23.12.10

pé de página


antes do não seja o sim.
antes do pedido, o consentimento.
antes da palavra, o silêncio.
não dá para agradecer um agradecimento.

*

11.12.10

PSIA :: Arnaldo Antunes

— Por que a lua não se distancia da terra?
— Porque já é distante o bastante.

— Qual o olho que vê melhor?
— O do ciclope.

— Como vai?
— A pé.

— A civilização ocidental deve abrir os olhos para o Ocidente?
— Abrir os olhos.

— O que faz o céu?
— Voa.
— E a ave?
— Povoa.

— Deus existe?
— Eu também.

— Qual o ser mais puro?
— O mineral.

— Qual o ser mais puro?
— O que não fala.

— Por que o homem pensa?
— Por falta de disciplina.

— Os fatos que ninguém viu aconteceram?
— Ponho fé.

— Qual o ser mais puro?
— Bambi.

— Quando você vai voltar pra casa?
— Lá pelas onze.

— O que cabe na cabeça?
— A cabeça.

— Gosta de leite?
— Só com nescau.

— Como assim disciplina?
— Com dois esses.

— Você pertence a alguma religião?
— De uma outra região.

— Como tem passado?
— Parado.

— Por que suas respostas são sempre mais curtas que as minhas?
— Porque sim.

— O que acha da televisão?
— Deve ser vista sem o som.

— Qual o caminho?
— O certo.

— A cabeça cabe na cabeça?
— À beça.

— Quando surgiram?
— Há pouco.

— Qual o comprimento do corno do diabo?
— Só Deus sabe.

— Quando uma mulher te diz não?
— Quando ela tem razão.

— Qual o olho que vê melhor?
— O que não duvida.

— Por que o céu não cai sobre as nossas cabeças?
— Porque o druida existe.

— Quais foram as duas últimas palavras do mestre Hiang Ching antes de morrer?
— Ainda não.

— Mais alguma coisa?
— Sim.

***

bibliografia degustada: ANTUNES, Arnaldo. PSIA. São Paulo: Iluminuras, 2001.

***

9.12.10

derrelição :: segundo hilda hilst


“Derrelição. Não, não parece triste, talvez porque as duas primeiras sílabas lembrem derrota, e lição é sempre muito chato. Não, não é triste, é até bonita. Desamparo, Abandono, assim é que nos deixaste. Porco-Menino, menino-porco, tu alhures algures acolá lá longe no alto aliors, no fundo cavucando, inventando sofisticadas maquinarias de carne, gozando o teu lazer: que o homem tenha um cérebro sim, mas que nunca alcance, que sinta amor sim mas nunca fique pleno, que intua sim meu existir mas que jamais conheça a raiz do meu ínfimo gesto, que sinta paroxismo de ódio e de pavor a tal ponto que se consuma e assim me liberte, que aos poucos deseje nunca mais procriar e coma o cu dos outros, que rasteje faminto de todos os sentidos, que apodreça, homem, que apodreças, e decomposto, corpo vivo de vermes, depois urna de cinza, que os teus pares te esqueçam, que eu me esqueça e focinhe a eternidade à procura de uma melhor idéia, de uma nova desengonçada geometria, mais êxtase para a minha plenitude de matéria, licores e ostras...”


Hilda Hilst

8.12.10

O amor e seu tempo

carlos drummond de andrade

Amor é privilégio de maduros
Estendidos na mais estreita cama,
Que se torna a mais larga e mais relvosa,
Roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
O prêmio subterrâneo e coruscante,
Leitura de relâmpago cifrado,
Que, decifrado, nada mais existe

Valendo a pena e o preço do terrestre,
Salvo o minuto de ouro no relógio
Minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
Depois de se arquivar toda a ciência
Herdada, ouvida. amor começa tarde.

5.12.10

o direito de sonhar

de Eduardo Galeano
tradução livre de patricia mc quade


Ninguém sabe como será o mundo depois do ano 2000. Temos uma única certeza: se ainda estivermos aqui, já seremos pessoas do século passado y, pior ainda, seremos pessoas do milênio passado.

Entretanto, mesmo que não possamos adivinhar o mundo que será, podemos sim imaginar o que queremos que seja. O direito de sonhar não está estampado nos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram em 1948. Mas se não fosse por ele, e pelas águas que dá de beber, os outros direitos morreriam de sede.

Deliremos, pois, por um momento. O mundo, que está de pernas para o ar, se firmará sobre seus pés.

• Nas ruas, os automóveis serão pisados por cachorros.

• Os cozinheiros não acreditarão que as lagostas adoram ser fervidas vivas.

