28.12.07

Jejuo também por democracia real


Por Dom Luiz Flávio Cappio - de Sobradinho, BA


(no calor das discussões que venho acompanhando, ainda sem conseguir fundamentar uma opinião sólida sobre o assunto da transposição do rio são francisco, este texto me levou a organizar melhor meus pensamentos, levantando questões relevantes sobre democracia, direito, ética, consciência política, (des)educação, equilíbrio ambiental, etc. questões que tem que fazer parte das nossas discussões diárias junto a uma mobilização de opinião pública, exigindo do governo uma participação do povo na tomada das decisões que afetam os nossos recursos naturais e humanos).

Acusam-me de inimigo da democracia por estar em jejum e oração combatendo um projeto do governo federal autoritário, falacioso e retrógrado, que é o da transposição de águas do rio São Francisco.

Meu gesto não é imposição voluntarista de um indivíduo. Fosse isso, não teria os apoios numerosos, diversificados e crescentes que tem tido de representantes de amplos setores da sociedade, inclusive do próprio PT.

Vivêssemos uma democracia republicana, real e substantiva, não teria que fazer o que estou fazendo.

Um dos mais graves males da "democracia" no Brasil é achar que o mandato dado pelas urnas confere um poder ilimitado, aval para um total descompromisso com o discurso de campanha, senha para o vale-tudo, para mais poder e muito mais riquezas. Tráficos de influências, desvios do erário, porcentagens em obras públicas e mensalões são práticas tradicionais na política brasileira, infelizmente, pelo visto, ainda longe de acabar. A sociedade está enojada e precisa se levantar.

Há políticos – e, infelizmente, não são poucos – que, por onde passaram na vida pública, deixaram um rastro de desmandos, corrupção, enriquecimento ilícito etc. Como ainda funcionam o clientelismo eleitoral, a mitificação de personagens, as falsas promessas de campanha, o "toma-lá-dá-cá" e mais deseducação que educação política do povo, esses políticos conseguem se reeleger e galgar posições de alto poder em governos, quaisquer que sejam as siglas e as alianças.

Na campanha do candidato Lula, o tema crucial da transposição era evitado o máximo possível. Mas as campanhas eleitorais, à base do marketing e das verbas de "caixa dois" das empresas, são tidas e havidas como grandes manifestações do vigor de nossa democracia, que, com urnas eletrônicas, dá exemplo até aos EUA...

O projeto de transposição não é democrático, porque não democratiza o acesso à água para as pessoas que passam sede na região semi-árida, distante ou perto do rio São Francisco.

O governo mente quando diz que vai levar água para 12 milhões de sedentos.

É um projeto que pretende usar dinheiro público para favorecer empreiteiras, privatizar e concentrar nas mãos dos poucos de sempre as águas do Nordeste, dos grandes açudes, somadas às do rio São Francisco.

A transposição não tem nada a ver com a seca. Tanto que os canais do eixo norte, por onde correriam 71% dos volumes transpostos, passariam longe dos sertões menos chuvosos e das áreas de mais elevado risco hídrico.

E 87% dessas águas seriam para atividades econômicas altamente consumidoras de água, como a fruticultura irrigada, a criação de camarão e a siderurgia, voltadas para a exportação e com seríssimos impactos ambientais e sociais.

Esses números são dos EIAs-Rima (Estudos de Impacto Ambiental/Relató rio de Impacto sobre o Meio Ambiente), públicos por lei, já que, na internet, o governo só colocou peças publicitárias.

O projeto de transposição é ilegal e vem sendo conduzido de forma arbitrária e autoritária: os estudos de impacto são incompletos, o processo de licenciamento ambiental foi viciado, áreas indígenas são afetadas e o Congresso Nacional não foi consultado como prevê a Constituição.

Há 14 ações que comprovam ilegalidades e irregularidades ainda não julgadas pelo Supremo Tribunal Federal. Mas o governo colocou o Exército para as obras iniciais, abusando do papel das Forças Armadas, militarizando a região.

A decisão do TRF (Tribunal Regional Federal) da 1ª Região, de Brasília, em 10/12 deste ano, obrigando a suspensão das obras, é mais uma evidência disso.

