28.11.10

José :: de Carlos Drummond de Andrade


E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama protesta,

e agora, José?


Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?


E agora, José?

Sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio - e agora?


Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?


Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse…

Mas você não morre,

você é duro, José!


Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José!

José, pra onde?

*

8.11.10

~


!para julieta sueldo boedo!


o aprendido é quando a vida nada
feito sêde que nada
feito fala que nada
feito falta que nada
feito dor que nada
...solução? que nada
então, esquece...
que nada, peixe, que nada

~

desvario a partir da filosofia popular:
"Para o que não tem solução, a sêde do peixe ensinou a dizer nada"

~

8.10.10

regalo

no esperaba yo por nadie ni por nada
pero él me esperaba en mi cama
era amarillo serio y cerrado
y cerrado se quedó hasta que yo notase su presencia
decía mi nombre deletreándolo con letras grandes
y cuatro paisajes repetidos de una mítica Tierra del Fuego
en sus ojos brillaban
y me esperaba...
con la calma que sólo el cielo espera el sol de la oscuridad
para de nuevo volver el sol de la claridad del día siguiente
porque siempre vuelve la claridad después de la oscuridad
y también al revés
pues uno se completa al otro
y de nuevo al revés
cuando mis ojos miraron los suyos
cuando a él
me lo abrí
y eso me lo dijo


*

!para gabriela carrión!

~

a Bela e o Dragão :: Mário Quintana

As coisas que não têm nome assustam, escravizam-nos, devoram-nos...
Se a bela faz de ti gato e sapato, chama-lhe, por exemplo, A BELA
DESDENHOSA. E ei-la rotulada, classificada, exorcizada, simples marionete
agora, com todos os gestos perfeitamente previsíveis, dentro do seu papel de
boneca de pau. E no dia em que chamares a um dragão de JOLI, o dragão
te seguirá por toda parte como um cachorrinho...

[Mario Quintana; Sapato Florido, 1948]

*

3.10.10

memória :: carlos drummond de andrade



Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

*

25.9.10

DVDs “Os Sertões”, :: Cia. Oficina Uzina Uzona


Lançamento dos filmes de Os Sertões

Direção Geral: Zé Celso Martinez Corrêa Codireção Geral: Camila Mota e Marcelo Drummond Produção: Lucas Weglinski e Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona
Patrocínio: Petrobras
Local: Cine Livraria Cultura – Sala 1 – Conjunto Nacional – Avenida Paulista, 2073. Metrô Consolação.
Ingresso: Os ingressos não serão vendidos. A sessão será para convidados e aberta ao público (que terá acesso a sala após a entrada dos convidados de cada sessão). A entrada estará sujeita a lotação da sala (300 pessoas).

A Terra (Direção de Tommy Pietra) Dia 27 de setembro, 19h (abertura para convidados) e 20h (estréia). DVD simples – Duração: 190 minutos.

O Homem I (Direção Fernando Coimbra) Dia 28 de setembro, 18h (estréia). DVD duplo, com dois atos – Duração: Ato 1/DVD 1 – 165 minutos; Ato 2/DVD 2 – 125 minutos. TOTAL: 290 minutos.

O Homem II (Direção Marcelo Drummond e Gabriel Fernandes) Dia 29 de setembro, 18h (estréia). DVD duplo, com dois atos – Duração: Ato 1/DVD 1 – 191 minutos; Ato 2/DVD 2 – 145 minutos. TOTAL: 336 minutos.

A Luta I (Direção Elaine César) Dia 30 de setembro, 18h (estréia). DVD duplo, com dois atos – Duração: Ato 1/DVD 1 – 188 minutos; Ato 2/DVD 2 – 162 minutos. TOTAL: 350 minutos.

A Luta II (Direção Eryk Rocha e Pedro Paulo Rocha) Dia 1º de outubro, 12h (estréia). DVD duplo, com dois atos – Duração: Ato 1/DVD 1 – 220 minutos; Ato 2/DVD 2 – 149 minutos. TOTAL: 369 minutos.

Prêmios da montagem teatral Os Sertões A TERRA ganhou o Prêmio Shell 2002 nas categorias Melhor Direção e Melhor Música * O HOMEM I ganhou o Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de Melhor Espetáculo de 2003 * A LUTA I ganhou os Prêmio Bravo Prime de Cultura de Melhor Espetáculo de 2005, oferecido pela Revista Bravo!; Prêmio APCA de Melhor Espetáculo; Prêmio Shell 2005, na categoria melhor Cenografia e Categoria Especial de Direção de Cena.

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para mais informações acesse o site oficina

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19.9.10

A Vertigem :: grupo Patela Cia teatro&dança

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O espetáculo traz em cena Fédon, príncipe insigne, escravo, bailarino de prostíbulos da Grécia antiga, discípulo de Sócrates. Sua trajetória é marcada pela dor e pelo amor, elementos básicos de sua filosofia.
O trabalho mistura teatro & dança na encenção, pesquisa que vem sendo realizada desde 2008 pelo fundador do grupo, Robson Vieira.

nos dias 24, 25 e 26 de setembro, em Belo Horizonte, acontecerá a estréia de um trabalho ainda em processo de criação, ou seja, essa primeira apresentação faz parte do laboratório cênico que continua em experivivências depois da estreia.

talvez esse seja seu maior encantamento para nós do grupo: apresentar uma obra onde a indeterminação e o acaso são causa e consequência de uma busca racional capaz de conhecer o estado presente d'a Vertigem, prever seu futuro e reconstituir o passado dessa mesma busca.

intérprete corporal: Robson Vieira;
diretor: Claudio Márcio;
Texto: Patrícia MC Quade (co-autores: Robson Vieira e Claudio Márcio)
Cenário e Figurinos: Juliana Palhares
fotografia: Luciene Oliveira
Produção : A Patela Cia teatro&dança.

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onde?
no Espaço Ambiente! rua Grão Pará, 185 - Santa Efigênia

sexta às 20h (com bate papo depois do espetáculo); sábado às 20h e domingo às 19h.
ingressos a preços mais que populares!

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Heróis

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eduardo galeano
(tradução livre :: patrícia mc quade)

Desde longe, os presidentes e os generais mandam matar.

Eles não brigarão mais do que em disputas conjugais.

Não derramarão mais sangue do que num corte ao barbear-se.

Não respirarão mais gases venenosos do que cospe o automóvel.

Não se afundarão no barro, por muito que chova no jardim.

Não vomitarão pelo cheiro dos cadáveres apodrecendo ao sol, senão por alguma intoxicação de sanduíches.

Não lhes perturbarão as explosões que despedaçarão pessoas e cidades, sen
ão os foguetes que celebrarão a vitória.

Não lhes perseguirão o sonho os olhos de suas vítimas.


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bibliografia: GALEANO, Eduardo. Bocas del tiempo. Buenos Aires : Catálogos, 2004, p. 321.

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"El sueño de la razón produce monstruos" :: goya (1746 / 1828)

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Poema para Lili :: de Fernando Pessoa acriançado

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Levava eu um jarrinho
P'ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P'ra comprar pão:
E levava uma fita
Para ir bonita.

Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p'ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!

Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Pra ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.

Fernando Pessoa