a escrita é uma das pontes que nos faltam para encontrar neste mundo o nosso mundo”.
E o resultado é poesia! Mia Couto canta as vozes dos silenciados pela guerra e massacre, pela fome e desnutrição, pelo abandono e exploração. Essas vozes trazem as histórias míticas da formação de povos, trazem a alma das tradições africanas que foram por milênios, solapadas, estupradas, deturpadas e amordaçadas.
Sem dúvida, Terra Sonâmbula é um romance que nos aproxima — nós, brasileiros — da realidade moçambicana, ainda que sejamos diferentes em contextos históricos, compartilhamos de uma irmandade mística mais negra que branca, uma irmandade de identidade mestiça, por isso universal.
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bibliografia:
COUTO, Mia. Terra Sonâmbula. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995.
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resenha
fragmento de "Terra Sonâmbula" de Mia Couto
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"O adivinho olhou a terra como se dele dependesse o destino do universo. pesava nos seus olhos a gravíssima decisão de criar um outro dia.
— É aqui mesmo!, disse.
(...)
— Que morram as estradas, se apaguem os caminhos e desabem as pontes!
Depois começou o discurso, desfiando palavras lentas, rasgando a voz de encontro ao vento:
— Chorais pelos dias de hoje? Pois saibam que os dias que virão serão piores. Foi por isso que fizeram esta guerra, para envenenar o ventre do tempo, para que o presente parisse monstros no lugar da esperança. Não mais procureis vossos familiares que saíram para outras terras em busca de paz. Mesmo que os reencontreis, eles não vos reconhecerão. Vós vos convertêsteis em bichos, sem família, sem nação. Porque esta guerra não foi feita para vos tirar do país mas para tirar o país de dentro de vós. Agora, a arma é vossa única alma. Roubaram-vos tanto que nem sequer os sonhos são vossos, nada de vossa terra vos pertence, e até o céu e o mar serão propriedade de estranhos. Será mil vezes pior que o passado, pois não vereis o rosto dos novos donos e esses patrões se servirão de vossos irmãos para vos dar castigo. Ao invés de combaterem os inimigos, os melhores guerreiros afiarão as lanças nos ventres das suas próprias mulheres. E aqueles que vos deveriam comandar estarão entretidos a regatear migalhas no banquete da vossa própria destruição. E até os miseráveis serão donos do vosso medo pois vivereis no reino da brutalidade. Terão que esperar que os assassinos sejam mortos por suas próprias mãos pois em todos haverá medo da justiça. A terra se revolverá e os enterrados assomarão à superfície para virem buscar as orelhas que lhes foram decepadas. Outros procurarão seus narizes no vômito das hienas e escavarão nas lixeiras para resgatarem seus antigos órgãos. E há-de vir um vento que arrastará os astros pelos céus e a noite se tornará pequena para tantas luzes explodindo sobre as vossas cabeças. As areias se voltearão em remoinhos furiosos pelos ares e os pássaros tombarão extenuados e ocorrerão desastres que não têm nome, as machambas serão convertidas em cemitério e das plantas, secas e mirradas, brotarão apenas pedras de sal. As mulheres mastigarão areia e serão tantas e tão esfaimadas que um buraco imenso tornará a terra oca e desventrada. No final, porém, restará uma manhã com esta, cheia de luz nova e se escutará uma voz longínqua como se fosse uma memória de antes de sermos gente. E surgirão os doces acordes de uma canção, o terno embalo da minha primeira mãe. Esse canto, sim, será nosso, a lembrança de uma raiz profunda que não foram capazes de nos arrancar. Essa voz nos dará a força de um novo princípio e, ao escutá-la, os cadáveres sossegarão nas covas e os sobreviventes abraçarão a vida com o ingênuo entusiasmo dos namorados. Tudo isso se fará se formos capazes de nos despirmos deste tempo que nos fez animais. Aceitemos morrer como gente que já não somos. Deixai que morra o animal em que esta guerra nos converteu".
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bibliografia:
COUTO, Mia. Terra Sonâmbula. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995, p. 241-243.
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tempo
4.9.09
uma prece
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não desabe de mim o voo de amar
de me ver de te ver
de pairar de sentir
seja vital o sopro do vento
que embaraça pensamentos
seja perene a resistência do ar
que provoca movimentos
as penas firmes o corpo livre
olhar em riste
elevar-se
em si confiar
o amar
que seja intenso
o voar
que seja breve
o revés
que seja eterno
uma prece esvoaça as penas
antes de sonhar as alturas
por amor
não fira minhas asas
não fira as tuas asas
não firamos ninguém
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não desabe de mim o voo de amar
de me ver de te ver
de pairar de sentir
seja vital o sopro do vento
que embaraça pensamentos
seja perene a resistência do ar
que provoca movimentos
as penas firmes o corpo livre
olhar em riste
elevar-se
em si confiar
o amar
que seja intenso
o voar
que seja breve
o revés
que seja eterno
uma prece esvoaça as penas
antes de sonhar as alturas
por amor
não fira minhas asas
não fira as tuas asas
não firamos ninguém
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1.9.09
Mãos dadas
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Carlos Drummond de Andrade
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria,
o tempo presente,
os homens presentes,
a vida presente.
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