O mais revoltante, porque chega a ser cruel, é que o governo insiste em chantagear a opinião pública, em especial a dos Estados pretensos beneficiários, com promessas de água farta e fácil, escondendo quem são os verdadeiros destinatários, os detalhes do funcionamento, os custos e os mecanismos de cobrança pelos quais os pequenos usos subsidiariam os grandes, como já acontece com a energia elétrica.

Os destinos da transposição os EIAs/Rima esclarecem: 70% para irrigação, 26% para uso industrial, 4% para população difusa.

Temos um projeto muito maior. Queremos água para 44 milhões de pessoas no semi-árido. Para nove Estados, não apenas quatro. Para 1.356 municípios, não apenas 397. Tudo pela metade do preço previsto no PAC para a transposição.

O Atlas Nordeste da Agência Nacional de Águas (ANA) e as iniciativas da Articulação do Semi-Árido (ASA) são muito mais abrangentes, têm prioridade no abastecimento humano e utilizam as águas abundantes e suficientes do semi-árido.

Fui chamado de fundamentalista e inimigo da democracia porque provoquei que o povo se levantasse e, disso, os "democratas" que me acusam têm medo.

Por que não se assume a verdade sobre o projeto e se discute qual a melhor obra, qual o caminho do verdadeiro desenvolvimento do semi-árido? É nisso que consiste a nossa luta e a verdadeira democracia.

Dom Luiz Flávio Cappio, é bispo diocesano da cidade de Barra (BA) e autor do livro Rio São Francisco, uma Caminhada entre Vida e Morte

12.11.07

ofereça seu sangue quente
no tilintar de um cale-se de cristal

silêncio!
te bebo

E um filete de gota
escorrega
pelo canto de minha boca

pinga no pico do breu
e escorre
qual nascente de rio
(e eu me rio, só rio)
pelas pedras do meu peito

atravessa o vale
rochoso de minhas costelas
inunda o centro do meu eu
fertiliza o intumescido ventre

e meus olhos se fecham

Revista Viva Voz

em 2006 participei de uma oficina de escrita literária, ofertada pela professora Elisa Amorim no curso de letras da ufmg, que teve como produto final a edição de vários textos escritos e escolhidos pelos alunos do curso na revista viva voz. aqui seguem os dois textos que escrevi e que fazem parte dessa revista.

agradeço o carinho da professora em nome de todos os alunos que participaram desta disciplina.

la lata :: revista viva voz

Se sentían comprimidos, avergonzados, condensados, apretados, oprimidos, sintetizados, humillados, amasados.

Los rostros derrotados eran más que cansados. Y pagaban por eso. Todo el peso del mundo ejercía presión por todos los lados. Perfecto simulacro de una lata de sardinas. Necesitaban pagar por eso. Humanos desafiando la física ¿Cómo dos cuerpos no pueden ocupar el mismo espacio? Y pagaban caro por eso.

Los ciudadanos dentro de la lata sobre ruedas sudaban. Termómetros acusaban: el día más caliente del verano. Pocos sentados. La mayoría de pie. Todos temblando juntamente con el motor que roncaba. Aquella lata cantaba de manera insoportable. ¿Por qué Dios creó nuestros oídos? Y las personas pagaban por eso.

Gente acostada en las ventanas abiertas aprovechando el alivio del viento horno. Los otros apilados, de brazos alzados, sosteniendo en equilibrio los cuerpos unos de los otros. La total colectividad individual, con dificultad de respirar, agonizaba y pagaba por aquel aire que olía a día de trabajo y de competitividad por empleo, por dinero, por status, por oportunidad, y ahora, por espacio. Y pagaban por lo no-merecido.

Fuera de la lata empezaba una lluvia mansa que al toque con el asfalto incandescente producía un bochorno aún más insoportable que el calor del sol. El bochorno quería también el espacio de la lata, que ya poseía el calor de su motor y el sudor de los cuerpos, y entró sin pagar por eso transformando la lata en una olla de presión. Y el cocido humano pagaba siempre por eso.

