21.10.12
Amor Feliz
Amor feliz. Será normal,
será sério, será útil? –
que tem o mundo a ver com duas pessoas
que não vêem o mundo?
Erguidos ao seu céu sem mérito nenhum,
os melhores entre milhões e convencidos
que assim tinha de ser – a premiar o quê? Nada;
de algum ponto cai a luz –
e porquê logo sobre estes e não outros?
Ofenderá isto a justiça? Sim.
Perturbará os princípios estabelecidos com cuidado?
Derrubará do seu púlpito a moral? Perturba e derruba.
Olhem-me bem estes felizardos:
se ao menos se mascarassem um pouquinho,
fingissem melancolia dando assim algum ânimo aos amigos!
Ouçam bem como se riem – é um insulto.
A linguagem que usam – entendível, pelos vistos.
E aquelas cerimónias, etiquetas,
obrigações rebuscadas um para com o outro –
parece mesmo um acordo nas costas da humanidade.
É difícil até de prever no que daria
se um tal exemplo pudesse ser seguido.
Com que é que poderiam contar as religiões, a poesia,
de que nos recordaríamos, de que desistiríamos,
quem quereria pertencer ao círculo?
Amor feliz. Assim terá que ser?
Tacto e bom senso mandam omiti-lo
como a um escândalo nas altas esferas da Existência.
Magníficas crianças nascem sem a sua ajuda.
Nunca por nunca ele poderia povoar a terra
já que tão raro é acontecer.
Deixem que quem não conheceu o amor feliz
afirme que não há amor feliz.
Com esta crença mais leve lhes será tanto viver como morrer.
SZYMBORSKA, Wislawa. Paisagem com grão de areia,
Trad. Júlio Sousa Gomes. Relógio d’Água: Lisboa, 1998.
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Wislawa Szymborska
23.9.12
Amor à primeira vista
de Wislawa Szymborska
de que uma paixão súbita os uniu.
É bela essa certeza,
mas é ainda mais bela a incerteza.
Acham que por não terem se encontrado antes
nunca havia se passado nada entre eles.
Mas e as ruas, escadas, corredores
nos quais há muito talvez se tenham cruzado?
Queria lhes perguntar,
se não se lembram -
numa porta giratória talvez
algum dia face a face?
um “desculpe” em meio à multidão?
uma voz que diz “é engano” ao telefone?
- mas conheço a resposta.
Não, não se lembram.
Muito os espantaria saber
que já faz tempo
o acaso brincava com eles.
Ainda não de todo preparado
para se transformar no seu destino
juntava-os e os separava
barrava-lhes o caminho
e abafando o riso
sumia de cena.
Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.
Quem sabe três anos atrás
ou terça-feira passada
uma certa folhinha voou
de um ombro ao outro?
Algo foi perdido e recolhido.
Quem sabe se não foi uma bola
nos arbustos da infância?
Houve maçanetas e campainhas
onde a seu tempo
um toque se sobrepunha ao outro.
As malas lado a lado no bagageiro.
Quem sabe numa noite o mesmo sonho
que logo ao despertar se esvaneceu.
Porque afinal cada começo
é só continuação
e o livro dos eventos
está sempre aberto no meio.
(Tradução Regina Przybycien)
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Wislawa Szymborska
20.9.12
que o mundo acabe num suspiro
sem a melancolia da lágrima suspensa na ribalta que não se permitiu rolar precipício abaixo
sem o lamento do amor não vivido num espaço que só as naftalinas conseguem eternizar
sem a gana de viver todo o perdido do tempo nos últimos segundos de insistência
sem o drama venturoso do que poderia ser e não foi além da mediocridade
mas que acabe num suspiro da clara de ovo batida com açucar
na espiral e tempo em câmera lenta segura pela mão
assado ao fogo matutino dos raios de sol
ao ponto de dar água na boca
hum! que o mundo acabe com a última mordida na Aurora
que o mundo acabe num suspiro
sem a melancolia da lágrima suspensa na ribalta que não se permitiu rolar precipício abaixo
sem o lamento do amor não vivido num espaço que só as naftalinas conseguem eternizar
sem a gana de viver todo o perdido do tempo nos últimos segundos de insistência
sem o drama venturoso do que poderia ser e não foi além da mediocridade
mas que acabe num suspiro da clara de ovo batida com açucar
na espiral e tempo em câmera lenta segura pela mão
assado ao fogo matutino dos raios de sol
ao ponto de dar água na boca
hum! que o mundo acabe com a última mordida na Aurora
que o mundo acabe num suspiro
18.9.12
!
acorda, bebe dessa montanha, come desse céu,
despenteia esse cabelo e
saiba que o mundo é todo teu!
