te escrevo perdão
me inscrevo esquecimento
em cada gota noturna que me chove de dentro
e ainda
em cada máscara rasgada
outra se forma em pedra
pedra cada vez mais muro
e ainda
muro de máscaras
risos, bocas, caretas
que de tão alto
e ainda
sou feita de som que me desfaz
sou feita de oco que se quer silêncio
e esse eco enfadonho que tange
e esse muro
e ainda
em cada perdão
instante estrangeiro
inscrevo memória em pedra lascada
─ esquecimento
e sonho
e ainda
10.6.07
5.11.06
obsessão:
borboleta distraída esmagada por vidro de carro em alta velocidade:
pata verde apartada de grilo - em apuros! - mutilada em vidraça de jardim:
mosca pensa presa na teia de aranha que por uma infimidade: ainda não posso morrer:
daí essa litania contra a desmemória
:: pela borboleta :: pela pata de grilo ::
borboleta distraída esmagada por vidro de carro em alta velocidade:
pata verde apartada de grilo - em apuros! - mutilada em vidraça de jardim:
mosca pensa presa na teia de aranha que por uma infimidade: ainda não posso morrer:
daí essa litania contra a desmemória
:: pela borboleta :: pela pata de grilo ::
:: pela mosca :: pela aranha::
27.1.06
7.1.06
revolta nas sombras dos olhos:
se lembra daquele vestido rosa pink?
- e eu que odeio rosa em qualquer estado de choque -
aquel vestido pasado de moda años 60
está sempre no meu recordo
você enrolado no meu godê
seguro no tomara-que-caia
e fingia que caía e
eu fingindo que caía
e caída
caía sobre você
só dois
dois anjos caídos ao léu
no meio da avenida principal
rebolando ao som do rugido blasfemador dos automóveis
- Auto lá!
como se diz a palavra amor?
eu a escrevo, no entanto
a perdi no último beijo que dei na sua boca
e
assim:
eu de rosa em choque e você
sombra negra no meu kitsch
sombra da sombra no meu pink
e
recordo que choque em rosa
recordo em sombra e sobra
recordo em godê
se lembra daquele vestido rosa pink?
- e eu que odeio rosa em qualquer estado de choque -
aquel vestido pasado de moda años 60
está sempre no meu recordo
você enrolado no meu godê
seguro no tomara-que-caia
e fingia que caía e
eu fingindo que caía
e caída
caía sobre você
só dois
dois anjos caídos ao léu
no meio da avenida principal
rebolando ao som do rugido blasfemador dos automóveis
- Auto lá!
como se diz a palavra amor?
eu a escrevo, no entanto
a perdi no último beijo que dei na sua boca
e
assim:
eu de rosa em choque e você
sombra negra no meu kitsch
sombra da sombra no meu pink
e
recordo que choque em rosa
recordo em sombra e sobra
recordo em godê
4.12.05
pena de passarim
para john willis, meu pai
todo dia bem cedinho
seu joão se levanta
e cuida de passarim
é gorjeio aqui
trinado ali
piada acolá
uma beleza de se escutar
mas a piada melhor
é a de seu joão
de alma de passarim
e pena de voar
bom é acordar juntinho
com seu joão
sempre bem cedinho
de pena leve
e alma de passarim
canta pra mim passarim
canta pra mim
30.11.05
e ele me olhava como quem queria saber
queria ler os segredos escondidos
nas entrelinhas das pálpebras dos olhos castanhos
e eu fingia
fugia o olhar para não revelar
revelar poderia provocar a morte do que me torna surpresa (tudo o que é revelado perde necessariamente o encanto)
estava encantada
tan encantada cuanto
Dulcinea de Toboso
e não me reconhecia nele
encantada o estranhava e pedia passagem
passagem para fingir que fugia
estranhava seu olhar curioso que me buscava para me levar até uma câmara oculta qualquer em preto e branco
e fingindo que fugia deixei-me levar
levou-me sem eu confessar minhas surpresas
passei a simular o segredo de que ele agora me conhecia
o simulacro do olho desvelado era mais intimista e fatalista do que nunca
e no país do nunca penetrei de pecados fechados no labirinto deste outro
que desconheço
descalço os descaminhos do labirinto interior deste outro que se perdeu de um amor sem nenhuma ariadne que lhe desse um novelo de fio de ouro
sequer um novelo de fio de nada
que servisse para marcar o retorno que
nunca mais aconteceria
o teseu embaraçou-se nas teias que se arranham
no labirinto do nunca de um arranhar amar demais e
deixou-se perder
intimista
fatalista
teso em desvelar os segredos.
queria ler os segredos escondidos
nas entrelinhas das pálpebras dos olhos castanhos
e eu fingia
fugia o olhar para não revelar
revelar poderia provocar a morte do que me torna surpresa (tudo o que é revelado perde necessariamente o encanto)
estava encantada
tan encantada cuanto
Dulcinea de Toboso
e não me reconhecia nele
encantada o estranhava e pedia passagem
passagem para fingir que fugia
estranhava seu olhar curioso que me buscava para me levar até uma câmara oculta qualquer em preto e branco
e fingindo que fugia deixei-me levar
levou-me sem eu confessar minhas surpresas
passei a simular o segredo de que ele agora me conhecia
o simulacro do olho desvelado era mais intimista e fatalista do que nunca
e no país do nunca penetrei de pecados fechados no labirinto deste outro
que desconheço
descalço os descaminhos do labirinto interior deste outro que se perdeu de um amor sem nenhuma ariadne que lhe desse um novelo de fio de ouro
sequer um novelo de fio de nada
que servisse para marcar o retorno que
nunca mais aconteceria
o teseu embaraçou-se nas teias que se arranham
no labirinto do nunca de um arranhar amar demais e
deixou-se perder
intimista
fatalista
teso em desvelar os segredos.
23.10.05
da lua
neblina da lua
combina com a sua
calcinha de renda
despe-se lenda
neblina que sua
imagem só, nua
da lua
combina com a sua
calcinha de renda
despe-se lenda
neblina que sua
imagem só, nua
da lua
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