• A polícia não será a maldição de quem não pode comprá-la.

• O ar estará limpo dos venenos das máquinas, e não haverá mais poluição do que aquela que emana dos medos humanos e das humanas paixões.

• Os historiadores não acreditarão que os países adoram ser invadidos. Os políticos não acreditarão que os pobres adoram comer promessas.

• A justiça e a liberdade, irmãs siamesas condenadas a viverem separadas, voltarão a se juntar, bem coladinhas, costa com costa.

• As pessoas não serão dirigidas pelo automóvel, nem serão programadas pelo computador, nem serão compradas pelo supermercado, nem serão assistidas pelo televisor.

• O mundo já não estará em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza, e a indústria militar não terá mais remédio do que declarar para sempre sua falência.

• Uma mulher, negra, será presidente do Brasil e outra mulher, negra, será presidente dos Estados Unidos da América.
Uma mulher índia governará Guatemala e outra, Peru.

• O televisor deixará de ser o membro mais importante da família, e será tratado como o ferro de passar ou a máquina de lavar roupas.

• Ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão.

• Na Argentina, as loucas da Praça de Maio serão um exemplo de saúde mental, porque elas se negaram a esquecer nos tempos de amnésia obrigatória.

• As pessoas trabalharão para viver, em lugar de viverem para trabalhar.

• Os meninos de rua não serão tratados como se fosse lixo, porque não haverá meninos de rua.

• A Santa Madre Igreja corrigirá algumas erratas das tábuas de Moisés:
O sexto mandamento ordenará: “Festejarás o corpo”.
O nono, que desconfia do desejo, irá declará-lo sagrado.

• Em nenhum país irão presos os rapazes que se neguem a fazer o serviço militar, senão aqueles que queiram fazê-lo.

• As crianças ricas não serão tratadas como se fosse dinheiro, porque não haverá crianças ricas.

• A igreja também ditará um décimo primeiro mandamento, que se esqueceu o Senhor: “Amarás a natureza, da qual fazes parte”.

• Os economistas não chamarão nível de vida ao nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida à quantidade de coisas.

• A educação não será um privilégio de quem possa por ela pagar.

• Todos os penitentes serão celebrantes, e não haverá noite que não seja vivida como se fosse a última, nem dia que não seja vivido como se fosse o primeiro.

*
* *

texto traduzido do site: pro diversitas

*

já dez anos quase concluidos de século XXI se passaram e continuo inclinada ao meu direito legítimo de sonhar. sonho com a segunda década deste ainda novo século cheia de transformações na mentalidade das pessoas e na realidade de vida vivida, morta e ressuscitada com mais justiça e liberdade para todos.

*

28.11.10

José :: de Carlos Drummond de Andrade


E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama protesta,

e agora, José?


Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?


E agora, José?

Sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio - e agora?


Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?


Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse…

Mas você não morre,

você é duro, José!


Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José!

José, pra onde?

*

8.11.10

~


!para julieta sueldo boedo!


o aprendido é quando a vida nada
feito sêde que nada
feito fala que nada
feito falta que nada
feito dor que nada
...solução? que nada
então, esquece...
que nada, peixe, que nada

~

desvario a partir da filosofia popular:
"Para o que não tem solução, a sêde do peixe ensinou a dizer nada"

~

8.10.10

regalo

no esperaba yo por nadie ni por nada
pero él me esperaba en mi cama
era amarillo serio y cerrado
y cerrado se quedó hasta que yo notase su presencia
decía mi nombre deletreándolo con letras grandes
y cuatro paisajes repetidos de una mítica Tierra del Fuego
en sus ojos brillaban
y me esperaba...
con la calma que sólo el cielo espera el sol de la oscuridad
para de nuevo volver el sol de la claridad del día siguiente
porque siempre vuelve la claridad después de la oscuridad
y también al revés
pues uno se completa al otro
y de nuevo al revés
cuando mis ojos miraron los suyos
cuando a él
me lo abrí
y eso me lo dijo


*

!para gabriela carrión!

~

a Bela e o Dragão :: Mário Quintana

As coisas que não têm nome assustam, escravizam-nos, devoram-nos...
Se a bela faz de ti gato e sapato, chama-lhe, por exemplo, A BELA
DESDENHOSA. E ei-la rotulada, classificada, exorcizada, simples marionete
agora, com todos os gestos perfeitamente previsíveis, dentro do seu papel de
boneca de pau. E no dia em que chamares a um dragão de JOLI, o dragão
te seguirá por toda parte como um cachorrinho...

[Mario Quintana; Sapato Florido, 1948]

*

3.10.10

memória :: carlos drummond de andrade



Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

*