5.9.12
ele
para meu léu*
"conheço do amor o pouco que me ensinaram
os olhos que me amaram".
Fédon
um mar revoltoFédon
um terremoto no leito
uma agonia mórbida
um estado anestésico de embriaguez
um folhear fosforescente
uma ostra que guarda a palidez da pérola
um aliento afrodisíaco
carnaval em corpus christi
fatal crepúsculo da alvorada
seda de palavras que dá sede de mergulho
som de violino se rindo
estrela desgrelhada
como um deus e seu falo forte
um cacto árido que se dá em flor
um louva-a-deus convalescente
uma ruga no pensamento
que gota a gota se desprende dos olhos
que gota a gota se esgota na boca
um gosto ácido
um gozo acre
todo spoke que pipoca garganta
colapso de intrigas
uma formosura, espécie extinta
um composto de édem
uma libido dos infernos
asfalto de sedimentos precipitados
solução de sentimentos insolúveis
de espasmos líricos e dramáticos
narciso diante do espelho
o reflexo de si e de um outro
uma presença na ausência
um devir inexistente
despótica matéria de paraíso e carne
emaranhado nos cabelos de Ophelia
um exu ao tucupi
baco que dança no tacacá
repique atabaque de iansã
Gato num apartamento vazio
Wislawa Szymborska
Morrer - isso não se faz a um gato.
Pois o que há de fazer um gato
num apartamento vazio.
Trepar pelas paredes.
Esfregar-se nos móveis.
Nada aqui parece mudado
e no entanto algo mudou.
Nada parece mexido
e no entanto está diferente.
E à noite a lâmpada já não se acende.
Ouvem-se passos na escada
mas não são aqueles.
A mão que põe o peixe no pratinho
também já não é a mesma.
Algo aqui não começa
na hora costumeira.
Algo não acontece
como deve.
Alguém esteve aqui e esteve,
e de repente desapareceu
e teima em não aparecer.
Cada armário foi vasculhado.
As prateleiras percorridas.
Explorações sobre o tapete nada mostraram.
Até uma regra foi quebrada
e os papéis remexidos.
Que mais se pode fazer.
Dormir e esperar.
Espera só ele voltar,
espera ele aparecer.
Vai aprender
que isso não se faz a um gato.
Para junto dele
como quem não quer nada
devagarinho,
sobre patas muito ofendidas.
E nada de pular miar no princípio.
Fonte: SZYMBORSKA, Wislawa. Poemas. Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien. São paulo: Companhia das Letras, 2011.
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Wislawa Szymborska
19.8.12
epitáfio
chovem risos e lágrimas na lápide
aqui jaz o amor, morte prematura
estica o fio seda da eternidade
de suas flores nasce poesia futura
estrela e musgos adornam seu cabelo
sabem agasalho por uns, aconchego
sabem outros, serpente, ira e desespero
na soledade d’alma ensolarada
na palma da noite pois sepultura
pedra sobre pedra dessa lápide
se insiste nuvem, leveza perdura
de seu riso não se faça flagelo
de seu desejo, apluma sonho singelo
sol das almas! chove epitáfio libelo
(para García Lorca, in memoriam)
aqui jaz o amor, morte prematura
estica o fio seda da eternidade
de suas flores nasce poesia futura
estrela e musgos adornam seu cabelo
sabem agasalho por uns, aconchego
sabem outros, serpente, ira e desespero
na soledade d’alma ensolarada
na palma da noite pois sepultura
pedra sobre pedra dessa lápide
se insiste nuvem, leveza perdura
de seu riso não se faça flagelo
de seu desejo, apluma sonho singelo
sol das almas! chove epitáfio libelo
(para García Lorca, in memoriam)
15.8.12
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