La velocidad oscilaba en sucedidas paradas para que los sujetos ya compactados bajaran y otros embarcaran. La lata cada vez más cargada y lenta, con la pereza de una babosa, se arrastra por las laderas de la ciudad y en frenadas bruscas y arrancadas estúpidas, y en trazado de curvas ondulantes, seguimiento rectilíneo, todo eso como reglas de un juguete de cuerpos que obedecían al ritmo impuesto: para frente para tras, para la derecha para la izquierda, ahora lanzamiento oblicuo. Sin orden, al acaso. Los cuerpos obedecían, amontonados y deprimentes. Y pagaban el viaje con dinero roto, sudado, pero siempre pagaban por eso.

instrucciones para despertarse temprano :: revista viva voz

*
Conozco la dificultad que todos tienen a la hora de despertarse temprano. Sé que los cinco minutos, no más, se vuelven en media, una hora pasada y no sentida en la cama, y que esto resulta en retraso en el trabajo o en la escuela. Conozco a los inconvenientes de este tipo de suceso, el mal humor del jefe o de la directora o del profesor que no te espera, y de la caradura que tienes que ponerte pintada de un color medio rojo de vergüenza.

Para que no te sientas intimidado con este tipo de constreñimiento voy a enseñarte paso a paso mi receta de cómo puedes despertarte sin pérdida de tiempo.

Mientras suena el timbre del despertador es natural que te dé ganas de tirarlo contra la pared, pero, como eres civilizado, así lo creo, despiértate y da sólo una patadita en el aparato sin abrir los ojos, para que suene nuevamente de aquí a cinco minutos. Este objeto es irritante pero necesario en tu cotidiano, no lo destruya.

Continúa este ratito en la cama todavía de ojos cerrados y despacio recuérdate en medio a las ilusiones de los sueños que es día de trabajo, o de estudio, o de trabajo y estudio a la vez. A las siete en punto tienes que estar listo en el sitio donde debes estar. Intenta, entonces, abrir los ojos, pero están pesados de sueño, intenta recordarte de los sueños que tuviste esta noche, pero no logras hacerlo - esto solamente pasa cuando menos se espera, cuando algún acontecimiento del día te tira a la cara los recuerdos de tus sueños en la noche pasada. El despertador canta nuevamente.

Los cinco minutos pasaron. Alarga ahora tus brazos y estira las patas lentamente para despertarte. Así puedes tocar el despertador para que se calle. ¡Coraje hombre! ¿Sigue difícil abrir los ojos? Los friega, los estira, alarga sus párpados hacia arriba y después de tanta gimnasia ocular forzosamente los abre. Siéntate en la cama.

Mira alrededor y reconoce tu habitación ¿Los materiales que vas a necesitar en el día ya están arreglados en la mesilla? Si no, apúrate. Llena tu pecho de coraje y ponte de pie. Haz un alargamiento ahora. En las puntas de los pies estira todo tu cuerpo hacia arriba. Intenta tocar los dedos en el techo y después en los dedos de los pies.

Si no logras hacerlo, no te enojes contigo. Solamente la práctica nos lleva a la perfección. De ojos rojos paso a paso vete al baño. Saca tu pijama, abre la ducha y lava tus sueños con agua y jabón. El agua calientito termina el trabajo del despertador. La toalla suave da el cariño que tu cuerpo merece para enfrentar el día.

Ahora estás listo para vestirte, desayunar, lavar los dientes, rezar, dar un besito en tu hijo y ¿qué te pasa? ¿Por qué continúa ahí parado? ¡Vete al trabajo, hombre!


10.6.07

te escrevo perdão
me inscrevo esquecimento
em cada gota noturna que me chove de dentro
e ainda
em cada máscara rasgada
outra se forma em pedra
pedra cada vez mais muro
e ainda
muro de máscaras
risos, bocas, caretas
que de tão alto
e ainda
sou feita de som que me desfaz
sou feita de oco que se quer silêncio
e esse eco enfadonho que tange
e esse muro
e ainda
em cada perdão
instante estrangeiro
inscrevo memória em pedra lascada
─ esquecimento
e sonho
e ainda