22.10.08

ensaio sobre a cegueira :: filme de fernando meireles

“Se podes olhar, veja. Se podes ver, repara."

(epígrafe do livro Ensaio sobre a cegueira de Saramago)

é engraçado conhecer como aconteceu toda a idéia de adaptar o livro Ensaio sobre a cegueira através dos relatos do próprio diretor. tudo começou entre uma leitura apaixonada de Fernando Meireles e um não seco de José Saramago em vender os direitos autorais do livro para uma versão cinematográfica: “cinema destrói a imaginação?”, aqui fica um ponto de interrogação.

por causa desse “não” veio a compra dos direitos autorais de Cidade de Deus, o célebre e clássico filme do cinema brasileiro. depois de anos de trabalhos bem sucedidos, e não menos sofridos, o mesmo diretor recebe a proposta de um produtor canadense para dirigir a versão de um filme, nada mais nada menos que o famigerado livro do autor do “não” amargo: José Saramago. coincidências acontecem? sei não! talvez não, para não perder a poesia do destino. acho que algumas coisas devem estar escritas nas estrelas do céu ou do inferno. o título do roteiro era Blindness, o Ensaio Sobre a Cegueira.

a produção foi coletiva: José Saramago, autor português da idéia original do livro; Don McKellar , autor do roteiro; Niv Fichman, produtor canadense; Fernando Meireles, diretor brasileiro; Sonoko Sakai, produtora japonesa responsável por 60% do investimento financeiro; Potboiller, a produtora inglesa do Jardineiro Fiel, responsável pela parte de contratos e negociações; Andrea Barata Ribeiro e a Bel Berlinck, como as produtoras do Brasil. time essencialmente cosmopolita. cenas do filme foram filmadas inicialmente no Canadá, depois em Montevidéu e por fim em São Paulo.

um encontro com Saramago em um restaurante em Portugal faz dissolver toda a má impressão do não inicial impactante e Fernando Meireles é tratado de forma amável pelo escritor. esse fato rendeu ao diretor um sentimento de que o filme deveria suprir todas as expectativas de Saramago, tarefa difícil ao se pensar nas exigências estéticas desse autor de imagens fortes construídas com palavras, e também na dificuldade que há em se fazer uma boa versão de um clássico da literatura universal – sabemos que muitos filmes desse naipe ficam aos pés dos livros.

isso definitivamente não ocorreu com esse filme de produção brasileira e canadense que goza de estrondoso sucesso. adaptação de obra literária para o cinema sempre foi e será polêmica entre os amantes tanto da literatura como do cinema, sem pensar nos que amam apaixonadamente as duas artes, como eu.


nas telas, o mundo branco da cegueira é transmitida pelos projetores das salas de cinema e nosso tão conhecido mundo urbano se esvai no branco do tempo, do espaço, da história dos personagens e até no branco de seus nomes. não se sabe ao certo quando, onde, como, porque e quem estava ali quando a cegueira coletiva aconteceu. o filme conseguiu a proeza de acompanhar a temática da obra literária sem se prender necessariamente a ela. questiona os valores e a moral humana, a ética nas inter-relações pessoais e incomoda o espectador que não consegue se posicionar diante do filme como um simples observador da narrativa que se constrói diante de seus olhos. a ironia sutil, porém nefasta, reside em cada personagem que se constrói e o espectador parece reconhecê-los sem conseguir admitir hipoteticamente o que virá a seguir.

de acordo com o diretor, o filme se divide como no teatro, em três atos: o primeiro apresenta os personagens se deparando com a cegueira pura e crua, sem explicação, pouco a pouco no tempo da narrativa, mas em um ritmo acelerado em tempo cronológico para o espectador, que acompanha com assombro e condoído o sofrimento e a agonia dos personagens, assim como acompanha o que irá acontecer dali para frente. esse efeito acontece ainda que o espectador saiba de forma premeditada o enredo da história.

no segundo ato os personagens se encontram no asilo, onde os cegos são abandonados à própria sorte e morte. recursos de filmagens com imagens distorcidas, opacas, nebulosas ou abstratas, provocam o efeito de aflição naqueles que assistem e daqueles personagens que de uma hora para a outra romperam a linha tênue entre a civilização e o caos, sem, contudo explorar cenas pesadas de violência, como por exemplo, o estupro das mulheres da ala 1 pelos devassos da ala 3 que se apoderam de toda comida do asilo e se propõem vendê-la por sexo.

essas cenas são fortes para o espectador que as acompanha, cala a nossa alma diante das vozes violentas dos agressores. a câmera sobe. fica o clima tenso e cruel do estupro e da morte pairando no ar. contudo, apesar de tudo isso ser muito mais que sugerido, não é o foco do filme. o objetivo é apresentar para quem assiste como a força súbita do poder indiscriminado se faz sentir com uma intensidade destruidora, como a fúria e a veemência da coação resulta cruel e egoísta subjugando o direito do outro, como o constrangimento físico e moral pode obrigar pessoas a se submeterem à vontade de outrem; enfim, como as relações de poder autoritário acontecem coagindo o oprimido que luta para sobreviver.

já no terceiro ato, quando os cegos conseguem finalmente fugir do asilo e encontram toda a população restante imersa na cegueira absoluta, no caos do abandono e do vandalismo mostrando o lado animal do ser humano, começam a construir o retorno de si mesmos ao estado primordial de seres humanos, reconstroem sua reabilitação moral e a reestruturação de suas vidas socialmente, humanamente, só ai eles voltam a enxergar.

tudo termina enfim bem? depois da cegueira coletiva os seres humanos se tornarão mais humanos? e o resto dos cegos do asilo, o que aconteceu com eles? um filme não precisa responder a todas as perguntas do espectador. o final não é absolutamente um final feliz porque os personagens centrais voltaram a enxergar e compartilham momentos de paz e prazer. os problemas da cegueira humana dita metafórica ainda não foi solucionada. o filme não é uma obra fechada e circunscrita em si mesma. o diretor deixa algo a se pensar em suspenso. ainda tem muita coisa a ser imaginada sobre o filme. o diretor passa a narração para o espectador. que façamos então a nossa parte!

apesar de o filme tratar de uma enfermidade patológica, ele toca no aspecto sócio-político da cegueira metafórica em que vivemos. convida o espectador a refletir sobre sua própria cegueira carregada de imagens virtuais de ordem superficialmente estética, sem nos darmos conta da essência de quem somos enquanto seres humanos e de nossa atual superestrutura política e social ao qual estamos sempre sendo condicionados e controlados.

para tanto, Fernando Meirelles lavra a imaginação do espectador como um agricultor lavra a terra: limpa seu campo de visão viciado pela superficialidade, aduba as emoções sem extrapolar os recursos técnicos de gosto mercadológico da violência cinematográfica escancarada e cultiva a auto-reflexão sobre nossa condição de estar no mundo. se vale, então, de uma equipe forte: excelentes atores como Julianne Moore, Alice Braga, Gael García Bernal, Ysuke Iseya, Yoshino Kimura, Danny Glover, Mark Ruffalo e Don McKellar; uma fotografia primorosa e trilha sonora que se encaixou perfeitamente à atmosfera do filme criada pelo grupo Uakti.

preciso dizer mais alguma coisa?


Um comentário:

leo gonçalves disse...

bonita, maravilha seu texto. aumentou um monte a minha ansiedade para ver o filme.