o que me aflige?
a-humanidade me aflige.
11.4.12
1.4.12
28.3.12
*
para poliany figueiredo
deserto à vista
silêncio ecoa gargantas
ouvidos moucos de grito e vazio
rochas de bilhões de anos se revoltam em grãos
um gão
instante do Eterno
ninguém surge aspirando oásis
antes, veste o vestido de tempo e tempestade
.a.r.e.i.a.
ninguém desenha pedras:
o sol se equilibra em dunas
sede ao som e ária que venta
dunas morosas e dengosas
de um lado a outro e vãos
fendas
acariciadas pelas mãos pequeninas do sol
afora dunas da cauda do vestido que baila
cactos bordados
tatos espinhos
ninguém nos espinhos
mata-se sede
fere-se ranhuras de rochas
o sol acalenta
a seiva o caule
a flor espantada e carmim
enigma de morte
- irmãs gêmeas -
esfinge de vida
odor ocre
cor
e um calafrio
ninguém só, veja!
a aridez
o sol escaldante
espera-se o nascer inesperado
e o cacto primevo
espinhos verão
flores não tardarão
veja!
ambos adornam o vestido
suco cáustico embriaga a sede
ninguém abre a porta do deserto
para que outros vejam
as dunas os cactos as flores os espinhos as pedras
ninguém
veja!
a cauda do vestido que baila
o sol o vento
tudo no-nada
ao som de uma ária
15.3.12
6.3.12
22.2.12
confissão de carnaval
vamos nos encontrar num carnaval desses pra conversar
eu preciso muito te ver!
às vezes conseguimos nos comunicar melhor sem nenhuma palavra
quando dizíamos tudo no silêncio da palma.
depois de passado o susto do encontro,
outro se escuta até o final
a vez do outro
...?...
às vezes conseguimos nos comunicar melhor sem nenhuma palavra
quando dizíamos tudo no silêncio da palma.
depois de passado o susto do encontro,
sambamos: é só confessar baixinho
o que se quer contar
o que se quer contar
e o
outro se escuta até o final
sem interromper...
aí
chega a sua vez
um passo, um salto, um samba
chega a sua vez
um passo, um salto, um samba
a vez do outro
que bom carnaval!
assinado: assim seria.
4.2.12
13.1.12
Penduricalho
quando
si e mi lá tocam
si dó ré mi
sustenido
dó da nota de lá
dó ré mi fá
escala
menor vento e acorde
fá
sol lá si
sussurra
bemol mi si lá sol
sol
lá si dó
lá
adágio verso que dó.
canta-si lá rima de si para
mi
re mi fá fá ré
quando
si o mi lá toca
dó
ré mi fá sol
sustenido
dó da nota de lá.
sonatina
de mi
lá
sol fá mi ré dó
sinfonia
de si
si
dó mi fá sol
eco,
canto lá ré de dó
mi
fá sol lá si
canta-si
lá dó ré tum-tum:
coração
acorde de si e mi.
3.1.12
Escola pública, 1976. Dona Elza não tinha ninguém, só um papagaio que lhe havia deixado uma cicatriz na testa, mas declarava seu amor ao homem. Talvez tenha sido por isso que um dia decidiu nos levar ao laboratório, reservado normalmente aos meninos mais velhos.
Fazia um sol branco sem calor.
A primeira revelação que ela nos faria – como parecia feliz! – era
algo que apenas as crianças realmente inteligentes veriam como
extraordinário. Os tolos, os ignorantes, teriam medo – e que medo mais
sem cabimento! E fez-se uma expectativa, uma espera, como se ela
aguardasse que decidíssemos: e então, tolos ou sábios? Depois, puxou o plástico
negro que cobria um esqueleto. Riso nervoso dos garotos, estupefação
forçada dos mais cínicos, gritinhos das meninas.
- Calma, calma, ela pedia, forçando um sorriso como se estivesse
sorrindo mas tentando se conter. E com um tom elevado:
– Isto, meus alunos, é o homem!
O homem. Ou a mulher, acrescentou. Não havia razão para riso nem medo
– era de plástico e mais: era a ciência. Ela compreendia algum
espanto, mas tinha certeza de que não a decepcionaríamos.
Amontoamo-nos em torno do esqueleto, suas órbitas abertas, seu riso
sem direção, seus ossos enormes ou mínimos, atados com arame.
- A mulher? – perguntou um menino de cabeça raspada.
- Claro que sim. Por dentro somos iguaizinhos. – e as meninas pareciam
envergonhadas de sua nudez, ou como que traídas.
Minha professora morreu oito anos depois.
Fazia um sol branco sem calor.
A primeira revelação que ela nos faria – como parecia feliz! – era
algo que apenas as crianças realmente inteligentes veriam como
extraordinário. Os tolos, os ignorantes, teriam medo – e que medo mais
sem cabimento! E fez-se uma expectativa, uma espera, como se ela
aguardasse que decidíssemos: e então, tolos ou sábios? Depois, puxou o plástico
negro que cobria um esqueleto. Riso nervoso dos garotos, estupefação
forçada dos mais cínicos, gritinhos das meninas.
- Calma, calma, ela pedia, forçando um sorriso como se estivesse
sorrindo mas tentando se conter. E com um tom elevado:
– Isto, meus alunos, é o homem!
O homem. Ou a mulher, acrescentou. Não havia razão para riso nem medo
– era de plástico e mais: era a ciência. Ela compreendia algum
espanto, mas tinha certeza de que não a decepcionaríamos.
Amontoamo-nos em torno do esqueleto, suas órbitas abertas, seu riso
sem direção, seus ossos enormes ou mínimos, atados com arame.
- A mulher? – perguntou um menino de cabeça raspada.
- Claro que sim. Por dentro somos iguaizinhos. – e as meninas pareciam
envergonhadas de sua nudez, ou como que traídas.
Minha professora morreu oito anos depois.
:: um miniconto de carino schlemihl ::
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