16.11.12

presente quebrado


é para Ti que preparo este presente
não tem laço de fita, nem papel colorido
não é caixa de bombom nem sequer um vinil antigo

é para Ti que preparo este presente
não toca música ou roda a bailarina madame
não vem em cesta de vime ou farfalhar de celofane

é para Ti que preparo este presente
não dá pra ler nem ver paisagens postais
não dá pra vestir calçar sequer é uma inutilidade a mais

não
é somente para Ti que preparo este presente

desfio de chuva
perfume de terra
raio de uma estrela decadente

não
é para Ti que preparo este presente

afronta de gritos surdos
mãos conchas que guardam segredo
tempestade
mundo asfaltado
dança em meio-fio
tempo por um fio
chita no corte de seda remendado

não
é para Ti que preparo este presente

furacões
cabelos emaranhados
sopro de brisa
um assovio um sonho
insônia
desvario

não
é  para Ti que preparo este presente

caos em sobressalto
tudo ordenado entre dois nós

cegos
prédios
portos
portfólios
cadarços trocados
outdoors
produtos importados
aerossóis

não
é para Ti que preparo este presente

acontece só em uma outra galáxia que gira entre dois sóis
presente abduzido
de um outro mundo
e um não encontro meu estou entre nós

sim
esse presente tem um olho cego!
Titã ferido na sorte de um lance de dados
Odisseu desengonçado
cospe fogo e mira o olho
atinge em cheio
lança tridente uma Sereia em tom desafinado

não
é para Ti que preparo este presente

dor de ouvidos moucos de dar dó
headphones
chopin, iron maden, tom jobin, cartola
sonata
frustrada a la toada
vinho canção
uma sina

reticência

dissonância.

não
é para Ti que preparo este presente

presente que acontece na exata hora imprópria
em ponto!
na mesa do bar, diante um copo vazio
e mais um desencontro

ontem hoje todo dia após dia
in-louco
in-glório
o presente que chega na hora já esperada:
atrasado
in-certo

mas a culpa é do correio!
e da falta de um destinatário
garrancho na caligrafia
X em endereço inexistente
acaba por ser mais um presente-ausente

não
é para Ti que preparo este presente

oceano de enganos
amor socialista
e antes do tombo
um passo de dança
e de repente
quase um amor anarquista

não
é para Ti que preparo este presente

sobra de lua de nuvem dois sós
presente desarvorado
teima fazer de Eu, de Ti, um Nós

e quando recebes este presente
e pregas e despregas e reviras e revoltas e
descrédito por não-estar nenhum mal-estar ausente

não
é para Ti que preparo este presente

todavia eu sei
que no lugar de um vale presente
preferirias uma flor no cabelo
um tropeço de rima
um poema brega
brincadeira de borboletas
e uma folha que rodopia ao vento

Um comentário:

Leo Gonçalves disse...

Ternura desesperada de estraçalhar o espírito. Ficou ainda mais bonito.